Children of the Nameless - Capítulo 12

Escrito por MypCards
Publicado em 14/03/2019
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Capítulo 12: Tacenda


Tacenda sempre ouvira falar da Pedra Seelen no tom mais estranho e contraditório. Os aldeões abençoavam o Anjo Sem Nome por tê-la concedido aos Acessos. Eles pareciam estar orgulhosos da relíquia, que acalmava as almas dos seguidores da igreja, impedindo-os de ressuscitarem como um geist ou outra criatura abominável.

Mas também impedia que uma alma retornasse ao Pântano. Assim, ainda que os nativos dos Acessos se orgulhassem da bênção do Anjo, a maioria resistiu à conversão à igreja. Tacenda entendia. A Pedra Seelen era uma bênção extraordinária, mas era como um boi recebido de presente quando você não tem uma carroça para puxar ou nenhum campo para arar. De alguma forma, ela se sentia tanto grata pela coisa quanto desconfortável.

Ela não imaginava que eles a guardariam nas catacumbas. Rom conduziu-a por uma escadaria estreita e espiralada, com sua lamparina iluminando pedras antigas, erodidas não pelo vento ou pela chuva, mas pela passagem infinita de passos humanos.

O ar tornou-se frio, úmido, e eles entraram em um reino de raízes, vermes e outras coisas sem visão. Na parte inferior, eles não encontraram nenhuma porta, mas um estranho mural de pedra retratando anjos em pleno voo.

Rom pressionou uma parte específica da pedra — um pequeno botão, disfarçado como uma pequena cabeça de anjo, que afundou no resto. Algum mecanismo antigo fez a pedra se abrir. Não era exatamente uma barreira — qualquer pessoa com tempo suficiente provavelmente poderia ter encontrado a protuberância para empurrar — mas era um lembrete. Mesmo no mais santo dos lugares, mesmo na casa de um artefato destinado a acalmar espíritos, era sensato manter uma porta trancada entre você e seus mortos.

Eles passaram pela abertura e entraram nas catacumbas, as quais precediam a existência do priorado em sua forma atual. Tacenda esperava deparar-se com crânios, mas encontrou apenas passagens estreitas. As paredes estavam cheias de fileiras de pedras estranhas, com três palmos de largura talvez. Em forma de hexágonos, muitas haviam sido marcadas com o símbolo do Anjo Sem Nome.

“Nenhum osso?” perguntou ela quando Rom a conduziu para a direita.

“Não”, disse ele. “Ninguém aqui quer colocar corpos em exposição. Essas pessoas merecem descanso, não espetáculo. Aquelas pedras nas paredes podem ser removidas, cada uma revelando um longo buraco escavado na parede. Colocamos o corpo numa prancha, o empurramos e depois selamos.”

Ela assentiu, seguindo-o em silêncio.

“Há muito espaço aqui”, disse Rom. “Quem construiu estas catacumbas criou muito espaço para corpos. Mas o seu povo não escolhe ser enterrado aqui com muita frequência, como é apropriado.”

“Nós…” Mas como ela poderia responder a isso? Era verdade. “O Pântano é nossa herança. Sinto muito.”

“Seu povo”, disse ele, “se equilibra entre duas religiões. Eu penso que vocês querem adorar as duas ao mesmo tempo, suportando as visitas dos sacerdotes, mas depois indo oferecer sua verdadeira devoção ao Pântano. Isso incomoda a prioresa, eu sei, mas não estou em posição de repreender. Eu mesmo segui dois deuses, poderíamos dizer. Durante a maior parte da minha vida, não fora a virtude, mas a emoção da caçada, o meu mestre.”

Ele a conduziu por um túnel curvo, depois pousou a mão em um símbolo gravado em um dos túmulos. As asas ascendentes, o símbolo do Anjo Sem Nome. O mesmo simbolo envolvia o pulso de Tacenda, acima da mão onde ela levava sua viola.

“Eu havia ouvido sobre esse seu Pântano”, disse Rom, “antes de vir para cá. Então eu não fiquei surpreso com isso. Mas este Anjo Sem Nome… muitos dos sacerdotes locais preferem usar seu símbolo do que o da igreja.”

“Avacyn é… era o Arcanjo”, disse Tacenda. “E ela presidia sobre hostes inteiras de outros anjos. É… era… a igreja dela, mas ela sempre foi uma divindade distante. Os fiéis aqui, como minha irmã, sempre preferiram um anjo mais pessoal”.

“Você me entendeu mal”, disse Rom. “Fiquei feliz em encontrá-la. Depois da traição de Avacyn, encontrar notícias de outro anjo que ainda amava seu povo… bem, isso me deu esperança. Espero que até mesmo um caçador rabugento e manchado de sangue como eu possa encontrar paz.”

Seus lábios se voltaram para baixo quando ele disse a última parte, por algum motivo, mas então ele apenas balançou a cabeça e a conduziu por um dos muitos caminhos ramificados nas catacumbas. Ele estava certo. Havia muito espaço aqui embaixo. Ela sempre imaginou algumas pequenas criptas, não essa rede de túneis. Por fim, chegaram a uma pequena sala de pedra com bancos acolchoados ao longo das laterais.

E ali estava a Pedra Seelen: uma pedra branca como um grande ovo de ganso, decorando um pedestal no centro. Rom fechou as sombras da lanterna para mostrar que a pedra brilhava com uma luz suave própria. Uma radiância inconstante e leitosa, como as cores do óleo na água. Elas giravam em um padrão sereno, como se a Pedra Seelen fosse preenchida com diferentes líquidos iridescentes, fluindo em uma procissão circular eterna.

A respiração de Tacenda parou. Era linda.

“Dizem que ela fica mais brilhante cada vez que um habitante dos Acessos se entrega à igreja”, disse Rom.

“Posso… posso tocá-la?”

“Melhor não, jovem senhorita”, disse ele. “Mas você pode olhar. Aqui, sente-se e observe os padrões.”

Incapaz de desviar os olhos da corrente transfixante de cores, Tacenda recuou até encontrar um dos bancos, depois sentou-se, colocando a viola no colo.

“Eles sempre colocam os novos sacerdotes aqui, como um dos primeiros deveres, para vigiar a pedra,” disse Rom suavemente. “Nós não a vigiamos o tempo todo, mas é uma boa prática para alguém meditar aqui enquanto permanece em alerta a noite toda. Já faz um tempinho desde que eu tive esse trabalho. Mas lembro-me de permanecer aqui por noites a fio, apenas olhando fixamente e pensando. Sobre todos os anos que esta pedra testemunhou.

“Ela foi dada inicialmente a um sacerdote solitário, que a manteve em um sacrário. Então, uma igreja foi construída para ela, assim como as catacumbas para abrigar os mortos. Finalmente, a prioresa veio e finalmente encontrou aqui uma edificação apropriada. A pedra testemunhou tudo isso e muito mais. Talvez eu não devesse ser presunçoso, pequena senhorita, mas isso é sua herança tanto quanto aquele Pântano.”

“Lorde Davriel me disse mais cedo que meu povo fala demais sobre destino. Ele disse que eu deveria decidir meu próprio caminho, em vez de acreditar em coisas como o destino.”

Ela olhou em direção a Rom e viu a luz da Pedra Seelen fluindo em seu rosto. “O que você acha?”, perguntou ele.

“Não sei”, disse ela. “Parece-me que, basicamente, é impossível escolher por si mesmo. Quero dizer… se eu fizer o que Davriel diz, como isso seria diferente de fazer o que a minha aldeia me diz? Isso não é independência. É apenas a opção por uma influência diferente.”

Rom grunhiu e Tacenda continuou observando as luzes em movimento. Ela percebeu que Rom a trouxera aqui para evitar que ela se envolvesse no conflito entre Davriel e a prioresa. Em vez de buscar água, ele só perguntou se ela estava interessada em ver a pedra.

Davriel… ela se lembrou daquele olhar em seus olhos, aquela sombra, quando eles encontraram Brerig morto. Davriel tinha a segunda escuridão em seus olhos. Um vazio para consumir toda a vida e deixar o mundo tão frio quanto ele…

“Rom?” perguntou ela. “Você já pensou nos demônios que matou quando era mais jovem? Você se preocupou com a dor que estava causando a eles?”

“Não”, disse o velho caçador. “Não, quando eu era jovem, não posso dizer que me preocupei.”

“Oh.”

“Quando eu fiquei mais velho, porém”, ele disse, “e os anjos enlouqueceram? Sim, pensei sobre isso então. Eu imaginei: será que a minha vida inteira se resumiria à matança? Não havia uma forma de acabar com isso? Criar um mundo onde os homens não precisassem temer nem a escuridão nem a luz?”

“Você encontrou… alguma resposta?

“Não. É por isso que eu finalmente fui embora.” Ele olhou para cima, depois acenou para ela, gesticulando. “Venha, vamos ver qual foi o dano no andar de cima.”

Tacenda assentiu, pegando sua viola e juntando-se a ele. Quando saíram, no entanto, ela notou algo que havia passado despercebido inicialmente. Ela estava tão focada na Pedra Seelen que não tinha visto que havia um mural na parede aqui também — pedra esculpida, ilustrando a derrota de um demônio terrível de uma história que ela não conhecia.

“Aquele mural”, disse ela. “Há um botão como o que você empurrou, sob os pés do demônio. É uma porta secreta também?”

“Sim,” disse Rom. “Você vai encontrar várias dessas aqui embaixo. A maioria não leva a lugar algum digno de nota — pequenas câmaras onde armazenamos equipamentos de embalsamamento ou depósitos de lixo”.

“Oh.”

“Aquela ali, no entanto,” ele continuou. “Ela leva a um túnel para fora das catacumbas, para a floresta. Este lugar aqui embaixo, não é apenas para os mortos. É um lugar para entrincheirarmo-nos se algo nos atacar. Podemos nos esconder aqui e sair por uma das saídas secretas.”

Ela assentiu, pensando sobre o fato. Mesmo o priorado — talvez especialmente o priorado — precisava de um local de retirada, caso um ataque ocorresse. Todos os edifícios e aldeias eram, na realidade, apenas fortalezas em meio à escuridão, com o cuidado de fechar seus portões e trancá-los firmemente à noite.

Quando saíram, ela olhou por sobre o ombro uma última vez para a pedra iridescente. Estranho que ela tenha vivido em Verlasen toda a sua vida, mas nunca tenha vindo aqui para ver a dádiva do Anjo Sem Nome.

E quem é ela para você? Você já a viu? Talvez fosse melhor que o Anjo Sem Nome tivesse desaparecido há muito tempo. Histórias haviam sido o suficiente para Willia, que era atraída por qualquer coisa que falasse em lutar contra a escuridão, mas não para Tacenda.

Ela apressou-se atrás de Rom, mas quando eles voltaram para as escadas, ela notou uma luz vindo de um dos outros corredores. Ela bateu no ombro de Rom e apontou.

“Oh”, disse ele. “Aquilo? É apenas onde preparamos os corpos dos mortos e os mantemos até a hora do enterro.”

Ela congelou quando Rom continuou. Os corpos dos mortos, aguardando pelo enterro? Como…

Tacenda não conseguiu evitar. Ela virou naquele corredor. Rom chamou por ela, mas ela o ignorou. Em pouco tempo, ela havia entrado em outra pequena câmara, iluminada por velas tremeluzentes em cima de montes de cera desprendida. A parede do fundo continha um relevo esculpido do Anjo Sem Nome — seu rosto escondido atrás do braço — segurando um entalhe da Pedra Seelen.

Três corpos, em seus trajes fúnebres, estavam em pranchas ao longo da parede. Um deles era o de uma jovem de cabelos curtos. Embora os outros confundissem as duas, Tacenda não conseguia entender a razão. Willia era mais magra e mais forte que Tacenda, o cabelo mais curto, mas de alguma forma mais dourado. E Willia era de longe a mais bonita, apesar do fato de que ambas tinham o mesmo rosto.

Rom a encontrou e então notou os corpos. “Oh! Que idiota eu sou, jovem senhorita. Eu deveria ter percebido.”

Tacenda se aproximou de Willia, abaixando sua viola com uma mão, tocando com a outra na bochecha do cadáver. Não, não é um cadáver, mas apenas um corpo. A alma de Willia ainda estava lá fora, recuperável. Assim como o de Jorl e Kari, cujos corpos também adornavam o lugar.

Willia parecia tão forte, até na morte. Enquanto os rostos dos outros eram máscaras congeladas de terror, ela apenas parecia estar dormindo. Tacenda manteve a mão sobre a bochecha de Willia, tentando transmitir um pouco de seu calor ao corpo em coma, como ela fazia ao cantar para sua irmã durante noites longas e frias, antes que ambas soubessem da extensão de seus poderes.

Você deve escolher seu próprio caminho, fazer seu próprio destino, dissera Davriel. Aquilo parecia algo banal de se dizer quando você era um lorde poderoso, quando você não tinha uma aldeia para cuidar ou uma família para proteger. Talvez não tenha sido o destino que manteve Tacenda em seu lugar perto da cisterna, cantando para afastar a primeira escuridão. Talvez tenha sido algo mais forte.

“Foi para aqui que você veio?”, vociferou uma voz aguda. Davriel entrou na câmara e seu manto se abriu ao redor dele, como se esticasse os braços após a caminhada apertada através dos corredores.

“Senhor!” disse Rom, curvando-se. “A prioresa está… Quero dizer…”

“Merlinde e eu chegamos a um acordo amigável”, disse Davriel. “No qual ela concordou que estava errada e eu concordei que matá-la seria muito aborrecedor. Tacenda, eu tenho aquilo de que vim em busca. Eu desejo estar longe deste lugar antes que seu fedor comece a se apegar à minha roupa.”

Ela afastou a mão da bochecha de Willia. A melhor maneira de ajudá-la — a única maneira — era ir com este homem. “Viemos ver a Pedra Seelen”, disse ela, seguindo-o. “Você acha que talvez ela possa nos ajudar de alguma forma?”

“Da última vez que a olhei,” respondeu Davriel, “não era nada mais do que um belo pedaço de rocha com uma bênção protetora de amortecimento simples sobre ela. Suas canções são várias ordens de magnitude mais potentes”.

“É uma relíquia poderosa”, disse ela, sentindo um pico de proteção. “Concedida a nós pelo próprio Anjo Sem Nome!”

“Um anjo que ninguém vê há décadas”, disse ele com uma fungadela. “A velha história é um disparate. Eu não sei de onde a pedra se originou, mas duvido que seja de um anjo. Por que ela daria uma relíquia supostamente poderosa a um insignificante pequeno grupo de aldeias? Seria muito mais eficaz em um centro populacional maior”.

“Nem tudo se resume a números brutos.”

“Claro que não”, disse Davriel, alcançando os degraus. “A verdadeira importância está em como esses números se somam.”

Ele subiu as escadas. Por que ele estava subitamente tão impaciente? Ela praticamente teve que suborná-lo para fazer com que ele investigasse antes de qualquer coisa.

Tacenda ficou para trás junto com Rom, que subia os degraus com um passo mais lento e mais deliberado, segurando o corrimão com força.

“Ele está errado”, disse Rom. “A magia da Pedra Seelen pode não ser poderosa, mas não precisa ser. Está aqui para abrigar as almas dos fiéis e a simplicidade do encantamento não significa que não seja importante. Da mesma forma que a fé. Não quero falar mal de seu senhorio, mas esse é o problema de ser inteligente como ele é. Você se acostuma a imaginar as coisas na sua cabeça e quando o mundo real não está de acordo você inventa desculpas.”

No topo da escada, ela notou um lugar mais para além no corredor, onde as paredes austeramente brancas estavam marcadas por terríveis símbolos negros, em formas que faziam seus olhos se contorcerem. Teria ele invocado demônios no meio do priorado?

Eles alcançaram a porta. “Obrigado Rom,” disse Davriel, “pelo seu serviço. Se algum dia eu for forçado a exterminar os membros deste priorado, o matarei por último. Miss Verlasen, vamos indo.”

Ele saiu para a luz. Rom levantou a lanterna apressadamente. “Meu senhor, você vai querer…”

Davriel estendeu a mão e invocou um jato de chamas para iluminar seu caminho enquanto atravessava o terreno do priorado.

Vendo isso, Rom suspirou. “É melhor eu dar uma olhada na prioresa”, disse ele a Tacenda. “Cuide-se esta noite, jovem senhorita. É uma escuridão perigosa nos observando. Isso ela é.”

Ela assentiu para ele em agradecimento, depois apressou-se atrás de Davriel. Embora ele não parecesse notar o calor da chama em sua mão, fez o rosto dela começar a suar.

Por que estamos com tanta pressa, de repente?”, perguntou ela. “Você descobriu algo útil?”

“Na verdade, não.”

“Então por que você está tão ansioso?”

Os demônios os viram chegando e Crunchgnar rolou a carruagem até eles ao longo da estrada escura. “Eu,” declarou Davriel quando ela chegou, “decidi que vou tirar um cochilo.”

Continua (...)

Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!

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