Children of the Nameless - Capítulo 7

Escrito por MYPCards
Publicado em 31/01/2019
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Capítulo 7: Tacenda

Tacenda parou na porta da igreja quando Davriel e os demônios se espalharam para investigar.

Ela conhecia os sons deste lugar intimamente. A maneira como as vozes ecoavam nos beirais. A maneira como a pequena fonte tilintava com o som de água de nascente. A prioresa instalou aquele símbolo de pureza pouco antes do nascimento de Tacenda — uma tentativa de representar águas limpas em contraste com a impureza do Pântano.

Tacenda tinha vindo aqui com Willia para atender aos serviços, ainda que ela mesma nunca tenha feito o juramento do Sono Abençoado. A igreja se preocupava com esse sinal de devoção verdadeira mais do que com todos os outros: a promessa de ter o corpo de alguém levado ao priorado para o enterro, em vez de aceitar o sepultamento no Pântano.

Tacenda seguiu até o estrado frontal e o altar, que tinha furos para velas e dois postes idênticos nas laterais. Em outros tempos, eles portavam o símbolo de Avacyn, o símbolo geral da igreja. Tacenda se lembrou de ter ajoelhado aqui quando criança, com uma mão em cada um dos postes. Sentindo o metal frio, os símbolos de bronze fundido, enquanto os sacerdotes rezavam por cima dela numa tentativa de curá-la de seu sofrimento.

Os símbolos de Avacyn haviam sido removidos por ordem da prioresa. Aparentemente, todos em Thraben adoravam um novo anjo agora. Mas será realmente possível mudar tão facilmente de fé? Trocá-la como quem muda de camisa? O que tornou esse novo culto melhor que o anterior? E por quanto tempo o antigo esteve comprometido?

Willia não foi a única que passara a usar o símbolo do Anjo Sem Nome, uma figura misteriosa que garantia aos Acessos a dádiva da Pedra Seelen, uma relíquia do priorado.

Crunchgnar bisbilhotou o interior do edifício com movimentos exagerados, como se estivesse se esforçando para provar o quão despreocupado estava por se encontrar dentro de uma igreja. Miss Highwater permaneceu próxima a Davriel, que inspecionava a barra destinava a travar a porta. Então, ele voltou sua atenção para as janelas, abrindo-as e olhando para as molduras.

Tacenda caminhou até os corpos, que repousavam na sombra. A lanterna solitária de Crunchgnar deixou a ampla câmara com um aspecto sombrio. Cerca de uma dúzia de pessoas havia perecido aqui, o equivalente a duas famílias. Eram os fiéis da aldeia, um punhado comparado àqueles que permaneceram em suas casas confiando na Canção de Proteção do Pântano.

Junto com eles estavam os corpos dos sacerdotes. Haviam três: a velha Gurdenvala era a sacerdotisa de sua aldeia, uma mulher que Willia sempre chamara de severa. Ela havia perecido no altar, erguendo um símbolo de Avacyn, um ícone agora proibido. Quando o perigo chegou, ela se voltou para a sua fé original.

Os outros dois sacerdotes vieram do priorado para tentar ajudar o povo nesta emergência. Tacenda também não os conhecia, ainda que o mais novo fosse Ashwin, o sacerdote que certa vez fizera um desenho de Willia. Seu corpo estava encolhido contra uma parede, com os olhos arregalados. Tacenda ajoelhou-se e apanhou do chão ao lado dele um caderno de desenho, encontrando em seu interior desenhos de pessoas. Sacerdotes, aldeões e vários da própria prioresa.

O último desenho foi um rápido esboço da igreja a partir desta perspectiva próxima à parede: os bancos em fila, as portas frontais escancaradas e a lua mais além. De pé na porta, desenhados como rápidos esboços inacabados, estavam figuras transparentes com rostos retorcidos. Imagens medonhas que a lembravam distintamente do que ela havia visto mais cedo na mansão de Davriel, quando o espírito do cátaro se transformou em um geist pavoroso.

Ela estremeceu com o desenho assustador, grosseiro, mas de alguma forma convincente. Ela conseguia imaginar o sacerdote ali, encolhido no canto, desenhando furiosamente enquanto as bênçãos protetoras da igreja e as preces falhavam. Ela levou o caderno de desenho até à frente da câmara onde Davriel e Miss Highwater estavam novamente inspecionando a porta da frente.

“O que é isso?” disse Davriel, caminhando até ela e tomando o caderno de suas mãos. “Muito escuro. Crunchgnar, que tal continuar acendendo as lamparinas aqui? Mal consigo ver o quão feio você é.”

Crunchgnar resmungou, mas começou a fazê-lo. Davriel virou o caderno de desenho para a luz e depois assentiu. “Faz sentido.”

“O que faz sentido?” disse Tacenda.

“Miss Highwater,” disse Davriel, devolvendo o caderno para Tacenda, “o que você acha desta situação?”

“As proteções da igreja resistiram, ao menos, por um breve momento,” disse Miss Highwater, apontando. “Arranhões nas portas e janelas, que parecem distintamente com as marcas feitas por geists tentando entrar por elas. Eles não precisariam fazer isso se pudessem simplesmente atravessar as paredes, como fizeram com as outras casas.”

“Excelente,” disse Davriel. “Miss Verlasen, esta é uma evidência convincente.”

“Evidência?” perguntou Tacenda. “De quê?”

“Esses Sussurradores não conseguiram entrar na igreja, pelo menos não a princípio. Os poderes dos sacerdotes foramsuficientes para detê-los.”

Tacenda olhou para a imagem dos espíritos na porta da igreja. “Você havia dito que era possível que os geists não tivessem sido afetados pela minha música porque eram muito poderosos. Mas se as proteções da Igreja os detiveram…”

“Eu duvido que algo poderoso o suficiente para ignorar completamente o Pântano seria, por sua vez, detido pelas bênçãos protetoras destes sacerdotes,” disse Davriel. “Dito isso, temos provas de que a autoridade do priorado consegue afastar a influência do Pântano. A reivindicação que é capaz de fazer sobre as almas enterradas aqui, por exemplo.”

“Como os Sussurradores não foram afetados por sua canção, mas foram detidos pelos sacerdotes, acho cada vez mais provável que eles sejam do Pântano. Na verdade, os espíritos que você ouviu sussurrando provavelmente eram pessoas de sua própria aldeia.

Ele atravessou a câmara com a bengala estalando no chão de ladrilhos da igreja.

Tacenda apressou-se atrás dele. “Quê?” perguntou ela, bruscamente. “O que você quer dizer?”

“Os ataques começaram devagar,” disse Davriel. “No início, apenas duas pessoas, seus pais, em uma jornada ao Pântano. Depois, mais algumas, aumentando em frequência, até o ataque final na aldeia. Por que tantos dias entre os primeiros ataques, depois um ataque crescente e esmagador no final?

“Suspeito que seja porque esses ‘Sussurradores’ são os próprios espíritos que estamos procurando, as almas desencarnadas de seus aldeões. Os espíritos podem perpetuar o roubo — uma vez que alguns geists tenham sido criados, eles poderiam ter sido enviados para arrebanhar outros. O efeito multiplicativo poderia aumentar seus números rapidamente, ampliando suas fileiras para ataques maiores e mais ousados.”

Tacenda ficou paralisada, horrorizada pela ideia, mas ela fazia uma espécie distorcida de sentido. O rosto da sua irmã… ele não estava assustado quando ela foi levada. Poderia ser que ela, de alguma forma, reconheceu os geists que vieram atrás dela? Poderiam ter sido… seus pais?

“Miss Highwater,” disse Davriel. “Várias perguntas permanecem. Alguém parece estar ajudando o Pântano, como evidenciado pelos passos que ela ouviu. Isso nos leva à resposta de como a igreja foi violada. As bênçãos protetoras estavam, afinal de contas, resistindo.”

“Vampiros?” conjeturou Miss Highwater.

“Um excelente palpite.”

“Mas errado?” perguntou ela.

Davriel sorriu.

“Espere,” disse Tacenda. “O que é isso sobre vampiros?”

“A porta foi aberta por dentro,” disse Miss Highwater, apontando. “A barra foi removida voluntariamente, sem sinais de uma entrada forçada. Seu desenho prova que os espíritos entraram através da porta. Então, alguém os deixou entrar, por isso que pensei em vampiros. Uma criatura que possa controlar a mente de alguém do lado de dentro e o fazer abrir as portas.”

“E apenas abrir as portas permitiria que espíritos entrassem em uma igreja protegida?” perguntou Davriel.

“Não tenho certeza.” Miss Highwater franziu a testa.

“Além disso, poderia alguém dos Acessos ser submetido ao controle da mente?” perguntou Davriel. “Você já tentou entrar na mente de algum deles? Digo-lhe que não é uma experiência agradável. O toque do Pântano é bastante poderoso.”

“Então…” perguntou Tacenda, “O que aconteceu?”

“Verifique os corpos dos sacerdotes,” disse Davriel, acenando na direção dos cadáveres.

“Eu acabei de fazer isso,” disse Tacenda.

“Então faça um trabalho melhor desta vez, Miss Verlasen.”

Ela franziu a testa, mas caminhou até o cadáver do jovem sacerdote, ajoelhando-se ao seu lado. Ela o olhou, depois — tímida de início — virou o corpo dele. Ele não está realmente morto, disse a si mesma. Ele está apenas dormindo. Eu vou salvá-lo, assim como salvarei Willia.

Seu corpo não parecia diferente de nenhum dos outros. Ela se moveu até o sacerdote mais velho do priorado, que estava deitado de bruços, com a cabeça virada para o lado. Ele tinha a mesma expressão congelada e vítrea que todos os outros. Tacenda o rolou para o lado.

E encontrou uma ferida de punhal em seu peito.

Ela gritou, soltando-o, mas Miss Highwater pegou o corpo e virou-o totalmente. Ele foi morto com uma lâmina. Como Tacenda não percebeu isso?

Quase não há sangue no chão, pensou ela. A frente de suas vestes estava manchada, mas não havia um acúmulo de sangue embaixo dele.

“Seu corpo congelou como os outros, assim que sua alma foi tomada,” disse Miss Highwater. “Droga, Dav, como você sabia?”

O Homem da Mansão passou por eles, parecendo satisfeito consigo mesmo enquanto começou a vasculhar o altar.

“O que isso significa?” perguntou Tacenda.

“Alguém o apunhalou, o que interrompeu sua oração,” disse Miss Highwater. “Então esse alguém abriu as portas e deixou os Sussurradores entrarem. Havia um traidor na aldeia.”

“Sim,” disse Davriel. “Você sabe exatamente quem estava neste salão no momento em que eles barraram aquelas portas?”

“Não,” disse Tacenda. “Foi um momento confuso e eu ainda estava cega. Minha visão só voltou logo após o anoitecer.”

“Talvez seja interessante que alguém investigue a cidade em todo caso,” disse ele. “De forma que possamos ver se alguém está desaparecido. Uma tarefa que talvez possamos designar aos sacerdotes do priorado, pela manhã. A menos que… Miss Tacenda, sua irmã está morta, de forma que não podemos interrogá-la. Mas você disse que um sacerdote estava entre aqueles que me identificaram. Você sabe qual sacerdote?”

“Edwin,” disse Tacenda. “Um homem mais jovem. Ele topou com você… ou com alguém vestido como você, suponho… atacando alguns mercadores locais. Aquela foi a primeira vez que alguém relatou o envolvimento de geists…”

Ela parou. Aqueles foram os primeiros ataques após a morte de seus pais e Edwin havia relatado ter visto dois geists. Parecia óbvio, depois que Davriel havia apontado. Aqueles dois tinham sido… tinham sido seus pais.

O horror daquilo ameaçou dominá-la de repente. Ela caiu no chão ao lado do sacerdote apunhalado, cercada por cadáveres. Seus pais, sua irmã, o povo da aldeia — eles foram mortos, corrompidos, forçados a retornar e a arrancar as almas daqueles que amavam. E Davriel falou que o Pântano estava envolvido? Que ele queria isso por alguma razão?

Tacenda havia adotado uma espécie de foco para se manter em movimento — primeiro, focou estritamente em atacar o Homem. Depois, focou em tentar salvar sua irmã. Mas se ela realmente parasse para pensar em como tudo isso era terrível…

Ela era a última protetora da aldeia. Mas, no final das contas, ela mal havia alcançado a adolescência e não tinha ideia do que estava fazendo. O que ela faria se o próprio Pântano estivesse contra ela? Se a dádiva dele era inútil, o que ela era?

Ela abraçou a si mesma e desejou pela primeira vez ter alguém para cantar para ela, como ela cantava para Willia durante a noite. Ela desejou poder ouvir a Canção da Alegria, aquela que, a cada momento que passava, ela parecia estar esquecendo…

“O sacerdote, criança,” disse Davriel com uma voz estranhamente suave. “O que você sabe sobre ele?”

“Não… não muita coisa,” disse Tacenda, agitando-se. “Ele é natural dos Acessos, mas foi instruído em Thraben. Você certamente não acha que ele está envolvido nisto, acha?”

“Eles podem ter aberto as portas da igreja para um sacerdote,” disse Davriel.

“Isso explicaria muita coisa,” disse Miss Highwater. “Alguém parece ter passado por essas portas e depois apunhalado o sacerdote enquanto ele orava, permitindo que os geists entrassem.”

“Não estou fazendo nenhum juízo absoluto ainda,” disse Davriel, ainda vasculhando atrás do altar. “Não tenho nenhuma teoria concreta sobre por que um sacerdote trabalharia em conjunto com o Pântano. Sequer posso dizer por que o Pântano mataria seus próprios adoradores, se é que de fato isso aconteceu.”

“Então… o que faremos a seguir?” perguntou Tacenda, piscando e tentando recuperar o foco. Ela não podia pensar muito sobre isso, caso contrário não aguentaria.

Eles não estavam mortos. Willia não estava morta. Concentre-se nisso.

“Precisamos de magia que possa dar conta dos geists,” disse Davriel.  “Preferiria um feitiço para rastreá-los. Às vezes, se você puder isolar um geist e então confrontá-lo com algo bem familiar de quando ele era vivo — uma ferramenta de trabalho, talvez —  ele se recuperará o suficiente par responder a algumas perguntas. Talvez queiramos também alguma magia que estabilize e ancore suas formas, forçando-os a permanecer corpóreos para que possam ser resistidos fisicamente.”

“Você possui esse tipo de magia?” perguntou ela.

“Não,” disse Davriel. “Tecnicamente, tenho poucos talentos para chamar de meus.”

“Mas…”

“Posso pegar emprestado de outros, Miss Verlassen,” disse Davriel. “Eu sou um simples mendigo, um servo de todas as pessoas.”

Crunchgnar bufou enquanto acendia outra lamparina. A câmara continuava com pouca claridade.

“Muitas pessoas,” continuou Davriel, “têm algum tipo de talento menor, um pendor para a magia, uma aura de fé ou mesmo alguma prática de feitiçaria. Eles verdadeiramente não possuem inspiração para fazer uso dessas bênçãos. Eu lhes dou uma ajudinha.”

“Ele faz isso,” observou Miss Highwater, “entrando em suas mentes e arrancando à força suas habilidades mágicas, que ele utiliza, quando preciso.”

“Que horrível!” disse Tacenda.

“Não me entenda mal,” disse Davriel. “Dói em mim quase tanto quanto dói neles, especialmente se a magia que eu roubo é de alguém particularmente hipócrita. E eles recuperam os talentos logo após a minha intervenção, então qual é o mal? Aha!

Ele se levantou de repente, erguendo algo.

“Quê?” perguntou Tacenda. “Uma pista?”

“Melhor,” disse ele, virando o pequeno pote. “A sacerdotista estava armazenando um pouco de chá de pó de salgueiro.” Ele desenroscou a tampa e seu rosto desabou.

“Vazio?” perguntou Tacenda.

“Vocês, camponeses, foram excepcionalmente preguiçosos nas últimas semanas,” disse ele. “Sim, sim. Sendo mortos por geists e tudo o mais. Mas fracamente…”

Um baque soou do lado de fora e uma sombra obscureceu a frente da igreja. Um dos dois demônios voadores — Tacenda não conseguia distinguir um do outro — mergulhou na câmara, segurando uma lança e falando com uma voz rouca. “Mestre. Cavaleiros portando lanternas se aproximaram da cidade.”

“Quê?” disse Davriel. “A essa hora da noite?”

“Eles atiraram em nós quando nos viram,” disse o demônio, segurando uma seta de besta. “Gutmorn foi atingido na perna. Ele aterrissou em cima de uma casa próxima para se recuperar, mas os cavaleiros estão vindo diretamente nesta direção. Eles se parecem com caçadores de demônios.”

Davriel soltou um suspiro alto e deliberado e lançou um olhar para Tacenda.

“Não é possível que você esteja me culpando por isso”, disse ela.

“Culparei quem eu quiser,” retrucou ele. “Yledris, vá buscar Brerig e a carruagem. Veja se ele consegue chegar aqui antes…

Uma seta de besta bateu contra a porta de madeira ao lado de Yledris e gritos subiram nas redondezas.

“Ou,” disse Davriel, “talvez apenas barrar a porta.”

Continua (…)

Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!

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