Children of the Nameless - Capítulo 10

Escrito por MYPCards
Publicado em 26/02/2019
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Capítulo 10: Davriel


De acordo com o relógio de bolso de Davriel, eram quase duas da manhã quando chegaram à última estrada, aproximando-se do priorado. Davriel esperava que a garota cochilasse em algum momento durante a viagem, mas ela continuou olhando para as árvores e os padrões de sombra criados pela passagem deles.

Naturalmente, fazer o percurso em silêncio não significa dizer que Davriel tenha sido deixado em paz.

Não podemos nos esconder por muito mais tempo, disse a Entidade. Precisamos nos preparar para o que fazer quando formos descobertos.

Você vem dizendo isso há meses, respondeu Davriel em sua mente. E aqui estamos nós. Ainda em segurança. Ainda sozinhos.

Eles estão à sua caça. Eles irão encontrar o seu esconderijo.

Procurarei outro, então.

Davriel podia sentir a Entidade agitando-se dentro de sua mente. Davriel sentiu cheiro de fumaça e sua visão desapareceu. A Entidade estava brincando com seus sentidos novamente.

Você não se lembra da emoção, da glória da conquista? Dizia ela. Você não se lembra do poder daquele dia?

Eu lembro, respondeu Davriel, com fumaça espessa em suas narinas, de ter percebido que eu atrairia muita atenção. Que a força que eu tinha, não importa quão gloriosa, não seria suficiente. Que aqueles que desejassem apoderar-se de você me derrotariam facilmente se eu ficasse sozinho diante deles.

Sim, disse a Entidade. Sim, houve… sabedoria nessa percepção.

Davriel inclinou a cabeça, depois baniu os toques da Entidade sobre seus sentidos. O quê? ele pensou sobre isso. Você concorda que eu não deveria tê-lo usado mais ainda naquele momento?

Sim, disse a Entidade. Sim.

Estranho. A Entidade normalmente desejava que ele recorresse a ela e utilizasse-a para seu verdadeiro propósito — como um vasto reservatório para alimentar seus feitiços. Com a Entidade, ele conseguia fazer suas habilidades roubadas durarem semanas sob uso constante. Normalmente, os feitiços que ele roubava das mentes dos outros desapareciam algumas horas depois que ele os empregava pela primeira vez. Alguns duravam mais e outros desapareciam depois de alguns minutos, principalmente se ele os tivesse conservado por um tempo antes do primeiro uso.

Você ainda não está pronto, disse a Entidade. Eu percebi isso. Tenho trabalhado em uma solução. O multiverso ferve na sua ausência. Forças colidem e as fronteiras entre os planos tremem. Eventualmente, o conflito o encontrará. Farei com que você esteja pronto e preparado. Pronto para levantar-se e reivindicar a posição que é legitimamente sua…

A Entidade silenciou-se e não respondeu quando ele a incitou. O que ela estava planejando? Ou seriam estas apenas mais promessas e ameaças inúteis?

Sentindo-se gelado pela conversa, Davriel voltou sua atenção para a tarefa em mãos. Ele havia roubado várias habilidades dos caçadores na igreja. No entanto, ainda que as tivesse em conta, era difícil não perceber o quão pareciam insignificantes comparados ao poder da Entidade.

Esqueça isso. Da líder dos caçadores, ele roubou um feitiço de banimento muito interessante. Era forte, mas, como provado por sua tentativa de usá-lo contra ele, não poderia afetar um humano. Ele poderia usá-lo para dispensar uma criatura mágica, como um geist ou até mesmo um anjo, embora os efeitos fossem temporários.

A piromancia, é claro, também se mostraria útil, embora agora que a tinha usado uma vez, sua força desapareceria até deixá-lo por completo. Ele esperava encontrar algo útil na mente do velho diabolista, mas o único talento que ele encontrou no crânio daquele homem foi o feitiço de tinta de escriba, que faz palavras aparecerem em uma superfície da forma como você as imaginar. Não tem muita utilidade em combate. Porém, ele também tinha o feitiço de invocação de armas. Isso duraria, como a piromancia, por algumas horas.

Não era um arsenal particularmente poderoso, mas ele sobrevivera anteriormente com menos que isso e, em breve, ele adicionaria os talentos da prioresa. De fato, a luz da frente na velha estrada da floresta indicava que eles estavam perto. Tacenda animou-se em seu assento. Ela era durona, embora isso não fosse incomum para nativos dos Acessos. Tão resistentes quanto rochas e tão teimosos quanto javalis — e com quase tanto juízo quanto ambos. Do contrário, teriam encontrado outro lugar para morar.

Claro, pensou Davriel consigo mesmo, o que isso diz sobre mim, um homem que, de todos os lugares possíveis, veio impulsivamente morar aqui?

Você não veio impulsivamente, disse a Entidade a ele. Eu o trouxe aqui deliberadamente.

Davriel sentiu-se subitamente alarmado. Ele endireitou-se no assento, fazendo com que Miss Highwater, sentada de frente para ele, fechasse o livro-razão e ficasse alerta.

Quê? respondeu Davriel de forma exigente. O que você acabou de dizer?

A Entidade acomodou-se novamente, ficando em silêncio.

Você não me trouxe aqui, pensou Davriel em reposta. Eu vim para Innistrad por vontade própria. Por causa da população demoníaca deste plano.

Mais uma vez, a Entidade não disse nada. Miss Highwater olhou em volta, tentando descobrir o que o preocupava. Davriel se obrigou a colar uma expressão despreocupada no rosto. Certamente… certamente a Entidade estava meramente zombando dele.

E, no entanto, ele nunca a ouvira dizer nada que, pelo menos, ela não acreditasse que fosse verdade.

A carruagem desacelerou quando se aproximou das luzes, duas enormes lanternas cobertas de vidro com óleo queimando. Fogo: o sinal universal de que a civilização está adiante.

“Hô, a carruagem!” chamou uma voz amigável.

Tacenda se animou. “Eu conheço esse homem, Davriel. É Rom. Ele é…

“Estou familiarizado com ele”, disse Davriel. “Obrigado.”

Miss Highwater suspendeu a cortina da janela, revelando o velho monge aproximando-se do veículo.

Rom fez uma reverência — ele estava um pouco trêmulo — para  Davriel. “O Homem em pessoa! Lorde Davriel Greystone! Imaginei que devêssemos esperar vê-lo esta noite.”

“Minha visita tornou-se inevitável depois que os caçadores foram enviados atrás de mim, Rom”, disse Davriel.

“Sim, suponho que seja verdade”, disse Rom, olhando para a estrada em direção ao priorado, visível ao longe, com a luz derramando de suas janelas. “Bem, isso é uma preocupação para os homens mais jovens.” Ele se virou para a carruagem e acenou para Miss Highwater. “Devoradora de Homens”.

“Rom”, disse ela de volta. “Você parece bem.”

“Você sempre diz isso, senhorita”, disse Rom. “Mas enquanto você não mudou nada em quarenta anos, eu sei muito bem que me transformei em um pedaço de couro deixado por muito tempo ao sol.”

“Os mortais envelhecem, Rom”, disse ela. “É o caminho de vocês. Mas eu preferiria apostar no pedaço de couro que resiste há quarenta anos do que na nova peça ainda não testada.”

O velho sorriu, mostrando alguns dentes perdidos. Ele olhou para Crunchgnar que, a julgar pela maneira como a cobertura grunhiu sob seu peso, havia se aproximado para observar o velho caçador.

“Bem, vamos até à prioresa, senhor”, disse Rom a Davriel. “Desde que cheguei e contei a ela sobre a aldeia, ela estava querendo falar com…” Ele parou, olhando para a carruagem. Começou a falar novamente ao notar Tacenda no assento pela primeira vez. “Miss Tacenda? Ora, você disse que permaneceria na minha cabana!”

“Eu sinto muito, Rom.”

“Eu a encontrei no meu banheiro”, observou Davriel. “Com um olhar vingativo e um instrumento enferrujado na mão. Arruinou uma das minhas camisas favoritas quando ela me apunhalou.”

“Ela?” disse Rom. Davriel poderia ter esperado que o homem ficasse chocado, mas ao invés disso ele apenas riu e deu um tapa na perna dele. “Bem, isso foi um feito de bravura, Miss Tacenda! Eu poderia ter dito que seria inútil, mas… esfaquear o próprio Homem? O Pântano deve estar bem orgulhoso de você!”

“Hmm… obrigado,” disse ela.

“Bom, eu estou feliz em vê-la em segurança, senhorita! Eu estava indo de volta atrás de você, depois de dizer à prioresa o que você me disse. Mas ela disse que precisava de todos os soldados aqui, até mesmo um velho como eu. Só por garantia. Então ela me colocou observando a estrada.”

Rom abriu a porta para Miss Highwater sair. Normalmente, quando Davriel visitava, ela e os outros demônios aguardavam do lado de fora do priorado. Enquanto isso, um dos monges ou sacerdotes levaria Davriel e a carruagem para dentro. Esta noite, no entanto, Davriel a impediu, saltando da carruagem ele mesmo.

“Dav?” perguntou Miss Highwater.

“Quero você aqui fora, com a carruagem”, disse ele. “Se algo acontecer, posso precisar que você se junte a mim rapidamente.”

“Vocês poderiam simplesmente entrar todos juntos”, disse Rom. “Perdão, senhor, mas eles poderiam, se quisessem.”

“Tenho certeza de que a prioresa adoraria isso”, disse Davriel.

Ela não é o senhor deste solo”, disse Rom. “Perdão, mas é a verdade do próprio arcanjo que ela não é. E se você está preocupado com a luz destruidora, bem, eu não acho que nenhum desses filhotes aqui tenha poder suficiente para você temer — e minha própria habilidade não é suficiente para chamuscar a um único diabo hoje em dia.”

Davriel olhou para Miss Highwater e ela sacudiu a cabeça. Crunchgnar provavelmente teria apreciado a chance de pisar em solo sagrado e profanar um altar ou dois, mas Davriel não perguntou a ele. Em vez disso, ele acenou para que Tacenda se juntasse a ele. A jovem mulher saiu, trazendo sua viola.

Davriel deixou sua bengala-espada, confiante de que poderia invocá-la com seu feitiço recém-adquirido. “Esteja pronto”, disse ele a Crunchgnar. Então ele acenou com a cabeça para Rom, que guiou o caminho ao longo da estrada, em direção ao priorado.

Folhas eram trituradas sob os pés e coisas se agitavam nas árvores. Provavelmente apenas animais da floresta. Um número incomum deles vivia perto do priorado. Davriel passou por entre as lanternas queimando ao longo da estrada, entrando na clareira onde, no centro de uma suave encosta, o priorado erguia-se orgulhoso sob a lua. O longo prédio de um único andar sempre parecera solitário para ele.

Tacenda olhou por cima do ombro para os demônios. “Eu não entendo”, ela disse suavemente para Davriel. “Rom age amigavelmente para você, mas ao mesmo tempo eu sinto como se estivéssemos caminhando para a batalha.”

“Meu relacionamento com o priorado é… complexo”, disse Davriel. “Quanto a Rom, vou deixá-lo falar por si mesmo.”

“Senhor?” disse Rom, olhando para trás enquanto seguia à frente deles. “Eu não tenho nada para dizer que valha a pena ouvir”. Eu fico de fora dessas coisas hoje em dia. Já tive o suficiente dessa tolice quando mais jovem.”

“Você conhece Miss Highwater”, disse Tacenda.

“Eu tentei destruir esse demônio por dez anos”, disse Rom, resmungando em seguida. “Quase morri meia dúzia de vezes naquela missão idiota. Eventualmente eu aprendi: nunca cace um demônio mais esperto do que você. Foque nos estúpidos. Há muitos para manter um caçador ocupado a vida inteira.”

“Eu pensei que você caçava lobisomens quando era mais jovem”, disse Tacenda.

“Eu caçava o que quer que tentasse caçar homens, senhorita. Primeiro foram demônios. Então lobos.” Sua voz ficou mais suave. “Então anjos. Bem, isso quebrou homens mais fortes que eu. Quando tudo se acalmou, descobri que tinha me tornado um homem velho, com os melhores anos da minha vida passados com sangue até os joelhos. Vim para aqui para tentar fugir disso, lavar um pouco de tudo aquilo, passar algum tempo caçando ervas daninhas…”

“Você conhece um sacerdote chamado Edwin?” perguntou Davriel.

“Claro”, disse Rom. “Sujeito ansioso. Jovem.”

“Fale-me sobre ele,” incitou Davriel.

“Sua cabeça está cheia de conversas sobre a justa inquisição. Conversas das mentes mais zelosas no coração das terras humanas. Ele já começou a percorrer uma estrada, do tipo que você nunca percebe que só leva a uma direção… Ele olhou de volta para Davriel. “Eu não deveria dizer mais nada. Fale com a prioresa.”

Alguns cátaros do priorado aguardavam às portas da entrada a sudeste. Mantos brancos por cima de couros, com grandes colares e chapéus pontiagudos que escondiam seus rostos. Eles olharam para Davriel.

“Chapéus legais”, observou ele enquanto entrava no priorado. A igreja realmente tinha as melhores proteções para a cabeça.

Rom guiou o caminho por um pequeno corredor e Davriel seguiu, com seu manto ondulando, escovando as duas paredes. O priorado era um lugar humilde. A prioresa evitava a ornamentação, preferindo corredores sombrios de madeira pintados de branco. Eles desceram os degraus até às catacumbas, onde guardavam aquele artefato estúpido que disseram ter sido dado a eles por um anjo.

A passagem de Davriel atraiu alguma atenção — cabeças espiando pelas portas, outras correndo para espalhar a notícia de que o Homem estava de visita. Ninguém o interrompeu, pelo menos não até ele se aproximar da porta da prioresa. Pouco antes dele chegar, um sacerdote irrompeu de um corredor lateral e, em seguida, — com o rosto ruborizado de uma rápida corrida — posicionou-se entre Davriel e seu destino.

Ele era um homem jovem, de cabelos negros e hirtos, com a aparência de um homem com o dobro da sua idade. Ele não usava armadura, apenas as vestes de sua posição, mas ele imediatamente puxou sua espada longa e apontou-a para Davriel.

“Pare aí mesmo, demônio!” disse o jovem.

Davriel levantou uma sobrancelha e olhou para Rom. “Edwin?”

“Sim, senhor”, disse Rom.

Eu não tolerarei seu reinado de terror”, disse Edwin. “Todo mundo sabe o que você fez. Uma aldeia inteira? Você pode assustar os outros, mas eu fui treinado para lutar pelo que é certo”.

Davriel estudou o jovem, cuja mão livre começou a brilhar. Esse era, com frequência, o primeiro instinto deles, tentar acertá-lo com a luz destruidora. Eles estavam tão seguros de que, secretamente, ele era algum tipo de monstro não natural — em vez de apenas um homem, o monstro mais natural de todos.

“Edwin”, disse Rom. “Acalme-se, rapaz. Isso não vai acabar bem para você.

“Não consigo acreditar que você o deixou entrar aqui, Rom. Você se esqueceu das nossas primeiras lições! Não fale com os monstros, não discuta com eles e, mais importante, não os convide para entrar.”

“Você diz que me viu na estrada sete dias atrás”, disse Davriel. “Você diz que eu estava lá, com dois geists, atacando alguns mercadores. Como era a minha aparência?”

“Eu não tenho que responder a você!” Disse Edwin, erguendo a espada, com luz de lamparina brilhando na lâmina.

“Você ao menos viu a minha máscara?”

“Eu… você fugiu para a floresta antes que eu pudesse ver!”

“Eu fugi? A pé? Eu não usei uma carruagem? E você simplesmente me deixou ir?”

“Você… você desapareceu na floresta com seus geists. Eu não vi sua máscara, mas a capa é bem evidente. E eu não fui atrás de você porque eu precisava ver como estavam suas vítimas!”

“Então você disse a todos que me viu”, retrucou Davriel, “quando tudo o que você realmente viu foi um vulto indistinto com uma capa?”

“Eu… eu sabia o que você era…” disse Edwin, vacilando. “Os inquisidores falaram sobre lordes como você! Alimentando-se dos inocentes. Procurando aldeias desprotegidas para dominar. Seu tipo é uma praga sobre nossa terra!”

“Você estava procurando um motivo para me culpar por algo”, disse Davriel. “Essa foi apenas a primeira oportunidade que você encontrou. Garoto tolo. Quão alta era essa figura que você viu?”

“Eu…” Ele parecia estar reconsiderando sua acusação.

Davriel ergueu a mão e esfregou os dedos, invocando a piromancia roubada. O poder ainda estava com ele, embora estivesse desaparecendo. Ele fez chamas dançarem ao redor de seus dedos.

Edwin estava mentindo de propósito ou não? Poderia Edwin ter planejado matar os pais de Tacenda por algum motivo, depois deixado a irmã escapar para que ela pudesse identificar o assassino como Davriel? Teria ele próprio atacado os mercadores e usado o ataque para fazer todo mundo focar em Davriel?

Talvez ele pudesse arrancar a verdade através do medo.

“Rom”, disse Davriel, “você deveria buscar um pouco de água. Eu odiaria queimar o lugar por acidente. E talvez também um esfregão para lidar com o que sobrar deste jovem.”

“Sim, senhor”, disse Rom. Ele pegou Tacenda pelo braço, levando-a para longe do conflito, mais adiante no corredor.

Edwin empalideceu — mas, em sua defesa, tentou atacar Davriel. No final das contas, não foi uma manobra ruim. O manto de Davriel, no entanto, produziu pós-imagens que confundiriam a todos, exceto os espadachins mais precisos. O ataque do garoto foi para a direita. Davriel se afastou, depois bateu de leve na lâmina com sua unha.

O jovem se virou, rosnando, depois atacou novamente. Davriel, por sua vez, ativou o feitiço de invocação de armas. Fazer isso enviou uma pequena pontada de dor para dentro de sua mente. Feitiço estúpido. Ainda assim, funcionou, trazendo para a mão a última arma que ele tocou: neste caso, a espada do jovem sacerdote.

Edwin tropeçou, desequilibrado, quando sua arma sumiu e depois reapareceu na mão de Davriel.

Davriel levantou a outra mão, deixando as chamas aumentarem ao redor de seus dedos. “Diga-me, criança”, disse ele. “Você realmente acha que eu fugiria de você?”

O jovem sacerdote cambaleou para trás, tremendo, mas arrancou sua adaga do cinto.

“Você realmente acha”, disse Davriel, “que eu roubaria almas em segredo? Se eu precisasse delas, eu as exigiria!”

Ele precisava de algo para engrandecer o momento. Talvez aquele feitiço de tinta que ele roubou do velho demonologista? Mal causou uma pontada de dor a Davriel ao usá-lo para pintar as paredes de preto, como tinta derramada. Ele fez letras sobrenaturais irromperem de onde a escuridão era mais pronunciada e se moverem pelo chão em direção a Edwin. Elas fluíam como sombras, escritas em ulgrothano antigo.

O jovem sacerdote começou a tremer visivelmente, recuando diante do rabisco arcano.

“Eu não matei aquelas pessoas”, disse Davriel. “Elas me serviam bem. Mas sua acusação causou um dano incrível. Quem está realmente por trás disso fugiu e usou você como uma distração. Então, responda minhas perguntas. Como era a aparência dessa pessoa?“

“Era… era mais baixo do que você”, sussurrou Edwin. “Mais magro, eu acho. Eu… eu tinha tanta certeza de que era você…” Seus olhos se arregalaram, enquanto as letras avançavam em sua direção. “Anjo sem Nome, perdoe-me!”

Ele se virou e fugiu.

Davriel observou o jovem ir, abaixando a mão e banindo a piromancia. Ele não sabia ao certo, mas seus instintos diziam que esse Edwin não era nenhum mestre do crime em segredo. Ele havia visto um ataque na estrada, talvez intencionalmente projetado para fornecer uma testemunha. De fato, parecia provável que o ataque aos pais de Tacenda tivesse poupado a irmã pelo mesmo motivo, de forma que ela corresse e contasse às pessoas o que tinha visto.

Será que quem estava por trás disso sabia que desaparecimentos repentinos causariam a disseminação de rumores, atraindo os caçadores para investigá-los? Os primeiros ataques poderiam ter como objetivo fornecer uma cobertura, desviando a atenção para Davriel.

Mais baixo do que eu, pensou Davriel. Ele tinha um metro e setenta e oito centímetros de altura. E mais magro. Isso não quer dizer muita coisa porque, com o seu manto, as pessoas geralmente o enxergavam como sendo maior do que ele é.

“Você já terminou?” falou uma voz em tom exigente ao seu lado.

Davriel se virou e deparou com a prioresa parada na porta do aposento dela. Com a pele enrugada e com a cabeça coberta por um coque prateado, ela estava envelhecida como uma velha cadeira que você encontrou no sótão — a lógica diz que ela deve ter sido nova um dia, mas você teve dificuldade em imaginar que ela realmente alguma vez tenha estado na moda. Roupas brancas simples cobriam seu corpo e seus lábios estavam marcados por uma carranca perpétua.

“Pare de ameaçar meus sacerdotes”, disse ela. “Você está aqui por mim. Se você tem que roubar uma alma, tome a minha. Se puder.”

“Terei vingança pelo que você me causou, velha”, disse Davriel.

Ele encontrou os olhos dela, e os dois se encararam por um longo período. Sussurros preocupados vieram do outro lado do corredor, onde monges e sacerdotes haviam se reunido para assistir.

Finalmente, a prioresa recuou e deixou Davriel entrar no pequeno aposento. Ele entrou bruscamente e, fechando a porta com um chute, jogou a espada para longe.

Então ele desabou na cadeira atrás da mesa. “Nós”, vociferou ele à prioresa, “supostamente tínhamos um acordo, Merlinde”.

Continua (…)

Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!

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