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  • O bom, o mal, o velho e o Legado.

    O bom, o mal, o velho e o Legado.

    por Piedade em 20/05/2019 - 70 Visualizações, 0 Comentários.

    Olá a todos, hoje venho fazer meu primeiro report de um torneio, e foi um torneio muito legal, começando pelo formato - o Legacy - discussões e gostos a parte o formato Legacy é realmente muito bom e super divertido de jogar, e contradizendo muitas pessoas, uma partida de legacy não acaba em 5 minutos.



    Realizado neste último domingo 19/05/2019 na loja Piedade Card House, em Londrina contando com jogadores de Londrina e região, foram 4 rodadas com corte para top 4.



    Joguei de Eldrazi Agro e o deck respondeu acima da expectativas, um deck muito bom, agressivo, rápido e tem repostas boas para vários decks do formato com um side bem versátil.



    Não vou conseguir detalhar bem as partidas pois joguei bem descontraído e não esperava escrever esse report.



    Então vamos aos matchs.



    1ª Rodada



    Arthur Rizzoti  0 X 2 Luiz Piedade



    Esse primeiro jogo o deck fez exatamente a proposta dele, uma mão rápida e agressiva e os Vidente do Nó do Pensamento entraram bem tirando as opções de repostas do Arthur, e também acho que as compras dele não foram muito boas.



    Comecei bem 1-0



    2º Rodada



    Felipe Alfaya 1x2 Luiz Piedade



    Jogar com Alfaya é sempre muito bom, ele tem ótimos decks e sempre tem um "coelho" guardado na cartola, desta vez ele jogou de Storm, um deck que do nada Comba e vc perde sem saber de onde veio a pancada.

    No game 1 um ele arriscou tudo baixou sua vida no último usando Ad Nauseam , fazendo várias magicas, finalizou com Gavinhas da Agonia. 1 – 0 Alfaya

    Game 2 – Por pouco a história não se repete, só não aconteceu de novo porque consegui tirar um tutor da mão dele usando  Vidente do Nó do Pensamento, mesmo assim ele arriscou tudo e não achou o combo, ganhei batendo na volta. 1-1

    Game 3 – Meu deck veio bem rápido, ele arriscou indo com 1 land , consegui fechar o jogo antes dele buscar o combo. 1-2 Piedade



    3º Rodada



    Luiz Piedade 0X2 Antônio Pisicchio



    Esse macht foi muito surpreendente para mim, não esperava um deck de soldado tão agressivo, mas vamos ao jogo.

    Game1 – Outra partida que não me lembro muito bem , choveu soldados na mesa com a ajuda de Capitão Preeminente, mas cheguei a ficar melhor  pois consegui fazer 3 Vidente do Nó do Pensamento, mas tive uma postura muito defensiva e os soldados se multiplicaram e com Capitão da Vigilância, perde a batalha. 0-1

    Game 2 – Praticamente um replay do game 1 , ele fez mais bichos, exilou meu Arrebentador da Realidade, quando ai baixou Jitte de Umezawa, e ganhou o jogo. 0-2 Piscchio



     



    4º Rodada

     



    Rafael Kenji 1X2 Luiz Piedade



    Sobre esse match vou comentar depois , Kenji grande amigo, já jogamos juntos em outras cidades. 1-2 Piedade.



    SemiFinal



    Luiz Piedade 2X0 Joao Araujo



    Nesta semifinal contra o João de Miracles um deck que eu acho muito difícil de jogar, mas vamos lá.

    Game 1 -Deck veio muito rápido fiz 2 criaturas turno 1, ele estava com Terminus na mão e não conseguiu por no topo, ganhei com os bichos batendo.

    Game 2 – Bem parecido com o primeiro game, a diferença , foi que meu Vidente do Nó do Pensamento, consegui tirar a Blood Moon da mão dele que iria me atrapalhar bastante, Arrebentador da Realidade, ganhou o jogo.2x0 Piedade



    Final



    Luiz Piedade X Rafael Kenji



    De novo com o Rafael , jogo duro !!!

    Game 1 – O que marcou este game foi um erro meu que me custou o game, tinham 2 Arrebentador da Realidade na mesa e não bati com os 2, ele tinha um Pescador Grumag e uma outra criatura que não me lembro, bloqueou meu arrebentador com Grumag, conseguiu tirar meu outro arrebentador e ganhou a game.

    Game 2- Nesta mão vim muito rápido, consegui fazer criaturas grandes com ajuda Arrebentador da Realidade e levei o game.

    Game 3 – Comecei bem fazendo Mímico Eldrazi, e planejando fazer, Arrebentador da Realidade no turno 2, mas tomei uma sequência de Terras Ermas, que prolongaram o jogo, quando já estava com 5 lands em campo mais o Monolito Sinistro, comecei a acionar habilidade do Olho de Ugin, de buscar criaturas e isso me fez ganhar a partida.  2X1 Piedade.



    Segue a lista que eu usei:



     



    Até a próxima!



     


  • O "power level" de uma carta

    O "power level" de uma carta

    por Buffix em 07/05/2019 - 252 Visualizações, 0 Comentários.

    Saudações, viajante!



    Recentemente um artigo publicado no site do MIT elegeu o nosso querido jogo de papelão como sendo o jogo mais complexo do mundo (Disponível em: www.technologyreview.com/s/613489/magic-the-gathering-is-officially-the-worlds-most-complex-game/). Segundo o autor do estudo, Alex Churchill, ao contrário de outros jogos como xadrez e poker os resultados de uma partida entre dois planinaltas são impossíveis de serem computadas pela quantidades de variáveis possíveis dentro do jogo. Para um desenvolvedor de jogos como a Wizards of the Coast isso é a prova de que apesar de existir um livro de regras que determinam as formalidades do jogo, existem caminhos sempre novos a serem explorados com mecânicas, variedades de decks e satisfação do consumidor em fazer um Karn Liberto turno 3 ou flipar um Investigador de Segredos // Aberração Insetídea no segundo turno. 



    O tópico de hoje tem como intuito discutir o "valor" adquirido de uma carta durante o jogo e porque ele varia tanto ao contrário de outros jogos. Para iniciar a discussão, gostaria de apresentar um conceito advindo de outro jogo de cartas famoso: poker. Para os jogadores de poker profissionais, que tentam ganhar uma renda a partir disso, é sempre necessário visar os ganhos a longo prazo dentro da mesa. Não adianta arriscar com um blefe todas as mãos ruins ou sempre apostar todas as fichas com mãos boas porque isso permite aos seus oponentes fazer uma leitura muito clara da sua estratégia e eventualmente, limpar suas fichas. Um dos conceitos normalmente usados pelos jogadores é o chamado expected value (valor esperado em Joel Santana).



    O exemplo mais simples desse conceito é analisar um jogo com uma moeda: toda vez que você tira cara você perde 10 reais, e toda vez que você tira coroa, você ganha 20 reais. "Que jogo idiota" vocês devem estar pensando, mas logo irão entender o motivo. A fórmula pra calcular o valor esperado dessa aposta é a seguinte:



    EV = (ganho possível) * (probabilidade de vencer) - (perda possível) * (probabilidade de perder)



    Traduzindo para o nosso jogo:



    EV = (20) * (0,5) - (10) * (0,5)



    EV = 10 - 5



    EV = + 5 reais



    Logo o valor esperado depois de 100, 200 jogos como esse seriam de 5 reais. Toda vez que o EV for um valor positivo, essa aposta irá gerar lucro no longo prazo enquanto que um EV de valor negativo irá gerar uma dívida no longo prazo. Enquanto que no poker existem possibilidades finitas e valores de aposta definidos, isso não é possível de se traduzir para uma linguagem de Magic. Pelo menos não de forma literal.



    Recentemente durante o Pauper MCQ - MagicFest Los Angeles tivemos a presença no top 8 de um deck que estou no processo de construção: o Esper Familiars.



     



    Não vou entrar muito em detalhes acerca da estratégia do deck mas gostaria de apontar duas coisas importantes: o piloto do deck, Joseph Hourani, é conhecido como um dos principais mestres desse deck, possuindo inúmeros vídeos explicando matchups e gameplays em campeonatos no Magic Online (420Dragon). E a segunda coisa que gostaria de apontar é uma carta em específica da lista utilizada por Joseph: Kirtars Desire. Durante o jogo das semifinais contra William Yoder que usava um UB Delver (um dos deck mais temido no pauper pela presença de Frustrar e Gurmag Angler no momento em que escrevo esse artigo), um dos comentários feitos pelos narradores me chamou atenção: nessa match o valor de uma Kirtars Desire se equivale a uma Espadas em Arados. Por não possuírem forma de interagir com o encantamento além de anular, a criatura entra em um estado de "exílio" no campo de batalha. Dessa forma, dentro dessa matchup em específico, essa carta se torna um removal mais eficiente do que Journey to Nowhere, mais comum em listas com branco como Boros Monarca. E acredito que, ao pensar na lista para o MCQ, o pensamento de Joseph Hourani foi justamente mirando os Gurmags do UB Delver, uma vez que, outros decks como Bogles, Boros Monarca, Tron e Mono U Delver conseguem de alguma forma interagir para que Kirtars Desire tenha quase que valor nenhum.



    Quando comparamos cartas dentro de outros formatos, como Foil e Force of Will, Raio e Skewer the Critics, Pteramander e Gurmag Angler, estamos constantemente fazendo uso do conceito de EV para avaliar as cartas. "Acredito que no longo prazo, essa carta irá me gerar lucro semelhantes à determinada carta dentro do formato". Por isso que sideboards são tão mutáveis quanto as próprias listas de maindeck, que se reinventam constantemente dependendo das matchups que um determindo deck pretende enfrentar. Por fim, imaginem como seria tentar explicar esse conceito de comparar cartas tão distintas em diferentes formatos para uma máquina? Acho que um dia os computadores irão conseguir fazer coisas maravilhosas, mas, por enquanto, somente nós com polegares opositores e serotonina no cérebro iremos dominar esse reino de cartas.



    Obrigado pela atenção.



    Buffix aka "Watanaka".



     


  • Report top 16 - Magic Fest SP 2019 #nãoésóumtronzinhobonito

    Report top 16 - Magic Fest SP 2019 #nãoésóumtronzinhobonito

    por NIshiyama em 16/04/2019 - 133 Visualizações, 1 Comentários.

    Fala galera, tudo certo?



    Sou o Rafael Kenji, jogo Magic competitivo há 3 anos, e nesse final de semana consegui fazer o primeiro resultado expressivo na minha vida de magiqueiro, um top 16 em um GP(magic fest). Confesso que na semana do GP estava um pouco chateado por questões pessoais, e decidi ir de última hora para distrair a cabeça, ver uns amigos etc. Fui completamente despretencioso, tranquilo, e acredito que essa tranquilidade foi um fator chave durante o torneio.



    Jogo de Affinitty há muito tempo, mas me frutrava muito com os resultados recentes do deck. Cogitei jogar de UW controle, mas na Quarta-feira eu vi que o Tron havia subido no metagame, e acabei optando pelo tron, segue a lista:





    Sideboard





     



    Dois dias antes do GP, comecei a ler artigos e assistir Gameplays sobre o deck, e cheguei a duas conclusões que pra quem já é familiarizado com o deck, são bastante óbvias: o deck mulliga MUITO bem. Você só precisa trincar(fechar as lands de urza), o que vier do topo pode resolver o jogo sozinho. O Thragtusk maindeck não foi uma decisão minha, e confesso que não gostei dele no main, mas continua possuindo muito valor.



    Vamos aos jogos:



    1 - Jogo (Tron x Bye)



    Como eu tive mais de 1300 pontos na temporada desse ano, eu tinha bye 1, logo 1-0



    2 - Jogo (Tron x Tron)



    Match mais insuportável possível, pois o dado decide bastante o decorrer dos games. No G1, eu keepei uma mão com 1 Floresta , 3 Agitações do Passado e 1 Auspício Silvestre  que eu me lembre. Como não conhecia meu adversário, mantive essa mão. Meu plano era: agitações, pega uma peça do tron, agitações, outra peça, auspício e karn na 4. O problema, foi que as duas primeiras agitações foram péssimas(EROOOOOU), não vi nenhuma peça do Tron. Meu adversário muligou a 5, trincou na 3 e começou a exilar meus lands com o karn. No G2, eu na play, trinquei no turno 3, fiz karn, exilei 1 land e ele concedeu(acontece muito nos mirrors). G3, eu na Draw, keepei uma mão com duas peças do Tron, 2 Mapa da Expedição , 1 Extração Cirúrgica e 1 Vidente do Nó do Pensamento . Para a minha sorte, ele fez uma floresta no turno 1, que me deu tempo para buscar um Ghost Quarter , destruir a Torre de Urza dele e dar uma Extração Cirúrgica . Na volta fiz 1 mapa, que tomou Nature's Claim , fiz outro mapa e também tomou Nature's Claim ,,,, e inciamos um G3 desesperador com uma guerra de topo infinita... consegui resolver um Thought-Knot Seer (vulgo zóião), e tirar o Zóião da mão dele. Meu zóião deu 4 tapas nele, e le conseguiu fazer um Karn Liberto e um World Breaker, achei a oitava mana do topo e fiz um Emrakul, o Fim Prometido , ele tinha 4 de vida, e eu trollei a board dele com o karn  e worldbreaker, tirei os blocks e foi um tapa do catoto 13/13. (2-0)



    3- Tron x BG pedra



    Essa match é razoalvelmente traquila para o Tron, só não é uma free win por causa de Field of Ruin e às vezes um descarte bem feito pode te atrapalhar bastante. G1, trinquei no turno 3, Karn Liberated  exilou um Dark Confidant, no turno 4 o Thragtusk deu às caras, e no turno 5 Ulamog, a Fome Interminável  fez um estrago nas lands pretas dele. G2, ele acertou um Campo da Ruína  e uma estração, somado a um clock de Tarmogoyf , Dark Confidant e Main Land. G3, Karn Liberto Turno 3, Vidente do Nó do Pensamento no turno 4, no 5 World Breaker buscando um Ulamog, a Fome Interminável  com o Santuário de Ugin, gg. (3-0)



    4- Tron x UR Fênix



    Nunca tinha jogado de Tron contra a Fênix, confesso que fiquei bastante perdido e com medo do clock, mas as Relíquia de Progenitus main ajudam bastante a segurar o começo do jogo, e outra tecnologia que havia visto na internet, era subir o Karn Liberated  ao invés de exilar permanentes, uma vez que o jogador de UR precisa resolver o Karn, se não o jogo acaba... Para isso, ele gasta MUITO recurso. Exemplo: Karn entra, exila uma carta da mão, no turno do outro jogador ele usa um Faithless Looting , descarta uma fênix, dá dois raios e volta uma fênix que bate no karn, o Karn ainda vai ter 1 marcador, e jogador adversário gastou 3 cartas, um tempo(com a fênixa atacando), e tem 2 cartas da mão exilada pelo menos. Esse tipo de jogada fez BASTANTE diferença no G1, ao passo que ele passou bastante tempo tentando resolver o Karn, e não conseguiu resolver, ficou sem cartas na mão e fiz um Ulamog, a Fome Interminável que resolveu o jogo. No G2, abri de mana Relíquia de Progenitus, e ele não conseguiu colocar ameças na Board, não lembro qual dos bigatos do Tron resolveu o jogo, mas foi bem tranquilo no geral. (4-0)



    5- Tron x Death Shadow



    No G1, minha adversária não encontrou a segunda land mesmo ciclando 2 Street Wraith e usando 1 Faithless Looting, então quando o Karn entrou, conseguiu exilar a única land e foi easy. No G3, parecia que estava jogando contra Grixis controle, tomei todos os counters possíveis e descartes possíveis, maaaas, como eu havia dito, uma ameaça que o Tron resolve, consegue levar o jogo sozinho, World Breaker  entrou e exilou uma land, e deu 2 tapas e foi GG. O Tron foi bastante injusto nesses dois games... (5-0)



    6- Tron x UW controle do Luís Salvatto





    Fui obrigado a Printar a tela dos pairings, porque foi muito emocionante pra mim. Se você está se perguntando quem é o Luis Salvatto, é apenas o melhor jogador de Magic do mundo. Sou fã incondicional desse cara, e na hora que saiu a rodada eu caí na risada, era um misto de dor e prazer: meu sonho era jogar contra ele, ,mas fui com a certeza da derrota. No Game 1, keepei uma mão de duas peças do Tron e mapa, triquei no turno 3 e tentei fazer um Karn Liberated  que foi Mana Leakado, no turno 4 ele fez um Jace, the Mind Sculptor e passou o turno, fiz um Ugin, o Dragão Espírito  que deu um Bolt no Jace. No turno 5 ele me deu um Campo da Ruína em uma peça do Tron e me deu uma Extração Cirúrgica(sim, de main deck), logo depois fez uma Detention Sphere  removendo meu Ugin, o Dragão Espírito ... aí meu desespero começou. Estava sem ameças, na board e no turno seguinte começou a me agrar de Colunata Celestial , e na minha draw phase fez fez uma Vendilion Clique e tirou meu Wurmcoil Engine , mas ainda tinha uma Pedra do Oblívio . Tomei duas muquetas de Colunata e Vendillion, fui a 2 de vida e consegui estourar a pedra no passe, voltando meu Ugin e tiron o Vendillion da mesa. Depois fiz o World Breaker , resolvendo a Colunata. Depois de dois turnos, ultei o Ugin, o Dragão Espírito e o Salvatto recolheu. (PORRAAA GANHEI UM GAME DO SALVATTO).



    G2: Side: -3x Wurmcoil Engine , -1x Pedra do Oblívio , -3x Relic of Progenitus, -1x Esfera Cromática  . + 3x Vidente do Nó do Pensamento , +1x Emrakul, o Fim Prometido ,+2x Nature's Claim , +2x Extração Cirúrgica .



    No segundo game, tomei dois Campo da Ruína  que atrasaram bastante meu jogo... Logo depois ele fez 1 Jace, the Mind Sculptor e 1 Teferi, Hero of Dominaria , que controlaram completamente o jogo. 1x1



    G3: Keepei uma mão trincada com 1 zóião, 1 Ugin e um mapa. No turno 3 eu trinquei, fiz o zóião, e deu um Path to Exile  em reposta ao zoião, busquei um land, ele deu um draw e tinha um Jace e um Negate na mão, tirei o Negate pra resolver o Ugin, o Dragão Espírito no próximo turno, ele achou um Nó Lógico do topo e anulou o Ugin, the Spirit Dragon . Passei o turno pra ele, ele fez o Jace e passou o Turno. Voltei de Ulamog, a Fome Interminável , buscando outro Ulamog com o Santuário de Ugin, exilei uma Colunata e o jace. No turno dele, ele usou Ejetar no Ulamog e fez outro Jace, deixando duas manas abertas. No passe dei Extração Cirúrgica  no Path to Exile para proteger os Ulamogs. Castei o segundo Ulamog, exilando outro jace e uma land, em resposta tomou um Mana Leak. No outro turno, castei pela terceira vez o Ulamog, tirando mais duas lands, o jogo estava bem ruim pra ele, mas mesmo assim ainda estava no jogo... Sim, depois 3 casts de Ulamog, a Fome Interminável , e sem Path to Exile ... Mas o Ulamog é muito forte, depois da primeira muqueta dele, o Salvatto concedeu... e caraaaaaaaa! Ganhei do Salvatto e garanti day 2, como assim????? 



     





    7- Tron x Infect



    Pior Match possível... G1 1 balista pra 1 e outra pra 3 conseguiram segurar o jogo, e logo em seguida um Ulamog, a Fome Interminável , exilando as duas lands dele foram o suficiente para levar o jogo. G2 e G3, ele keepoi com mãos que ganham no turno 3, então como nos 3 primeiros turnos eu não interajo, foi GG easy. (6-1)



    8- Tron x Burn



    Segundo pior Match possível. G1 fui stompado, G2 consegui levar após fazer 2 Wurmcoil Engine , e no g3 ele responde a entrada do Thragtusk  com Skullcrack , e tomei mais 2 fogos na cara no turno dele. GG. Obs: foi o Burn que fez top 8. (6-2)



    DAY 2



    9- Tron x Mono White Martyr



    Sim, um rougue fora do Meta fazendo Day 2. Brasil e sua selva de decks. Leonin Arbiter e Aven Mindcensor , atrapalham bastante o Tron. Isso somado aos 4 Ghost Quarter e Campo da Ruína . Mas como o clock do deck não é tão rápido, consegui fazer um Ugin, o Dragão Espírito , exilar todas as permantes dele e levar o jogo com uma certra tranquilidade. (7-2)



    10- Tron x Eldrazi and Taxes



    Que pesadelo. Uma match bem esquisita pro Tron, ele também usa Ghost Quarter MD, Campo da Ruína  MD. No G1, ele abriu de mana Frasco do Éter , e Thalia, Guardiã de Thraben. Essa Thalia ganhou o g1 delem atrasando muito meu jogo, depois ele fez um Flickerwisp blincando uma land do tron, e fez Wasteland Strangler jogando ela de volta para o grave, quando consegui estourar a Pedra do Oblívio e voltar de Ulamog, a Fome Interminável , eu estava com 2 de vida, e ele fez um Flickerwisp no passe e tomei uma muqueta desse bixo... G2 abri de Urzas Tower e Mapa da Expedição , depois fiz Mina de Urza , e ele fez Stony Silence e quebrei o mapa em resposta e busiquei a última peça do tron. Resolvi um Karn, e como estava sem artefatos na mão, ignorei a Stony Silence e comecei a exilar os terrenos dele, após um World Breaker exilando a última fonte de mana branca dele, ele concedeu. G3 ele muligou a 5 e keepou mão de uma land, eu tbm keepei uma mão trincada e com o Zóião, fiz 3 os 3 zóião na partida e consegui tirar valor do descarte e da zica dele. GG (8-2)



    11- Tron x Mono red Goblin



    Sim, mais um rougue pra encher o saco. No g1 eu tomei 18 de dano no turno 3, fiquei bastante desconcertado. No G2 as Walking Ballista estavam querendo jogo, keepei uma mão com 2 balistas e um Nature's Claim , sabia que viria Blood Moon ou Lua Alpina. Ele keepou uma mão lenta por causa da Lua Alpina , e conternei ela com o Nature's Claim e voltei de Balista Ambulante  pra 4, e limpei a Board dele. G3 ele keepou uma mão de uma land e com vários drops 1, isso diminuiu bastante a explosão do deck, ainda mais com a Contorção Espacial e Balista Ambulante , quando desci um Ugin, o Dragão Espírito ele concedeu. (9-2)



    12- Tron x UR Fênix



    Mais uma vez, a tech de subir o Karn Liberated se mostrou bastante eficiente, no G1 consegui segurar o jogo com o Karn, e resolvi um Ulamog, a Fome Interminável,deixando ele com 1 Land. G2 ele conseguiu tirar MUITO valor da Pyromancer Ascension , me causando bastante dando com Raios e voltando duas Fênix Arco-lume que jantaram meu karn e me mataram. No g3, ele começou um tanto quanto lento, consegui resolver um Ugin, o Dragão Espírito , fiz ele pra -4, exilei todas as permanentes dele, e em seguida exilei o grave com Território dos Necrófagos, não conseguiu voltar para o jogo depois do ult do Ugin. (10-2)



    13- Tron x UR Fênix



    G1 abri de mana e relíquia de progênitus, que atrasou infinitamente o jogo dele, fiz um Karn Liberated no turno 3, e subi ele. Na volta ele fez um Crackling Drake , que eu exilei com o Karn, e jogo seguiu assim, com o Karn controlando o jogo, até ele conceder. G2, ele keepou uma mão lerda de Blood Moon , comecei a estourar todas as eggs(Esfera Cromática e Estrela Cromática) atrás do Nature's Claim , achei na última fonte de mana verde, e quebrei a Blood Moon e dei uma extração nela. Depois 3voltei de Ulamog, a Fome Interminável e não teve o que o cara fazer. (11-2)



    14- Tron x BG pedra



    Estava na mesa 4 de um GP! Comecei a ficar nervoso hahahaha. Tinha chances de top 8 e não estava acreditando. Durante esse campeonato, tomei uma decisão de muligar agressivamente, pra sempre fechar o Tron no turno 3. No g1, minha mão inicial estava mais ou menos, muliguei a 6, nenhum land, a 5, nenhum land, a 4, nenhum land, a 3 vieram 2 Torre de Urza e 1 Mina de Urza, bora que tem jogo! Scry, mapa no topo(BOAAAA EU TRINCO NA 3). Meu adversário abriu de Thoughtseize e errou o descarte, abri de mana mapa, ele fez um Bob(Dark Confidant ) e passou. Draw e veio um Ulamog, a Fome Interminável , e pensei no turno 4 já tem uma ameça. Antes de dar o draw do turno 3, pensei: podia ser um Karn Liberated . E era.... Fiz um Karn na 3 e Ulamog na 4. Meu adversário ficou completamente desestabilizado... Pistolou infinito. G2, keepei uma mão trincada de duas peças, um mapa e um karn. Ele manteve a mão dele por conta de um Campo da Ruína e Extração Cirúrgica, maaaaas no terceiro turno, a land que ele dropou, foi a main land BG, logo ficou tapado, e consegui resolver o karn, que entrou exilando o campo da ruína. O Karn trabalhou MUITO nesse jogo... ele comprou outro campo da ruína e quebrou minha trinca e usou a extração. Demorei até o sexto Drop de land pra conseguir jogar o Wurmcoil Engine , enquanto isso o karn seguia exilando coisas. Depois do World Breaker meu oponeente concedeu. (12-2)



    15- Tron vs Humanos



    Estava há uma vitória do top 8, frio na barriga... Mas bora que tem jogo. G1 eu Muliguei a 4 e achei uma mão mais ou menose até conseguiria trincar, mas dois Kitesail Freebooter zoaram meu plano... Consegui trincar do topo na cagada, e fazer uma Walking Ballista pra 5, mas ele tinha feito uma Tenente de Thalia , deixando as crituras completamente fora do range da Walking Ballista, perdi... G2, Muliguei a 6, keepei uma mão trincada, mas sem ameaças, a única era o Ugin, o Dragão Espírito que foi Kitesail Freebooter , depois mais 2 Meddling Mage travaram minha Balista e meu Ugin. Mas eu consegui fazer um Ulamog's Crusher , recuperando meu Ugin, o Dragão Espírito e o cast das Walking Ballista , levei assim o G2. No G3, começou o pesadelo do Mulligan de novo, muliguei a 4... não consegui fazer nada,  só apanhei, se tivesse tido a sorte de trincar do topo, faria uma Pedra do Oblívio e limparia a board, mas não rolou...





    Esse foi meu score final, e consegui 3 proplayer points, e fique em décimo quinto colocado. O meu sonho do Pro tour nunca esteve tão perto quanto nesse dia, fiz o melhor que pude, ma sei que tomei algumas decisões erradas, até porque foi a segunda vez que jogava com o deck, então cometi alguns deslizes sim. Gostaria de parabenizar o João Araújo, Alessandro Hirayama, Lixandrão e Mafis por terem feito day 2 e um ótimo desempenho. 



    O team MYP de Londrina tem melhorado bastante, fico bastante feliz com isso, e em Outubro tamo voltando com força! 





     



    Aquele abraço! Rafael Kenji @NIshiyama



    #nãoésóumtronzinhobonito


  • Children of the Nameless - Capítulo 13

    Children of the Nameless - Capítulo 13

    por MypCards em 18/03/2019 - 106 Visualizações, 0 Comentários.

    Acesso rápido:





    Capítulo 13: Tacenda





    Ele falou sério.



    No meio da missão para salvar a aldeia, enquanto a noite passava e cada momento aproximava Tacenda de perder sua visão, Lorde Davriel Cane tirou uma soneca.



    Depois de se distanciar alguns quilômetros do priorado, Davriel expulsou Tacenda e os demônios da carruagem, abaixou as cortinas, depois se enrolou em seu manto. Miss Highwater fechou a porta com um estalido, balançando a cabeça e sorrindo.



    “Eu não posso acreditar nisso”, disse Tacenda.



    “São duas e meia da manhã”, disse Miss Highwater. “Ele é um homem poderoso quando decide que quer ser um, mas ainda é mortal. Ele precisa dormir e esta noite os preparativos para a hora de deitar-se foram interrompidos por uma criança com uma adaga improvisada.”



    Dentro da carruagem, Davriel começou a roncar baixinho.



    Crunchgnar e Miss Highwater se dirigiram a um buraco ao lado da estrada onde alguém havia empilhado pedras para fazer uma fogueira. Era provavelmente uma parada comum no caminho para o Pântano. Ela mesma podia ter parado aqui antes, mas suas viagens nessa direção sempre foram durante o dia, quando ela estava cega.



    Os demônios arrastaram um pouco de madeira, então Crunchgnar tocou a testa por um momento, acendendo uma pequena chama na ponta do dedo. Em pouco tempo ele tinha uma fogueira convidativa crepitando na cova. Miss Highwater sentou-se com a lanterna atrás dela, empertigando-se sobre uma pedra e examinando seu livro-razão, fazendo algumas anotações em seguida.



    Tacenda sentou-se perto das chamas, e sentiu o cansaço subindo por ela também. Ela estava acostumada a ficar acordada a noite toda, mas… tinha sido uma longa noite. Exaustiva, mental e emocionalmente. Ela não queria se deixar adormecer, não estando sozinha com os demônios, particularmente Crunchgnar.



    Ainda assim, apesar de seu rosto retorcido, chifres proeminentes e olhos vermelho-sangue, mesmo ele parecia de alguma forma… humano enquanto se agachava ao lado do fogo, se aquecendo. “Eu nunca gostei do mundo superior”, murmurou ele. “Muito frio. Eu não entendo como vocês humanos podem viver assim, meio congelados todas as noites.”



    Tacenda encolheu os ombros. “Não temos muita escolha. Embora eu suponha que, se realmente quiséssemos ir a algum lugar mais quente, você ficaria feliz em nos levar até ele…”



    Crunchgnar sorriu. “Duvido que você acharia o fogo do inferno do seu gosto, garota. Demônios menores como eu são geralmente forçados a ceder nossas presas aos nossos senhores. Eu tomei as almas de oito pessoas durante a minha existência, mas só me alimentei com uma pequena porção de cada uma delas.”



    “Você nunca se sente mal com isso? Empatia pelas almas que você está roubando? Culpa pelo que você fez?”



    “Fui criado para fazer isso. É o meu lugar no mundo. Por que eu deveria sentir culpa?”



    “Você poderia ser outra coisa. Algo melhor.”



    “Eu não posso ignorar a minha natureza, do mesmo jeito que você, menina.” Crunchgnar apontou com a cabeça em direção à carruagem. “Ele gosta de fingir que qualquer um pode escolher seu próprio caminho, mas eventualmente ele terá que pagar as dívidas que possui. E sua ‘liberdade’ durará tanto quanto uma brasa separada de seu fogo.”



    Tacenda mudou de posição em sua rocha. As palavras pareciam desconfortavelmente parecidas com o que ela dissera para Davriel antes. Eu fui escolhida pelo Pântano. Eu devo seguir meu destino…



    “Você entende”, disse Crunchgnar. Inferno, aqueles olhos dele eram desconcertantes. Pelo menos Miss Highwater tinha pupilas, ainda que fossem vermelhas. Os olhos de Crunchgnar eram inteiramente carmesins. “Você é mais esperta do que ele, com toda aquela convicção que ele tem.”



    “Eu…”



    “Nós poderíamos fazer um acordo”, disse Crunchgnar. Devo manter Davriel vivo por mais dezesseis anos, mas talvez pudéssemos encontrar uma maneira de atordoá-lo. Mantê-lo em cativeiro. Ele posa de poderoso, mas não tem poder próprio, apenas os que rouba. Nós poderíamos aprisioná-lo e você poderia se tornar a Senhora da Mansão. Governe em seu lugar.” O demônio permaneceu parado ao lado do fogo. Iluminado por sua luz áspera, ele lançava uma longa e terrível sombra na floresta. “Eu serviria você e lidaria com qualquer um que questionasse sua autoridade. Eu não faria nenhuma tentativa por sua alma; eu quero apenas a dele. Em dezesseis anos, eu partiria. Sem truques.”



    Crunchgnar aproximou-se e Tacenda se encolheu diante dele. Ela mordeu o lábio e começou a cantarolar.



    Ele se encolheu ao som da Canção de Proteção. “Não há necessidade disso”, rosnou ele.



    Tacenda cantarolou mais alto e as cordas em sua viola começaram a vibrar.



    “Crunchgnar”, disse Miss Highwater,” Alguma criatura está fazendo sons ao norte. Você deveria ir ver o que é.”



    “Pense na minha oferta,” disse ele a Tacenda, depois apontou para Miss Highwater. “E ignore aquela ali caso ela finja oferecer-lhe um acordo melhor. Ela pouco merece ser chamada de demônio nos dias de hoje.”



    “E você pouco merece ser chamado de sapiente”, disse Miss Highwater. “Mas nós não jogamos isso em sua cara, jogamos? Seja um bom menino e faça o que eu digo.”



    Ele rosnou baixinho, mas seguiu pela vegetação rasteira. Assim que saiu da luz, ele se moveu com um silêncio que surpreendeu Tacenda. Apesar de toda a sua corpulência, havia uma graciosidade perigosa a respeito dele.



    Tacenda deixou sua música morrer e a viola ficou imóvel. “Obrigado”, disse ela a Miss Highwater.



    “A música estava machucando a mim também, criança”, respondeu ela. “Pena, visto que a música parece envolvente. Eu gostaria de ouvir você cantar uma música completa, algo que não buscasse me destruir. ”



    Tacenda olhou para o fogo, lembrando-se de dias melhores. Dias em que ela havia cantado outras músicas, encorajada por Willia. Canções de Alegria para os trabalhadores nos campos ou cantadas quando ela sentia o calor do abraço de sua mãe. Canções agora mortas.



    Tacenda inclinou-se para a frente, aquecendo as mãos em uma fogueira iniciada com o calor da chama de um demônio. “Você… você concorda com Crunchgnar? Sobre a sua natureza?”



    Miss Highwater bateu em sua bochecha com o lápis. Seus olhos refletiam a luz do fogo, parecendo queimar. “Você sabia”, disse ela finalmente, “que eu fui o primeiro demônio que ele invocou, assim que chegou a esta terra?”



    Tacenda balançou a cabeça.



    “Nenhum de nós jamais ouviu falar dele. Nós havíamos acabado de ser libertados de nossa prisão, onde passamos o que pareceu uma eternidade, apesar de ter sido um tempo relativamente curto. Uma vez livres, começamos ansiosamente a procurar estabelecer contratos com os mortais.



    “Eu acharia que daria um jeito bem rápido nesse dândi com roupas exageradas e uma maneira preguiçosa de falar. Me apressei para firmar o contrato e me dediquei totalmente a seduzi-lo. Mas ele mal olhou para mim antes de me enviar para contar o dinheiro no cofre do antigo lorde. Nos dias seguintes, tentei todos os truques que conhecia. Mas toda vez que me via, ele me dava outra tarefa.



    “‘Oh, Miss Taria, aí está você”, dizia ele, como se esse fosse de alguma forma meu sobrenome. “Tenho procurado os recibos dos impostos da aldeia e parece que muitos deles têm pago em mercadorias. Escambo faz meu cérebro doer. Você poderia conferir se esse livro-razão está dentro dos conformes?” Ela balançou a cabeça, como se ainda não conseguisse acreditar que isso tivesse acontecido. “Lá estou eu — parecendo positivamente radiante — e ele simplesmente passa por mim e me entrega uma lista com os preços do gado!”



    “Isso… deve ter sido frustrante, imagino?” disse Tacenda, tentando não corar demais.



    “Foi absolutamente enfurecedor“, disse Miss Highwater. “Eu finalmente exigi saber por que ele me escolheu, dentre todos os demônios, para este trabalho. Ele invocou a Devoradora de Homens para equilibrar suas contas? E você sabe o que ele fez? Ele sacou alguns papéis. Cópias dos contratos que fiz no passado. Os demonologistas fazem isso, sabe? Eles invocam o contrato, fazem uma cópia e depois leem os detalhes para estudar sua arte.



    “Bem, ele tinha cerca de dez dos meus contratos antigos, e ele absolutamente devaneou sobre eles. Falou sobre quão hábil minha redação havia sido, sobre como eu havia iludido meus mestres anteriores. Para ele, os contratos eram as coisas de verdadeira beleza.”



    Miss Highwater sorriu e parecia haver uma verdadeira ternura na expressão enquanto ela olhava para a carruagem de Davriel. “Ele não se importava com o que eu parecia. Ele me invocou especificamente porque achava que eu seria boa em fazer sua contabilidade. E ele estava certo. Sou boa com contratos; eu sempre me orgulhei disso. Isso me tornou uma excelente intendente.



    “Eu não tenho vergonha do que sou ou da minha aparência. Mas… é bom ser reconhecida por outra coisa. Uma coisa da qual eu sempre me orgulhei, mas praticamente todas as outras pessoas — mortais e demoníacas — ignoravam. Então, não, eu não acho que Crunchgnar esteja completamente certo. Talvez todos nós tenhamos sido criados para um propósito específico, mas isso também não nos impede de encontrar outros propósitos.”



    Tacenda assentiu e olhou para as chamas, pensando nelas até que um som na floresta próxima a fez pular. Era apenas Crunchgnar voltando para a luz.



    “Banshee”, disse ele, apontando com o polegar por sobre o ombro. “Não parece ter relação. Eu a assustei, mas talvez seja bom acordar Davriel de qualquer maneira.”



    “Vamos dar a ele mais alguns minutos”, disse Miss Highwater. “Esse feitiço da prioresa terá sido doloroso de absorver e ele poderia usar o resto se iremos enfrentar o Pântano.”



    “Você tem certeza”, disse Crunchgnar, “de que ele não invocou você para ser sua mãe em vez de sua amante?”



    “Felizmente para mim, você já assumiu a posição de cão de estimação.”



    Tacenda estremeceu com os insultos trocados, mas felizmente os demônios ficaram em silêncio enquanto Crunchgnar acrescentava algumas toras ao fogo. Eles não pareciam muito preocupados que um monstro como uma banshee estivesse à espreita na floresta, mas quem poderia dizer o que assustaria um demônio?



    Não parecia certo estar sentada aqui sem tocar música. Embora ela tivesse passado muitas noites sozinha, iluminada por uma fogueira solitária, ela havia passado aquelas horas tocando pelo menos uma variação da Canção de Proteção.



    Ela havia manifestado aquilo pela primeira vez ao proteger sua família. Havia surgido sem que ela precisasse aprender. Simplesmente aconteceu. As músicas eram uma parte instintiva dela. Não seria isso prova suficiente do seu destino? Que a razão pela qual ela existia era cantar essa canção?



    Isso… uma voz parecia sussurrar dentro dela. E mais…



    Eventualmente, Tacenda ergueu sua viola e começou a tocar uma melodia suave. Não a Canção de Proteção, mas algo mais triste, mais solene. Crunchgnar olhou para ela quando ela começou a cantar, mas essa melodia não era destinada a afastá-los. Era uma música que ela nunca havia cantado, mas que parecia adequada para o momento.



    Ela fechou os olhos e se deixou absorver pela música. Nesse estado, as canções pareciam surgir através ela, como se sua alma fosse o instrumento e a viola fosse apenas um amplificador.  Tempo, lugar e o seu eu se fundiram quando a música começou a vibrar as cordas por conta própria.



    Ela cantou sobre perda. Sobre a morte e o progredir do tempo. Sobre florestas imutáveis que observavam aldeias surgirem e caírem, fés ardendo e morrendo,  crianças crescendo até tornarem-se anciãos, sendo então esquecidas à medida que gerações se acumulam umas sobre as outras e fogueiras infinitas queimavam até tornarem-se cinzas. Sobre uma garota que foi forçada a interromper sua música alegre e, em vez disso, passou a cantar apenas para a noite.



    A música expandiu-se a partir dela e a viola não foi seu único receptáculo. Os galhos das árvores vibravam, as pedras murmuravam, a carruagem sacudia como uma percussão silenciosa . Sua música encontrou todos os caminhos disponíveis e ela não era mais capaz de controlá-la do que seria capaz de controlar o vento ou a lua.



    Mas lentamente… ela mudou. Aproximou-se mais da música que ela outrora conheceu: aquela que sua irmã amava. Tacenda tentou alcançá-la, mas… não encontrou nada.



    Ela parou, com os restos da música ecoando em sua mente. Ela suspirou, depois olhou para cima.



    Os demônios estavam boquiabertos. O livro-razão de Miss Highwater havia tombado de seus dedos e caído no chão sem que ela notasse. Crunchgnar olhou para ela, com a mandíbula frouxa.



    “O que aconteceu?”, perguntou Miss Highwater. “Senti que estava voando…”



    “Eu…” sussurrou Crunchgnar. “Eu estava ajoelhado nas poças de lava de Dawnhearth e os fogos… os fogos estavam extinguindo-se…” Ele tateou seu corpo, então olhou em volta, como se estivesse surpreso por encontrar-se na floresta.



    A porta da carruagem se abriu bruscamente e Davriel saiu, deixando seu manto para trás. Ele caminhou em direção a Tacenda, com os olhos arregalados.



    Ela recuou quando ele a agarrou pelos ombros.



    “O que foi isso?” intimou ele. “O que você fez?”



    “Eu… eu só… cantei…”



    “Isso não foi uma simples proteção”, disse ele, e ela viu seus olhos borrarem com a fumaça branca. “O que você é?”



    Algo bateu na mente de Tacenda. Uma força esmagadora. Ela sentiu mãos alcançando seu cérebro, tomando conta de sua alma. Ela sentiu…



    NÃO.



    A música surgiu nela e ela gritou. Uma explosão de luz brilhou a partir dela, pulverizando fragmentos como centelhas no céu noturno ao impelir Davriel para longe dela. Ele foi arremessado para trás cerca de três metros antes de chocar-se na lateral da carruagem, estilhaçando a madeira. Ele caiu no chão da floresta com um baque surdo.



    Crunchgnar se levantou, com a mão buscando a espada, mas foi Miss Highwater quem chegou primeiro, pressionando uma adaga fria na garganta de Tacenda.



    “O que você fez?” sibilou a mulher demônio.



    “Eu…” disse Tacenda. “Eu não…”



    Davriel se mexeu. Ele se levantou do chão de forma letárgica. Com folhas aderidas à camisa, ele sacudiu a cabeça.



    Tacenda sentia um pânico crescente, com uma faca em seu pescoço.



    Davriel se levantou e limpou a poeira, depois se esticou. “Ai!”, exclamou ele, então olhou para sua carruagem. “Miss Highwater, acredito que eu tenha estragado esta madeira com uma mossa feita pelo meu crânio.”



    “Nenhuma surpresa”, respondeu ela. “Sempre foi óbvio para mim qual dos dois era mais duro.”



    Ela não removeu a faca do pescoço de Tacenda.



    Crunchgnar desembainhou sua espada tardiamente. “Hum… Devo matá-la?”



    “Por mais divertido que fosse assistir a magia dela te despedaçar,” disse Davriel, “você ainda pode ter utilidade para mim. Então não.”



    Ele caminhou até Tacenda. Ela sentia-se tão nervosa que tinha certeza de que a batida forte de seu coração faria com que a faca de Miss Highwater escorregasse e derramasse sangue.



    Davriel fez um suave aceno para o lado com a cabeça e Miss Highwater afastou a adaga, fazendo com que ela desaparecesse em uma bainha em seu cinto. Ela pegou o livro-razão como se nada tivesse acontecido.



    Davriel, no entanto, se ajoelhou diante de Tacenda. “Você tem alguma ideia do que é que se esconde dentro de sua mente?”



    “As canções”, disse Tacenda. “Você tentou roubá-las! Você tentou tomar meus poderes, como você fez com aqueles caçadores!”



    “Uma perda de tempo.” Davriel estalou os dedos, fumaça verde escura coloria seus olhos. Uma pequena luz brilhou, formando uma espécie de escudo brilhante de energia verde acima de sua mão. “Eu roubei uma bênção de proteção simples, que é o que eu esperava encontrar dentro de você. Mas quando eu a toquei, encontrei algo por trás dela, algo mais profundo. Algo grandioso. Ele olhou para Tacenda, fazendo o escudo desaparecer. “Eu repito. Você tem alguma ideia do que é isso?”



    Ela balançou a cabeça.



    “Ele falou com você?” peguntou ele.



    “Claro que não”, disse ela. “A menos que… a menos que você conte as canções. Elas parecem falar através de mim.”



    Ele franziu o cenho, depois se levantou e voltou para a carruagem.



    “Davriel?” disse Tacenda, levantando-se.



    “Não me lembro de ter lhe dado permissão para usar meu primeiro nome, garota.”



    “Não me lembro de ter lhe dado permissão para entrar em minha mente.”



    Ele fez uma pausa e depois olhou para trás. Ao lado, Miss Highwater ria.



    “Você sabe o que ela é?”, perguntou Tacenda. “A coisa que você diz que sentiu dentro de mim?”



    Ele subiu de volta na carruagem. “Venha. É hora de visitar o seu Pântano.”



    Continua (...)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 12

    Children of the Nameless - Capítulo 12

    por MypCards em 14/03/2019 - 196 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 12: Tacenda





    Tacenda sempre ouvira falar da Pedra Seelen no tom mais estranho e contraditório. Os aldeões abençoavam o Anjo Sem Nome por tê-la concedido aos Acessos. Eles pareciam estar orgulhosos da relíquia, que acalmava as almas dos seguidores da igreja, impedindo-os de ressuscitarem como um geist ou outra criatura abominável.



    Mas também impedia que uma alma retornasse ao Pântano. Assim, ainda que os nativos dos Acessos se orgulhassem da bênção do Anjo, a maioria resistiu à conversão à igreja. Tacenda entendia. A Pedra Seelen era uma bênção extraordinária, mas era como um boi recebido de presente quando você não tem uma carroça para puxar ou nenhum campo para arar. De alguma forma, ela se sentia tanto grata pela coisa quanto desconfortável.



    Ela não imaginava que eles a guardariam nas catacumbas. Rom conduziu-a por uma escadaria estreita e espiralada, com sua lamparina iluminando pedras antigas, erodidas não pelo vento ou pela chuva, mas pela passagem infinita de passos humanos.



    O ar tornou-se frio, úmido, e eles entraram em um reino de raízes, vermes e outras coisas sem visão. Na parte inferior, eles não encontraram nenhuma porta, mas um estranho mural de pedra retratando anjos em pleno voo.



    Rom pressionou uma parte específica da pedra — um pequeno botão, disfarçado como uma pequena cabeça de anjo, que afundou no resto. Algum mecanismo antigo fez a pedra se abrir. Não era exatamente uma barreira — qualquer pessoa com tempo suficiente provavelmente poderia ter encontrado a protuberância para empurrar — mas era um lembrete. Mesmo no mais santo dos lugares, mesmo na casa de um artefato destinado a acalmar espíritos, era sensato manter uma porta trancada entre você e seus mortos.



    Eles passaram pela abertura e entraram nas catacumbas, as quais precediam a existência do priorado em sua forma atual. Tacenda esperava deparar-se com crânios, mas encontrou apenas passagens estreitas. As paredes estavam cheias de fileiras de pedras estranhas, com três palmos de largura talvez. Em forma de hexágonos, muitas haviam sido marcadas com o símbolo do Anjo Sem Nome.



    “Nenhum osso?” perguntou ela quando Rom a conduziu para a direita.



    “Não”, disse ele. “Ninguém aqui quer colocar corpos em exposição. Essas pessoas merecem descanso, não espetáculo. Aquelas pedras nas paredes podem ser removidas, cada uma revelando um longo buraco escavado na parede. Colocamos o corpo numa prancha, o empurramos e depois selamos.”



    Ela assentiu, seguindo-o em silêncio.



    “Há muito espaço aqui”, disse Rom. “Quem construiu estas catacumbas criou muito espaço para corpos. Mas o seu povo não escolhe ser enterrado aqui com muita frequência, como é apropriado.”



    “Nós…” Mas como ela poderia responder a isso? Era verdade. “O Pântano é nossa herança. Sinto muito.”



    “Seu povo”, disse ele, “se equilibra entre duas religiões. Eu penso que vocês querem adorar as duas ao mesmo tempo, suportando as visitas dos sacerdotes, mas depois indo oferecer sua verdadeira devoção ao Pântano. Isso incomoda a prioresa, eu sei, mas não estou em posição de repreender. Eu mesmo segui dois deuses, poderíamos dizer. Durante a maior parte da minha vida, não fora a virtude, mas a emoção da caçada, o meu mestre.”



    Ele a conduziu por um túnel curvo, depois pousou a mão em um símbolo gravado em um dos túmulos. As asas ascendentes, o símbolo do Anjo Sem Nome. O mesmo simbolo envolvia o pulso de Tacenda, acima da mão onde ela levava sua viola.



    “Eu havia ouvido sobre esse seu Pântano”, disse Rom, “antes de vir para cá. Então eu não fiquei surpreso com isso. Mas este Anjo Sem Nome… muitos dos sacerdotes locais preferem usar seu símbolo do que o da igreja.”



    “Avacyn é… era o Arcanjo”, disse Tacenda. “E ela presidia sobre hostes inteiras de outros anjos. É… era… a igreja dela, mas ela sempre foi uma divindade distante. Os fiéis aqui, como minha irmã, sempre preferiram um anjo mais pessoal”.



    “Você me entendeu mal”, disse Rom. “Fiquei feliz em encontrá-la. Depois da traição de Avacyn, encontrar notícias de outro anjo que ainda amava seu povo… bem, isso me deu esperança. Espero que até mesmo um caçador rabugento e manchado de sangue como eu possa encontrar paz.”



    Seus lábios se voltaram para baixo quando ele disse a última parte, por algum motivo, mas então ele apenas balançou a cabeça e a conduziu por um dos muitos caminhos ramificados nas catacumbas. Ele estava certo. Havia muito espaço aqui embaixo. Ela sempre imaginou algumas pequenas criptas, não essa rede de túneis. Por fim, chegaram a uma pequena sala de pedra com bancos acolchoados ao longo das laterais.



    E ali estava a Pedra Seelen: uma pedra branca como um grande ovo de ganso, decorando um pedestal no centro. Rom fechou as sombras da lanterna para mostrar que a pedra brilhava com uma luz suave própria. Uma radiância inconstante e leitosa, como as cores do óleo na água. Elas giravam em um padrão sereno, como se a Pedra Seelen fosse preenchida com diferentes líquidos iridescentes, fluindo em uma procissão circular eterna.



    A respiração de Tacenda parou. Era linda.



    “Dizem que ela fica mais brilhante cada vez que um habitante dos Acessos se entrega à igreja”, disse Rom.



    “Posso… posso tocá-la?”



    “Melhor não, jovem senhorita”, disse ele. “Mas você pode olhar. Aqui, sente-se e observe os padrões.”



    Incapaz de desviar os olhos da corrente transfixante de cores, Tacenda recuou até encontrar um dos bancos, depois sentou-se, colocando a viola no colo.



    “Eles sempre colocam os novos sacerdotes aqui, como um dos primeiros deveres, para vigiar a pedra,” disse Rom suavemente. “Nós não a vigiamos o tempo todo, mas é uma boa prática para alguém meditar aqui enquanto permanece em alerta a noite toda. Já faz um tempinho desde que eu tive esse trabalho. Mas lembro-me de permanecer aqui por noites a fio, apenas olhando fixamente e pensando. Sobre todos os anos que esta pedra testemunhou.



    “Ela foi dada inicialmente a um sacerdote solitário, que a manteve em um sacrário. Então, uma igreja foi construída para ela, assim como as catacumbas para abrigar os mortos. Finalmente, a prioresa veio e finalmente encontrou aqui uma edificação apropriada. A pedra testemunhou tudo isso e muito mais. Talvez eu não devesse ser presunçoso, pequena senhorita, mas isso é sua herança tanto quanto aquele Pântano.”



    “Lorde Davriel me disse mais cedo que meu povo fala demais sobre destino. Ele disse que eu deveria decidir meu próprio caminho, em vez de acreditar em coisas como o destino.”



    Ela olhou em direção a Rom e viu a luz da Pedra Seelen fluindo em seu rosto. “O que você acha?”, perguntou ele.



    “Não sei”, disse ela. “Parece-me que, basicamente, é impossível escolher por si mesmo. Quero dizer… se eu fizer o que Davriel diz, como isso seria diferente de fazer o que a minha aldeia me diz? Isso não é independência. É apenas a opção por uma influência diferente.”



    Rom grunhiu e Tacenda continuou observando as luzes em movimento. Ela percebeu que Rom a trouxera aqui para evitar que ela se envolvesse no conflito entre Davriel e a prioresa. Em vez de buscar água, ele só perguntou se ela estava interessada em ver a pedra.



    Davriel… ela se lembrou daquele olhar em seus olhos, aquela sombra, quando eles encontraram Brerig morto. Davriel tinha a segunda escuridão em seus olhos. Um vazio para consumir toda a vida e deixar o mundo tão frio quanto ele…



    “Rom?” perguntou ela. “Você já pensou nos demônios que matou quando era mais jovem? Você se preocupou com a dor que estava causando a eles?”



    “Não”, disse o velho caçador. “Não, quando eu era jovem, não posso dizer que me preocupei.”



    “Oh.”



    “Quando eu fiquei mais velho, porém”, ele disse, “e os anjos enlouqueceram? Sim, pensei sobre isso então. Eu imaginei: será que a minha vida inteira se resumiria à matança? Não havia uma forma de acabar com isso? Criar um mundo onde os homens não precisassem temer nem a escuridão nem a luz?”



    “Você encontrou… alguma resposta?



    “Não. É por isso que eu finalmente fui embora.” Ele olhou para cima, depois acenou para ela, gesticulando. “Venha, vamos ver qual foi o dano no andar de cima.”



    Tacenda assentiu, pegando sua viola e juntando-se a ele. Quando saíram, no entanto, ela notou algo que havia passado despercebido inicialmente. Ela estava tão focada na Pedra Seelen que não tinha visto que havia um mural na parede aqui também — pedra esculpida, ilustrando a derrota de um demônio terrível de uma história que ela não conhecia.



    “Aquele mural”, disse ela. “Há um botão como o que você empurrou, sob os pés do demônio. É uma porta secreta também?”



    “Sim,” disse Rom. “Você vai encontrar várias dessas aqui embaixo. A maioria não leva a lugar algum digno de nota — pequenas câmaras onde armazenamos equipamentos de embalsamamento ou depósitos de lixo”.



    “Oh.”



    “Aquela ali, no entanto,” ele continuou. “Ela leva a um túnel para fora das catacumbas, para a floresta. Este lugar aqui embaixo, não é apenas para os mortos. É um lugar para entrincheirarmo-nos se algo nos atacar. Podemos nos esconder aqui e sair por uma das saídas secretas.”



    Ela assentiu, pensando sobre o fato. Mesmo o priorado — talvez especialmente o priorado — precisava de um local de retirada, caso um ataque ocorresse. Todos os edifícios e aldeias eram, na realidade, apenas fortalezas em meio à escuridão, com o cuidado de fechar seus portões e trancá-los firmemente à noite.



    Quando saíram, ela olhou por sobre o ombro uma última vez para a pedra iridescente. Estranho que ela tenha vivido em Verlasen toda a sua vida, mas nunca tenha vindo aqui para ver a dádiva do Anjo Sem Nome.



    E quem é ela para você? Você já a viu? Talvez fosse melhor que o Anjo Sem Nome tivesse desaparecido há muito tempo. Histórias haviam sido o suficiente para Willia, que era atraída por qualquer coisa que falasse em lutar contra a escuridão, mas não para Tacenda.



    Ela apressou-se atrás de Rom, mas quando eles voltaram para as escadas, ela notou uma luz vindo de um dos outros corredores. Ela bateu no ombro de Rom e apontou.



    “Oh”, disse ele. “Aquilo? É apenas onde preparamos os corpos dos mortos e os mantemos até a hora do enterro.”



    Ela congelou quando Rom continuou. Os corpos dos mortos, aguardando pelo enterro? Como…



    Tacenda não conseguiu evitar. Ela virou naquele corredor. Rom chamou por ela, mas ela o ignorou. Em pouco tempo, ela havia entrado em outra pequena câmara, iluminada por velas tremeluzentes em cima de montes de cera desprendida. A parede do fundo continha um relevo esculpido do Anjo Sem Nome — seu rosto escondido atrás do braço — segurando um entalhe da Pedra Seelen.



    Três corpos, em seus trajes fúnebres, estavam em pranchas ao longo da parede. Um deles era o de uma jovem de cabelos curtos. Embora os outros confundissem as duas, Tacenda não conseguia entender a razão. Willia era mais magra e mais forte que Tacenda, o cabelo mais curto, mas de alguma forma mais dourado. E Willia era de longe a mais bonita, apesar do fato de que ambas tinham o mesmo rosto.



    Rom a encontrou e então notou os corpos. “Oh! Que idiota eu sou, jovem senhorita. Eu deveria ter percebido.”



    Tacenda se aproximou de Willia, abaixando sua viola com uma mão, tocando com a outra na bochecha do cadáver. Não, não é um cadáver, mas apenas um corpo. A alma de Willia ainda estava lá fora, recuperável. Assim como o de Jorl e Kari, cujos corpos também adornavam o lugar.



    Willia parecia tão forte, até na morte. Enquanto os rostos dos outros eram máscaras congeladas de terror, ela apenas parecia estar dormindo. Tacenda manteve a mão sobre a bochecha de Willia, tentando transmitir um pouco de seu calor ao corpo em coma, como ela fazia ao cantar para sua irmã durante noites longas e frias, antes que ambas soubessem da extensão de seus poderes.



    Você deve escolher seu próprio caminho, fazer seu próprio destino, dissera Davriel. Aquilo parecia algo banal de se dizer quando você era um lorde poderoso, quando você não tinha uma aldeia para cuidar ou uma família para proteger. Talvez não tenha sido o destino que manteve Tacenda em seu lugar perto da cisterna, cantando para afastar a primeira escuridão. Talvez tenha sido algo mais forte.



    “Foi para aqui que você veio?”, vociferou uma voz aguda. Davriel entrou na câmara e seu manto se abriu ao redor dele, como se esticasse os braços após a caminhada apertada através dos corredores.



    “Senhor!” disse Rom, curvando-se. “A prioresa está… Quero dizer…”



    “Merlinde e eu chegamos a um acordo amigável”, disse Davriel. “No qual ela concordou que estava errada e eu concordei que matá-la seria muito aborrecedor. Tacenda, eu tenho aquilo de que vim em busca. Eu desejo estar longe deste lugar antes que seu fedor comece a se apegar à minha roupa.”



    Ela afastou a mão da bochecha de Willia. A melhor maneira de ajudá-la — a única maneira — era ir com este homem. “Viemos ver a Pedra Seelen”, disse ela, seguindo-o. “Você acha que talvez ela possa nos ajudar de alguma forma?”



    “Da última vez que a olhei,” respondeu Davriel, “não era nada mais do que um belo pedaço de rocha com uma bênção protetora de amortecimento simples sobre ela. Suas canções são várias ordens de magnitude mais potentes”.



    “É uma relíquia poderosa”, disse ela, sentindo um pico de proteção. “Concedida a nós pelo próprio Anjo Sem Nome!”



    “Um anjo que ninguém vê há décadas”, disse ele com uma fungadela. “A velha história é um disparate. Eu não sei de onde a pedra se originou, mas duvido que seja de um anjo. Por que ela daria uma relíquia supostamente poderosa a um insignificante pequeno grupo de aldeias? Seria muito mais eficaz em um centro populacional maior”.



    “Nem tudo se resume a números brutos.”



    “Claro que não”, disse Davriel, alcançando os degraus. “A verdadeira importância está em como esses números se somam.”



    Ele subiu as escadas. Por que ele estava subitamente tão impaciente? Ela praticamente teve que suborná-lo para fazer com que ele investigasse antes de qualquer coisa.



    Tacenda ficou para trás junto com Rom, que subia os degraus com um passo mais lento e mais deliberado, segurando o corrimão com força.



    “Ele está errado”, disse Rom. “A magia da Pedra Seelen pode não ser poderosa, mas não precisa ser. Está aqui para abrigar as almas dos fiéis e a simplicidade do encantamento não significa que não seja importante. Da mesma forma que a fé. Não quero falar mal de seu senhorio, mas esse é o problema de ser inteligente como ele é. Você se acostuma a imaginar as coisas na sua cabeça e quando o mundo real não está de acordo você inventa desculpas.”



    No topo da escada, ela notou um lugar mais para além no corredor, onde as paredes austeramente brancas estavam marcadas por terríveis símbolos negros, em formas que faziam seus olhos se contorcerem. Teria ele invocado demônios no meio do priorado?



    Eles alcançaram a porta. “Obrigado Rom,” disse Davriel, “pelo seu serviço. Se algum dia eu for forçado a exterminar os membros deste priorado, o matarei por último. Miss Verlasen, vamos indo.”



    Ele saiu para a luz. Rom levantou a lanterna apressadamente. “Meu senhor, você vai querer…”



    Davriel estendeu a mão e invocou um jato de chamas para iluminar seu caminho enquanto atravessava o terreno do priorado.



    Vendo isso, Rom suspirou. “É melhor eu dar uma olhada na prioresa”, disse ele a Tacenda. “Cuide-se esta noite, jovem senhorita. É uma escuridão perigosa nos observando. Isso ela é.”



    Ela assentiu para ele em agradecimento, depois apressou-se atrás de Davriel. Embora ele não parecesse notar o calor da chama em sua mão, fez o rosto dela começar a suar.



    Por que estamos com tanta pressa, de repente?”, perguntou ela. “Você descobriu algo útil?”



    “Na verdade, não.”



    “Então por que você está tão ansioso?”



    Os demônios os viram chegando e Crunchgnar rolou a carruagem até eles ao longo da estrada escura. “Eu,” declarou Davriel quando ela chegou, “decidi que vou tirar um cochilo.”



    Continua (...)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 11

    Children of the Nameless - Capítulo 11

    por MypCards em 12/03/2019 - 170 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 11: Davriel





    A prioresa estava parada junto à porta, cutucando algumas das letras que ele colocara nas paredes do lado de fora — elas haviam sangrado através das fendas ao redor da porta, entrando no quarto.



    “Elas vão sair?” perguntou ela.



    “Eu realmente não sei”, respondeu Davriel. “Espero que ninguém no seu priorado possa ler ulgrothano. Eu escolhi as letras porque elas parecem intimidadoras, mas, na verdade, eu só aprendi algumas frases quando era mais jovem — mais como uma brincadeira. O que escrevi lá fora é uma receita de bolinhos amanteigados.”



    A prioresa se virou para ele, cruzando os braços. “Essa é a minha cadeira, Greystone.”



    “Sim, eu sei”, disse ele, movendo-se e tentando relaxar na cadeira de madeira dura e não acolchoada. Ele finalmente chegou a uma posição onde ele poderia incliná-la para trás e colocar os pés sobre a mesa dela. “Mataria um de vocês religiosos sentar-se em um assento confortável? Você realmente tem tanto medo assim de ser feliz?”



    “Minha alegria”, disse ela, acomodando-se em uma cadeira do outro lado da mesa, “vem de outros confortos”.



    “Como quebrar contratos jurados solenemente?”



    Ela olhou para a porta. “Não fale tão alto. A inquisição pode ter acabado, mas suas brasas ainda estão queimando. Edwin não é o único cabeça quente residente no priorado; vários membros da minha equipe me enforcariam se tivessem em mente que eu estou consorciando com demônios ou com seu mestre.”



    “Isso presume que eu não venha a enforcá-la antes.” Davriel colocou os pés no chão, em seguida, levantou-se, pairando sobre a mesa e a mulher sentada do outro lado. “Eu direi novamente. Eu não encaro a quebra de contratos de ânimo leve.”



    A prioresa deslizou uma pequena xícara para fora da mesa, depois levantou-a até os lábios, tomando um gole de algo escuro e quente. A tola mulher sempre se recusava a ser devidamente intimidada. Honestamente, era parte do motivo pelo qual ele gostava dela.



    “Você matou todos aqueles caçadores, então?” Perguntou ela.



    Davriel suspirou. “Alguns escaparam. O velho. Os escudeiros.”



    “Entendo.”



    “Eu tenho sido paciente, Merlinde. Eu ignorei o ocasional caçador e até mesmo aquele paladino na semana passada… ‘Ela não deve ter tido conhecimento de que eles iriam me atacar’, eu disse a mim mesmo. “Ou talvez eles não tenham passado no priorado antes.” Mas uma força-tarefa completa de caçadores de demônios, vários deles com proteções em suas mentes? Nossos termos foram claros. Você deveria dissuadir grupos assim.”



    A prioresa olhou para o chá. “Você espera que eu honre uma promessa em face do que vem acontecendo? Uma aldeia inteira foi assassinada hoje.”



    “Alguns de seus sacerdotes são estúpidos, mas você não é. Você me conhece bem o suficiente para reconhecer que eu não estou envolvido. Então, por que você ajudaria um bando de assassinos empenhados em me matar?”



    A prioresa tomou outro gole de chá.



    “Isso é pó salgueiro de Verlasen?” Perguntou Davriel, ainda pairando sobre ela enquanto permanecia ao lado da mesa.



    “O melhor”, disse ela. “Nada é melhor em acalmar os nervos. Esta é, infelizmente, a minha última xícara.”



    Ele grunhiu. Havia imaginado isso.



    “Talvez”, disse ela finalmente, “eu esperasse que os caçadores te acordassem, Greystone. Seu povo sofre e você mal percebe. Eu lhe escrevo sobre suas dores e dificuldades, apenas para receber missivas divagantes reclamando sobre como seus dedos dos pés ficam frios à noite.”



    “Eu honestamente esperava meias melhores de pessoas que vivem em um outono perpétuo.”



    A única coisa à qual você responde é uma interrupção.”



    “O que era o nosso acordo“, disse Davriel, cada vez mais frustrado. Ele passou por ela, andando de um lado para o outro no aposento. “Eu deixo as pessoas dos Acessos em paz. Eu não exijo mais do que alimentos e mercadorias ocasionais como presente! Em troca, você deveria impedir as pessoas de me incomodarem.”



    “O sofrimento deles é tão incômodo, não é mesmo?”



    “Bah. Você preferiria que outra pessoa fosse seu senhor? Talvez algum tirano de duas caras que esmaga os ânimos durante o dia e uiva para a lua durante a noite? Ou prefere a volta de um herdeiro sugador de sangue da Casa Markov, como o que eu matei quando cheguei? Mulher tola. Você deveria estar pregando diariamente para as pessoas o quão boas são suas vidas”.



    Ele parou de caminhar perto do fundo da pequena sala, onde notou uma imagem emoldurada no chão, virada para a parede. Ele virou-a para si e encontrou uma pintura do arcanjo Avacyn.



    “Eu…” disse Merlinde. “Eu achei que tinha sido você. Até ouvi-lo interrogar Edwin agora há pouco, achei que devia ter sido você quem havia levado as almas dos aldeões.”



    Ele olhou para ela.



    “Depois que os mercadores foram atacados, eu investiguei”, disse ela. “Meu dom em detectar espíritos revelou que os geists estiveram envolvidos, como Edwin havia dito. Fazia sentido. Você é a única coisa nessa floresta que eu tenho certeza que tem a força necessária para desafiar aquele Pântano amaldiçoado. Eu pensei que devia ter sido você quem havia levado as almas das pessoas.”



    “E você não fez nada?”



    “Claro que fiz alguma coisa”, disse Merlinde. “Eu enviei uma mensagem para a igreja em Thraben, implorando por seus caçadores mais fortes. Eu pedi homens e mulheres especificamente talentosos em matar demônios e os avisei que você poderia penetrar mentes. Eu estava… preocupada há algum tempo que eventualmente você mostraria uma segunda face. A face oculta que tantos lordes possuem.”



    “Idiota”, disse Davriel. “Você foi feita de tola.”



    “Eu percebo isso agora”, disse ela, tomando seu chá. “Se você fosse o homem que eu temia, você teria destruído o priorado em vez de entrar para exigir respostas. Mas… o que está acontecendo?”



    “Eu pensei que talvez houvesse sido Edwin”, disse Davriel. “Alguém fisicamente esfaqueou um dos seus sacerdotes na aldeia ontem à noite. Eles deixaram quem quer que tenha sido o responsável entrar na igreja, portanto seus sacerdotes devem ter confiado nessa pessoa. Quem quer que tenha sido, matou o sacerdote. Com uma faca. Não foi o ato de um geist.”



    “Qual… qual deles?”



    “Qual geist? Como eu poderia saber?”



    “Não, Greystone. Qual sacerdote? Quem foi esfaqueado?”



    Ele olhou para ela, franzindo a testa. A prioresa era uma mulher dura, mas ela havia se inclinado para frente em sua cadeira, segurando sua xícara e parecendo… sobrecarregada. Os sacerdotes que ela enviou, pensou ele. Ela está pensando em como ela os enviou para a morte.



    “Não sei. O mais velho, com a barba.”



    “Notker. Anjos abençoem sua alma, meu amigo.” Ela respirou fundo. “Eu duvido que Edwin esteja por trás disso. Ele é difícil de controlar, mas é sincero em sua fé. Suponho que, talvez, pudéssemos levá-lo a abrir sua mente para você, de modo que você pudesse ter certeza.”



    “Eu não consigo ler mentes. Não é assim que minhas habilidades funcionam.” Davriel girou a pintura do arcanjo, pensando. “E quanto aos seus outros sacerdotes? Quando eu era um jovem contador fazendo a contabilidade para a parceria, uma das primeiras coisas que eles nos ensinaram foi a traçar motivações para encontrar fraudadores. Nós deveríamos procurar pela pessoa com a mistura única de oportunidade e incentivo. Uma pressão financeira repentina ou notícias em suas vidas que os deixassem desesperados. A mudança é o verdadeiro catalisador das crises”.



    “Eu não posso prestar contas por cada um dos meus sacerdotes especificamente”, disse a prioresa. “Mas eu não acho que algum deles teve oportunidades ou incentivos. Estamos aqui para salvar as pessoas, não para matá-las. Certamente não consorciaríamos com espíritos malignos.”



    “Mas consorciaria com homens maus?” disse Davriel.



    Ela olhou para ele. “Isso depende de quanta esperança temos neles, suponho.” Ela balançou a cabeça. “Eu acho que você está ignorando o verdadeiro culpado. A resposta óbvia. Quando vi a trilha dos geists que fizeram isso, a luz estava tingida de um verde doentio. Eu vivo aqui há quase 20 anos; eu consigo reconhecer o toque do Pântano quando o vejo.”



    “Alguém esfaqueou aquele sacerdote, lembre-se. E Tacenda afirma ter ouvido passos. Alguém estava controlando os geists.”



    “Aquela menina”, disse a prioresa. “Ela e sua irmã são um… caso estranho. Eu li relatos do passado e não consigo encontrar nada como a maldição da cegueira delas. Eu estava progredindo com o povo dos Acessos há uns dez anos, trazendo-os à luz do Anjo, e então aquelas duas começaram a manifestar poderes. Isso fez com que as pessoas seguissem o Pântano novamente, derrubando quase tudo que eu havia realizado desde que chegara aqui.”



    “A irmã foi morta pelos Sussurradores”, disse Davriel. “Mas Tacenda disse que eles não a atacam. Eu gostaria de saber por quê.”



    “A resposta é óbvia”, respondeu a prioresa. “Eu consegui chegar até Willia. Ela estava treinando para se tornar um cátara. Willia se virou contra o Pântano, por isso ele a matou. Eu nunca consegui alcançar Tacenda, no entanto…”



    “Eu sinto que deve haver mais”, disse Davriel. “Algo que eu estou deixando escapar nesta bagunça.”



    “Talvez o Pântano tenha poupado Tacenda porque tem outro propósito para ela”, disse a prioresa. “Você diz que acha que essa pessoa estava controlando os geists, mas talvez você esteja vendo isso da forma errada. O Pântano poderia estar controlando os espíritos diretamente, mas também usando um ou dois peões vivos para realizar suas tarefas. Os sacerdotes poderiam ter deixado um aldeão, clamando por ajuda, entrar na igreja. De qualquer maneira, o Pântano é o verdadeiro mal aqui”.



    “Mas por que ele mataria seus próprios seguidores?”, disse Davriel.



    “O mal muitas vezes não tem motivos para o que faz.”



    Não, pensou ele. O mal tem os motivos mais óbvios.



    Ele não disse isso, porque ele não tinha energia para uma discussão prolongada. Mas não eram as pessoas sem moral que confundiam Davriel — elas tendiam a se alinhar melhor com seus incentivos e eram muito mais fáceis de ler.



    A pessoa moral era quem agia de forma irregular, contra o seu próprio interesse.



    Ainda assim, a prioresa tinha razão. Múltiplas pistas apontavam para o Pântano. “Você sabe o que ele é?”, perguntou ele a ela. “Mesmo?”



    “Um falso deus”, disse ela. “Alguma coisa horrível que espreita no fundo das águas, consumindo oferendas. Logo quando cheguei, enviada para essa região para ensinar às pessoas o caminho correto da fé, o confrontei. Eu fui até aquele Pântano e olhei para ele, usando meus poderes. Lá, encontrei algo terrível, vasto e antigo.



    “Eu soube então que não poderia combatê-lo com orações ou bênçãos protetoras convencionais. Ele era muito forte. Eu construí este priorado sobre as catacumbas e dediquei tudo o que tinha para converter as pessoas dos Acessos. Senti que, se conseguisse impedi-los de darem suas almas à coisa, eventualmente ela acabaria enfraquecendo e morrendo”.



    “Você converteu Willia”, disse Davriel, pensativo. “Um de seus campeões eleitos. Talvez isso tenha provocado tudo que está acontecendo.”



    “É possível. Não sei dizer com certeza.” Ela hesitou. “No começo, presumi que você tivesse vindo aqui para estudar ou controlar o Pântano. Talvez fosse por isso que eu havia acreditado tão rápido que você estava por trás dessas mortes. Parecia uma coincidência impossível que uma pessoa com seus talentos viesse a se instalar em um lugar tão remoto.”



    “Eu não sabia sobre o Pântano antes de chegar”, disse Davriel.



    Ah, disse a Entidade em sua mente, mas eu sabia.



    Quê? Você sabia?



    “Seja o que for”, disse a prioresa, “está com fome. O Pântano consome as almas daqueles que morrem aqui. Mesmo a influência da Pedra Seelen resiste com dificuldade a ele, apesar de ter sido dada a nós pelo Anjo Sem Nome especificamente para esse propósito.”



    O que você sabe sobre o Pântano? perguntou Davriel à Entidade. Você insinua que me trouxe aqui. Com qual propósito?



    Em busca de força, disse a Entidade. Você verá…



    Davriel franziu a testa e olhou para a prioresa. “Parece, infelizmente, que sou forçado a enfrentar o Pântano. Que incômodo. Ainda assim, se eu puder encontrar a causa dessas manifestações, estou razoavelmente certo de que posso devolver as almas para as pessoas da aldeia. Ou pelo menos a um número aceitável delas, considerando as circunstâncias.”



    A prioresa virou-se completamente na cadeira para olhar para onde ele estava, ainda no fundo do aposento, girando distraidamente a imagem de Avacyn.



    “Salvá-los”, perguntou ela. “É possível?



    “Se foi feito, então eu posso fazer ser desfeito.”



    “Não creio que isso sempre será verdade. Mas será o bastante se você tentar. O que você precisa de mim?”



    “Assim que isso acabar, você deve viajar para Thraben e fazer o que for preciso para ter certeza de que os tolos acreditam que eu morri ou que fui embora, ou que fui humilhado e me escondi.”



    “Eu poderia fazer melhor”, disse ela. “Eu poderia dizer a eles que eu estava errada e que você nos salvou! Se você trouxer as pessoas de volta, eu clamarei isso dos passos da grande catedral! Eu o proclamarei um herói e…”



    “Não”, disse ele. Ele largou a pintura e caminhou até a cadeira dela, pairando sobre ela. “Não. Deverei ser tratado de forma ordinária. Outro senhor insignificante que se apoderou de uma fatia insignificante de terra que ninguém se importa. Um almofadinha indigno de atenção ou nota. Nada de especial. Nada com o que se importar.“



    Ela fez que sim com a cabeça lentamente.



    “Por ora”, continuou ele , estendendo a mão, “precisarei pegar emprestado seu talento para detectar e ancorar espíritos.”



    “Você o terá de bom grado”, disse ela, colocando a mão envelhecida na dele.



    “Será doloroso”, avisou ele. “Nossas… naturezas não se alinham. E você ficará sem acesso à habilidade por um curto período de tempo, talvez até um dia inteiro.”



    “Que seja.”



    Ele rangeu os dentes, então penetrou a mente dela. Por sua vez, ele sentiu uma pontada imediata de dor no crânio. Fogo do inferno, esta mulher é forte. Ele não conseguia enxergar seus pensamentos, mas foi atraído, como sempre, pelo poder. A energia dentro dela, o brilho da habilidade, força, magia.



    Ele a soltou, estremecendo com a sensação terrível. O processo havia concedido um novo feitiço, cru e radiante: um feitiço que o deixaria rastrear os movimentos dos espíritos e, se necessário, forçá-los a permanecer corpóreos.



    A prioresa desabou em seu assento. Ele segurou-a pelo braço, impedindo-a de deslizar para o chão. Ela era um cão de caça velho e duro e, até certo ponto, ele reconhecia a importância do trabalho dela. As pessoas precisavam de algo no que acreditar. Algo para proporcionar conforto e evitar que fossem esmagadas pelas realidades da existência humana.



    A verdade era uma coisa perigosa, melhor deixada para aqueles que poderiam realisticamente explorá-la.



    A prioresa finalmente se recuperou e apertou o braço dele em agradecimento por segurá-la. Ele fez um aceno com a cabeça e virou-se para sair, ainda sofrendo pela pontada de dor em sua mente.



    “Você foi incitado a agir”, disse ela por trás dele. “Mas você ainda parece relutante. O que seria necessário, Greystone? Para fazer você realmente se importar?”



    Cadáveres. Morte. Memória.



    “Não pergunte isso”, disse ele, voltando para o corredor. “Esta terra não está pronta para uma versão de mim que se preocupe com outra coisa senão sua próxima soneca.”



    Continua (...)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 10

    Children of the Nameless - Capítulo 10

    por MypCards em 26/02/2019 - 121 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 10: Davriel





    De acordo com o relógio de bolso de Davriel, eram quase duas da manhã quando chegaram à última estrada, aproximando-se do priorado. Davriel esperava que a garota cochilasse em algum momento durante a viagem, mas ela continuou olhando para as árvores e os padrões de sombra criados pela passagem deles.



    Naturalmente, fazer o percurso em silêncio não significa dizer que Davriel tenha sido deixado em paz.



    Não podemos nos esconder por muito mais tempo, disse a Entidade. Precisamos nos preparar para o que fazer quando formos descobertos.



    Você vem dizendo isso há meses, respondeu Davriel em sua mente. E aqui estamos nós. Ainda em segurança. Ainda sozinhos.



    Eles estão à sua caça. Eles irão encontrar o seu esconderijo.



    Procurarei outro, então.



    Davriel podia sentir a Entidade agitando-se dentro de sua mente. Davriel sentiu cheiro de fumaça e sua visão desapareceu. A Entidade estava brincando com seus sentidos novamente.



    Você não se lembra da emoção, da glória da conquista? Dizia ela. Você não se lembra do poder daquele dia?



    Eu lembro, respondeu Davriel, com fumaça espessa em suas narinas, de ter percebido que eu atrairia muita atenção. Que a força que eu tinha, não importa quão gloriosa, não seria suficiente. Que aqueles que desejassem apoderar-se de você me derrotariam facilmente se eu ficasse sozinho diante deles.



    Sim, disse a Entidade. Sim, houve… sabedoria nessa percepção.



    Davriel inclinou a cabeça, depois baniu os toques da Entidade sobre seus sentidos. O quê? ele pensou sobre isso. Você concorda que eu não deveria tê-lo usado mais ainda naquele momento?



    Sim, disse a Entidade. Sim.



    Estranho. A Entidade normalmente desejava que ele recorresse a ela e utilizasse-a para seu verdadeiro propósito — como um vasto reservatório para alimentar seus feitiços. Com a Entidade, ele conseguia fazer suas habilidades roubadas durarem semanas sob uso constante. Normalmente, os feitiços que ele roubava das mentes dos outros desapareciam algumas horas depois que ele os empregava pela primeira vez. Alguns duravam mais e outros desapareciam depois de alguns minutos, principalmente se ele os tivesse conservado por um tempo antes do primeiro uso.



    Você ainda não está pronto, disse a Entidade. Eu percebi isso. Tenho trabalhado em uma solução. O multiverso ferve na sua ausência. Forças colidem e as fronteiras entre os planos tremem. Eventualmente, o conflito o encontrará. Farei com que você esteja pronto e preparado. Pronto para levantar-se e reivindicar a posição que é legitimamente sua…



    A Entidade silenciou-se e não respondeu quando ele a incitou. O que ela estava planejando? Ou seriam estas apenas mais promessas e ameaças inúteis?



    Sentindo-se gelado pela conversa, Davriel voltou sua atenção para a tarefa em mãos. Ele havia roubado várias habilidades dos caçadores na igreja. No entanto, ainda que as tivesse em conta, era difícil não perceber o quão pareciam insignificantes comparados ao poder da Entidade.



    Esqueça isso. Da líder dos caçadores, ele roubou um feitiço de banimento muito interessante. Era forte, mas, como provado por sua tentativa de usá-lo contra ele, não poderia afetar um humano. Ele poderia usá-lo para dispensar uma criatura mágica, como um geist ou até mesmo um anjo, embora os efeitos fossem temporários.



    A piromancia, é claro, também se mostraria útil, embora agora que a tinha usado uma vez, sua força desapareceria até deixá-lo por completo. Ele esperava encontrar algo útil na mente do velho diabolista, mas o único talento que ele encontrou no crânio daquele homem foi o feitiço de tinta de escriba, que faz palavras aparecerem em uma superfície da forma como você as imaginar. Não tem muita utilidade em combate. Porém, ele também tinha o feitiço de invocação de armas. Isso duraria, como a piromancia, por algumas horas.



    Não era um arsenal particularmente poderoso, mas ele sobrevivera anteriormente com menos que isso e, em breve, ele adicionaria os talentos da prioresa. De fato, a luz da frente na velha estrada da floresta indicava que eles estavam perto. Tacenda animou-se em seu assento. Ela era durona, embora isso não fosse incomum para nativos dos Acessos. Tão resistentes quanto rochas e tão teimosos quanto javalis — e com quase tanto juízo quanto ambos. Do contrário, teriam encontrado outro lugar para morar.



    Claro, pensou Davriel consigo mesmo, o que isso diz sobre mim, um homem que, de todos os lugares possíveis, veio impulsivamente morar aqui?



    Você não veio impulsivamente, disse a Entidade a ele. Eu o trouxe aqui deliberadamente.



    Davriel sentiu-se subitamente alarmado. Ele endireitou-se no assento, fazendo com que Miss Highwater, sentada de frente para ele, fechasse o livro-razão e ficasse alerta.



    Quê? respondeu Davriel de forma exigente. O que você acabou de dizer?



    A Entidade acomodou-se novamente, ficando em silêncio.



    Você não me trouxe aqui, pensou Davriel em reposta. Eu vim para Innistrad por vontade própria. Por causa da população demoníaca deste plano.



    Mais uma vez, a Entidade não disse nada. Miss Highwater olhou em volta, tentando descobrir o que o preocupava. Davriel se obrigou a colar uma expressão despreocupada no rosto. Certamente… certamente a Entidade estava meramente zombando dele.



    E, no entanto, ele nunca a ouvira dizer nada que, pelo menos, ela não acreditasse que fosse verdade.



    A carruagem desacelerou quando se aproximou das luzes, duas enormes lanternas cobertas de vidro com óleo queimando. Fogo: o sinal universal de que a civilização está adiante.



    “Hô, a carruagem!” chamou uma voz amigável.



    Tacenda se animou. “Eu conheço esse homem, Davriel. É Rom. Ele é…



    “Estou familiarizado com ele”, disse Davriel. “Obrigado.”



    Miss Highwater suspendeu a cortina da janela, revelando o velho monge aproximando-se do veículo.



    Rom fez uma reverência — ele estava um pouco trêmulo — para  Davriel. “O Homem em pessoa! Lorde Davriel Greystone! Imaginei que devêssemos esperar vê-lo esta noite.”



    “Minha visita tornou-se inevitável depois que os caçadores foram enviados atrás de mim, Rom”, disse Davriel.



    “Sim, suponho que seja verdade”, disse Rom, olhando para a estrada em direção ao priorado, visível ao longe, com a luz derramando de suas janelas. “Bem, isso é uma preocupação para os homens mais jovens.” Ele se virou para a carruagem e acenou para Miss Highwater. “Devoradora de Homens”.



    “Rom”, disse ela de volta. “Você parece bem.”



    “Você sempre diz isso, senhorita”, disse Rom. “Mas enquanto você não mudou nada em quarenta anos, eu sei muito bem que me transformei em um pedaço de couro deixado por muito tempo ao sol.”



    “Os mortais envelhecem, Rom”, disse ela. “É o caminho de vocês. Mas eu preferiria apostar no pedaço de couro que resiste há quarenta anos do que na nova peça ainda não testada.”



    O velho sorriu, mostrando alguns dentes perdidos. Ele olhou para Crunchgnar que, a julgar pela maneira como a cobertura grunhiu sob seu peso, havia se aproximado para observar o velho caçador.



    “Bem, vamos até à prioresa, senhor”, disse Rom a Davriel. “Desde que cheguei e contei a ela sobre a aldeia, ela estava querendo falar com…” Ele parou, olhando para a carruagem. Começou a falar novamente ao notar Tacenda no assento pela primeira vez. “Miss Tacenda? Ora, você disse que permaneceria na minha cabana!”



    “Eu sinto muito, Rom.”



    “Eu a encontrei no meu banheiro”, observou Davriel. “Com um olhar vingativo e um instrumento enferrujado na mão. Arruinou uma das minhas camisas favoritas quando ela me apunhalou.”



    “Ela?” disse Rom. Davriel poderia ter esperado que o homem ficasse chocado, mas ao invés disso ele apenas riu e deu um tapa na perna dele. “Bem, isso foi um feito de bravura, Miss Tacenda! Eu poderia ter dito que seria inútil, mas… esfaquear o próprio Homem? O Pântano deve estar bem orgulhoso de você!”



    “Hmm… obrigado,” disse ela.



    “Bom, eu estou feliz em vê-la em segurança, senhorita! Eu estava indo de volta atrás de você, depois de dizer à prioresa o que você me disse. Mas ela disse que precisava de todos os soldados aqui, até mesmo um velho como eu. Só por garantia. Então ela me colocou observando a estrada.”



    Rom abriu a porta para Miss Highwater sair. Normalmente, quando Davriel visitava, ela e os outros demônios aguardavam do lado de fora do priorado. Enquanto isso, um dos monges ou sacerdotes levaria Davriel e a carruagem para dentro. Esta noite, no entanto, Davriel a impediu, saltando da carruagem ele mesmo.



    “Dav?” perguntou Miss Highwater.



    “Quero você aqui fora, com a carruagem”, disse ele. “Se algo acontecer, posso precisar que você se junte a mim rapidamente.”



    “Vocês poderiam simplesmente entrar todos juntos”, disse Rom. “Perdão, senhor, mas eles poderiam, se quisessem.”



    “Tenho certeza de que a prioresa adoraria isso”, disse Davriel.



    Ela não é o senhor deste solo”, disse Rom. “Perdão, mas é a verdade do próprio arcanjo que ela não é. E se você está preocupado com a luz destruidora, bem, eu não acho que nenhum desses filhotes aqui tenha poder suficiente para você temer — e minha própria habilidade não é suficiente para chamuscar a um único diabo hoje em dia.”



    Davriel olhou para Miss Highwater e ela sacudiu a cabeça. Crunchgnar provavelmente teria apreciado a chance de pisar em solo sagrado e profanar um altar ou dois, mas Davriel não perguntou a ele. Em vez disso, ele acenou para que Tacenda se juntasse a ele. A jovem mulher saiu, trazendo sua viola.



    Davriel deixou sua bengala-espada, confiante de que poderia invocá-la com seu feitiço recém-adquirido. “Esteja pronto”, disse ele a Crunchgnar. Então ele acenou com a cabeça para Rom, que guiou o caminho ao longo da estrada, em direção ao priorado.



    Folhas eram trituradas sob os pés e coisas se agitavam nas árvores. Provavelmente apenas animais da floresta. Um número incomum deles vivia perto do priorado. Davriel passou por entre as lanternas queimando ao longo da estrada, entrando na clareira onde, no centro de uma suave encosta, o priorado erguia-se orgulhoso sob a lua. O longo prédio de um único andar sempre parecera solitário para ele.



    Tacenda olhou por cima do ombro para os demônios. “Eu não entendo”, ela disse suavemente para Davriel. “Rom age amigavelmente para você, mas ao mesmo tempo eu sinto como se estivéssemos caminhando para a batalha.”



    “Meu relacionamento com o priorado é… complexo”, disse Davriel. “Quanto a Rom, vou deixá-lo falar por si mesmo.”



    “Senhor?” disse Rom, olhando para trás enquanto seguia à frente deles. “Eu não tenho nada para dizer que valha a pena ouvir”. Eu fico de fora dessas coisas hoje em dia. Já tive o suficiente dessa tolice quando mais jovem.”



    “Você conhece Miss Highwater”, disse Tacenda.



    “Eu tentei destruir esse demônio por dez anos”, disse Rom, resmungando em seguida. “Quase morri meia dúzia de vezes naquela missão idiota. Eventualmente eu aprendi: nunca cace um demônio mais esperto do que você. Foque nos estúpidos. Há muitos para manter um caçador ocupado a vida inteira.”



    “Eu pensei que você caçava lobisomens quando era mais jovem”, disse Tacenda.



    “Eu caçava o que quer que tentasse caçar homens, senhorita. Primeiro foram demônios. Então lobos.” Sua voz ficou mais suave. “Então anjos. Bem, isso quebrou homens mais fortes que eu. Quando tudo se acalmou, descobri que tinha me tornado um homem velho, com os melhores anos da minha vida passados com sangue até os joelhos. Vim para aqui para tentar fugir disso, lavar um pouco de tudo aquilo, passar algum tempo caçando ervas daninhas…”



    “Você conhece um sacerdote chamado Edwin?” perguntou Davriel.



    “Claro”, disse Rom. “Sujeito ansioso. Jovem.”



    “Fale-me sobre ele,” incitou Davriel.



    “Sua cabeça está cheia de conversas sobre a justa inquisição. Conversas das mentes mais zelosas no coração das terras humanas. Ele já começou a percorrer uma estrada, do tipo que você nunca percebe que só leva a uma direção… Ele olhou de volta para Davriel. “Eu não deveria dizer mais nada. Fale com a prioresa.”



    Alguns cátaros do priorado aguardavam às portas da entrada a sudeste. Mantos brancos por cima de couros, com grandes colares e chapéus pontiagudos que escondiam seus rostos. Eles olharam para Davriel.



    “Chapéus legais”, observou ele enquanto entrava no priorado. A igreja realmente tinha as melhores proteções para a cabeça.



    Rom guiou o caminho por um pequeno corredor e Davriel seguiu, com seu manto ondulando, escovando as duas paredes. O priorado era um lugar humilde. A prioresa evitava a ornamentação, preferindo corredores sombrios de madeira pintados de branco. Eles desceram os degraus até às catacumbas, onde guardavam aquele artefato estúpido que disseram ter sido dado a eles por um anjo.



    A passagem de Davriel atraiu alguma atenção — cabeças espiando pelas portas, outras correndo para espalhar a notícia de que o Homem estava de visita. Ninguém o interrompeu, pelo menos não até ele se aproximar da porta da prioresa. Pouco antes dele chegar, um sacerdote irrompeu de um corredor lateral e, em seguida, — com o rosto ruborizado de uma rápida corrida — posicionou-se entre Davriel e seu destino.



    Ele era um homem jovem, de cabelos negros e hirtos, com a aparência de um homem com o dobro da sua idade. Ele não usava armadura, apenas as vestes de sua posição, mas ele imediatamente puxou sua espada longa e apontou-a para Davriel.



    “Pare aí mesmo, demônio!” disse o jovem.



    Davriel levantou uma sobrancelha e olhou para Rom. “Edwin?”



    “Sim, senhor”, disse Rom.



    Eu não tolerarei seu reinado de terror”, disse Edwin. “Todo mundo sabe o que você fez. Uma aldeia inteira? Você pode assustar os outros, mas eu fui treinado para lutar pelo que é certo”.



    Davriel estudou o jovem, cuja mão livre começou a brilhar. Esse era, com frequência, o primeiro instinto deles, tentar acertá-lo com a luz destruidora. Eles estavam tão seguros de que, secretamente, ele era algum tipo de monstro não natural — em vez de apenas um homem, o monstro mais natural de todos.



    “Edwin”, disse Rom. “Acalme-se, rapaz. Isso não vai acabar bem para você.



    “Não consigo acreditar que você o deixou entrar aqui, Rom. Você se esqueceu das nossas primeiras lições! Não fale com os monstros, não discuta com eles e, mais importante, não os convide para entrar.”



    “Você diz que me viu na estrada sete dias atrás”, disse Davriel. “Você diz que eu estava lá, com dois geists, atacando alguns mercadores. Como era a minha aparência?”



    “Eu não tenho que responder a você!” Disse Edwin, erguendo a espada, com luz de lamparina brilhando na lâmina.



    “Você ao menos viu a minha máscara?”



    “Eu… você fugiu para a floresta antes que eu pudesse ver!”



    “Eu fugi? A pé? Eu não usei uma carruagem? E você simplesmente me deixou ir?”



    “Você… você desapareceu na floresta com seus geists. Eu não vi sua máscara, mas a capa é bem evidente. E eu não fui atrás de você porque eu precisava ver como estavam suas vítimas!”



    “Então você disse a todos que me viu”, retrucou Davriel, “quando tudo o que você realmente viu foi um vulto indistinto com uma capa?”



    “Eu… eu sabia o que você era…” disse Edwin, vacilando. “Os inquisidores falaram sobre lordes como você! Alimentando-se dos inocentes. Procurando aldeias desprotegidas para dominar. Seu tipo é uma praga sobre nossa terra!”



    “Você estava procurando um motivo para me culpar por algo”, disse Davriel. “Essa foi apenas a primeira oportunidade que você encontrou. Garoto tolo. Quão alta era essa figura que você viu?”



    “Eu…” Ele parecia estar reconsiderando sua acusação.



    Davriel ergueu a mão e esfregou os dedos, invocando a piromancia roubada. O poder ainda estava com ele, embora estivesse desaparecendo. Ele fez chamas dançarem ao redor de seus dedos.



    Edwin estava mentindo de propósito ou não? Poderia Edwin ter planejado matar os pais de Tacenda por algum motivo, depois deixado a irmã escapar para que ela pudesse identificar o assassino como Davriel? Teria ele próprio atacado os mercadores e usado o ataque para fazer todo mundo focar em Davriel?



    Talvez ele pudesse arrancar a verdade através do medo.



    “Rom”, disse Davriel, “você deveria buscar um pouco de água. Eu odiaria queimar o lugar por acidente. E talvez também um esfregão para lidar com o que sobrar deste jovem.”



    “Sim, senhor”, disse Rom. Ele pegou Tacenda pelo braço, levando-a para longe do conflito, mais adiante no corredor.



    Edwin empalideceu — mas, em sua defesa, tentou atacar Davriel. No final das contas, não foi uma manobra ruim. O manto de Davriel, no entanto, produziu pós-imagens que confundiriam a todos, exceto os espadachins mais precisos. O ataque do garoto foi para a direita. Davriel se afastou, depois bateu de leve na lâmina com sua unha.



    O jovem se virou, rosnando, depois atacou novamente. Davriel, por sua vez, ativou o feitiço de invocação de armas. Fazer isso enviou uma pequena pontada de dor para dentro de sua mente. Feitiço estúpido. Ainda assim, funcionou, trazendo para a mão a última arma que ele tocou: neste caso, a espada do jovem sacerdote.



    Edwin tropeçou, desequilibrado, quando sua arma sumiu e depois reapareceu na mão de Davriel.



    Davriel levantou a outra mão, deixando as chamas aumentarem ao redor de seus dedos. “Diga-me, criança”, disse ele. “Você realmente acha que eu fugiria de você?”



    O jovem sacerdote cambaleou para trás, tremendo, mas arrancou sua adaga do cinto.



    “Você realmente acha”, disse Davriel, “que eu roubaria almas em segredo? Se eu precisasse delas, eu as exigiria!”



    Ele precisava de algo para engrandecer o momento. Talvez aquele feitiço de tinta que ele roubou do velho demonologista? Mal causou uma pontada de dor a Davriel ao usá-lo para pintar as paredes de preto, como tinta derramada. Ele fez letras sobrenaturais irromperem de onde a escuridão era mais pronunciada e se moverem pelo chão em direção a Edwin. Elas fluíam como sombras, escritas em ulgrothano antigo.



    O jovem sacerdote começou a tremer visivelmente, recuando diante do rabisco arcano.



    “Eu não matei aquelas pessoas”, disse Davriel. “Elas me serviam bem. Mas sua acusação causou um dano incrível. Quem está realmente por trás disso fugiu e usou você como uma distração. Então, responda minhas perguntas. Como era a aparência dessa pessoa?“



    “Era… era mais baixo do que você”, sussurrou Edwin. “Mais magro, eu acho. Eu… eu tinha tanta certeza de que era você…” Seus olhos se arregalaram, enquanto as letras avançavam em sua direção. “Anjo sem Nome, perdoe-me!”



    Ele se virou e fugiu.



    Davriel observou o jovem ir, abaixando a mão e banindo a piromancia. Ele não sabia ao certo, mas seus instintos diziam que esse Edwin não era nenhum mestre do crime em segredo. Ele havia visto um ataque na estrada, talvez intencionalmente projetado para fornecer uma testemunha. De fato, parecia provável que o ataque aos pais de Tacenda tivesse poupado a irmã pelo mesmo motivo, de forma que ela corresse e contasse às pessoas o que tinha visto.



    Será que quem estava por trás disso sabia que desaparecimentos repentinos causariam a disseminação de rumores, atraindo os caçadores para investigá-los? Os primeiros ataques poderiam ter como objetivo fornecer uma cobertura, desviando a atenção para Davriel.



    Mais baixo do que eu, pensou Davriel. Ele tinha um metro e setenta e oito centímetros de altura. E mais magro. Isso não quer dizer muita coisa porque, com o seu manto, as pessoas geralmente o enxergavam como sendo maior do que ele é.



    “Você já terminou?” falou uma voz em tom exigente ao seu lado.



    Davriel se virou e deparou com a prioresa parada na porta do aposento dela. Com a pele enrugada e com a cabeça coberta por um coque prateado, ela estava envelhecida como uma velha cadeira que você encontrou no sótão — a lógica diz que ela deve ter sido nova um dia, mas você teve dificuldade em imaginar que ela realmente alguma vez tenha estado na moda. Roupas brancas simples cobriam seu corpo e seus lábios estavam marcados por uma carranca perpétua.



    “Pare de ameaçar meus sacerdotes”, disse ela. “Você está aqui por mim. Se você tem que roubar uma alma, tome a minha. Se puder.”



    “Terei vingança pelo que você me causou, velha”, disse Davriel.



    Ele encontrou os olhos dela, e os dois se encararam por um longo período. Sussurros preocupados vieram do outro lado do corredor, onde monges e sacerdotes haviam se reunido para assistir.



    Finalmente, a prioresa recuou e deixou Davriel entrar no pequeno aposento. Ele entrou bruscamente e, fechando a porta com um chute, jogou a espada para longe.



    Então ele desabou na cadeira atrás da mesa. “Nós”, vociferou ele à prioresa, “supostamente tínhamos um acordo, Merlinde”.



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 9

    Children of the Nameless - Capítulo 9

    por MypCards em 14/02/2019 - 145 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 9: Tacenda





    Tacenda forçou a si mesma a manter-se em movimento, de forma a não pensar muito sobre o que havia acontecido. Em vez disso, ela decidiu verificar os corpos dos aldeões e dos sacerdotes, enquanto os demônios cuidavam de seus ferimentos em frente à antiga igreja.



    Ainda assim, ela não conseguia evitar olhar para os corpos dos soldados mortos e, a cada vez que o fazia, sentia-se mal. Ela estava acostumada com as dificuldades da vida nos Acessos, mas havia algo perturbadoramente brutal a respeito desses cadáveres. Homens e mulheres mortos em batalha.



    Quantos horrores ela poderia testemunhar em uma noite antes que ela desmoronasse sob tudo isso?



    Apenas continue. Ajude aqueles que você puder, pensou ela, rolando Ulric, o sapateiro e o acomodando ao lado de sua família. Não pense em como, sob quaisquer outras circunstâncias, você teria saudado os caçadores de demônios como heróis…



    Ela fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Ela continuaria. Ela tinha que continuar. Ela era a protetora da aldeia. Ela foi escolhida para isso.



    Ela abriu os olhos e sentou-se no chão de madeira de lei. Até onde ela sabia, nenhum dos aldeões em coma haviam sido feridos durante a escaramuça. O mais próximo que qualquer um havia chegado do perigo foi quando Davriel desencadeou sua piromancia roubada. Ela usou o manto de Ulric para apagar as chamas nas proximidades.



    Perto dali, Gutmorn mancava pelas cinzas, com a perna enrolada em um curativo. O demônio esguio ajoelhou-se, levantando carinhosamente algo do carvão negro: um crânio demoníaco com chifres. Flocos de cinza caíram quando Gutmorn o levantou até o rosto e um gemido baixo escapou de sua garganta. Um som cru e angustiado. Seus olhos terríveis se fecharam, a cabeça repousou levemente sobre o crânio e sua postura desmanchou-se em uma curva.



    Tacenda quase podia enxergar humanidade no pobre.



    “Gutmorn,” disse Davriel da frente da igreja, “sua ferida na perna está sangrando através dessa bandagem. O corte é mais profundo do que você indicou.”



    O demônio não se mexeu.



    “Volte para a mansão”, disse Davriel. “Costure essa ferida e avise a Grindelin que alguns dos caçadores escaparam de nós. Eles podem decidir procurar por alvos fáceis na mansão.”



    Gutmorn se levantou, ainda segurando o crânio com cuidado, e saiu mancando da igreja destruída. Miss Highwater estendeu e pousou a mão em seu ombro quando ele passou e, embora o demônio mais alto não olhasse para ela, hesitou ao seu lado.



    Tacenda sentiu como se estivesse se intrometendo em um momento pessoal ao qual ela não pertencia.



    Gutmorn finalmente desapareceu na noite e o som de asas batendo anunciou sua retirada. Davriel atravessou a sala e inspecionou Crunchgnar. O demônio corpulento e sem asas estava cuidadosamente envolvendo seu antebraço com um curativo. Ele fora muito mais castigado que Gutmorn, mas parecia indiferente às suas feridas.



    “Nem pense em me mandar embora”, ele rosnou para Davriel. “Isso aqui vai sarar dentro de uma hora e eu não vou deixar você sozinho. Você acabará sendo morto cedo demais, quebrando nosso contrato.”



    “Ai de mim! Você me pegou”, disse Davriel. “Sempre foi minha intenção buscar o suicídio meramente como um meio de incomodar você”.



    Crunchgnar rosnou, como se acreditasse que fosse verdade.



    “Até agora,” continuou Davriel, “o ar nocivo de sua presença não foi suficiente que eu desse cabo de mim mesmo, mas sou alguém determinado, então encontrarei outro método.” Ele se voltou para Tacenda. “Você precisa de mais tempo para recuperar-se, Miss Verlasen?”



    “Estou bem,” mentiu ela, levantando-se.



    “Você não estaria conosco se isso fosse verdade”, disse Davriel. Em seguida, apontou para a noite com sua bengala. “Mas vamos embora. Não há mais o que aprender com os mortos. Pelo menos não com os do tipo que não sabe falar.”



    Eles saíram para a noite, com Miss Highwater carregando as lanternas. A relutância anterior de Davriel parecia ter desaparecido. De fato, enquanto ele guiava o caminho através da aldeia de volta para a carruagem, sua espada-bengala de cavalheiro bateu no chão com um vigor que Tacenda consideraria como ansiedade em outra pessoa.



    “Para onde agora?” ela perguntou para ele.



    “Aqueles homens obviamente passaram pelo priorado a caminho daqui”, disse Davriel. “Alguns possuíam proteções contra meus talentos em suas mentes. Eu já estava decidido a visitar o priorado, tanto para perguntar a esse padre que afirma ter me visto, como para ver a prioresa. Ela tem talentos mágicos que ajudam na interação com os espíritos. A chegada desses caçadores reforça minha decisão. A prioresa tem várias perguntas que ela deve responder.



    “Você… não vai matá-la, vai?”



    “Creio que vá depender muito das respostas dela.”



    Ele reduziu a velocidade na noite e Tacenda se aproximou, confusa, até que avistou a carruagem adiante. Ou, mais precisamente, a figura macabra ao lado dela. O pobre Brerig, o pequeno e simplório demônio, havia sido descoberto pelos caçadores, provavelmente antes do ataque à igreja. Seu cadáver deformado havia sido pregado em uma porta próxima. A cabeça fora removida e colocada ao lado da lanterna bruxuleante no chão. A boca havia sido cheia com o que parecia ser alho.



    Davriel não fez nenhum barulho, mas sua mão apertou o castão da bengala até que ela tremesse e as articulações dos dedos estivessem brancas.



    “Estas,” disse ele suavemente, “são suas ‘pessoas boas’, Miss Verlasen. Gostaria que tanto os deuses lá em cima quanto os demônios lá embaixo me protegessem das pessoas boas. Um homem chamado de mau roubará sua bolsa, mas um assim chamado ‘homem bom’ não ficará contente até que tenha arrancado seu coração.”



    Ela deu um passo atrás. Não havia ameaça em sua voz. Na verdade, ele falou com o mesmo tom jovial de sempre. E mesmo assim…



    E mesmo assim.



    Desde o estranho encontro entre eles, ela havia perdido a maior parte do medo dele. Até aquele momento. De pé na estrada, a luz das lanternas de alguma forma não conseguia alcançar o rosto dele. Naquele momento, ele parecia ter se tornando a própria sombra, tão frio ao ponto de sufocar todo o calor. Então ele girou, com seu estranho manto flutuando em torno dele, e caminhou até à carruagem. Os cavalos, felizmente, não foram molestados nem roubados.



    Tacenda seguiu, hesitante, dando uma última olhada para o cadáver de Brerig. Ela o enterraria, decidiu, assim que sua aldeia tivesse sido resgatada. O pequeno demônio foi gentil com ela. Certamente, ele não merecia tal destino.



    Não merecia mesmo? pensou ela, subindo na carruagem. Ele era um demônio. Quem sabe que horrores ele cometeu ao longo de sua vida?



    Ela não sabia e, tampouco, os caçadores. Talvez tenha sido isso que a deixou tão desconfortável. Mas o que eles deveriam fazer? Pedir a um demônio para listar seus crimes antes de destruí-lo? Nesta terra, você não tinha tempo para tais escrúpulos. Se você não atacasse rapidamente, as coisas que se moviam na floresta tomariam sua vida antes que você tivesse a chance de falar.



    E assim, a noite transformava a todos em monstros.



    Crunchgnar parecia estar melhor. Ele sentou-se no assento do condutor, fazendo com que a carruagem rangesse sob seu peso enquanto se acomodava. Miss Highwater sentou-se novamente no interior da carruagem com uma pequena lanterna pendendo ao lado de sua cabeça, iluminando quando ela abriu seu livro-razão e começou a escrever.



    Tacenda subiu por último, verificando sua viola da gamba, que havia deixado no assento. A carruagem começou a se movimentar e Tacenda achou o silêncio subsequente avassalador. Ela procurou algo para dizer e deixou escapar a primeira coisa que lhe ocorreu — embora, após reflexão, possa não ter sido uma escolha sábia.



    “Então”, disse ela. “Voluptara?”



    Miss Highwater fez uma pausa em sua escrita e Davriel, sentado no banco ao lado de Tacenda, riu baixinho.



    “Você ouviu isso, não é?”, perguntou Miss Highwater.



    “Eles dão nomes a si mesmos,” disse Davriel, inclinando-se em direção a Tacenda. “Se você não conseguiu adivinhar isso de ‘Crunchgnar’ e seu apelido belo e extremamente criativo.”



    “Eu era jovem,” disse Miss Highwater. “Ele soava impressionante.”



    “Para um garoto de dezesseis anos, talvez,” disse Davriel.



    “O que era precisamente o ponto. Lembre-se, eu tinha apenas doze dias de idade. Queria ver você fazer melhor.”



    “Sulterix,” disse Davriel indolentemente. “Lusciousori.”



    “Podemos parar a carruagem?” disse Miss Highwater. “Preciso encontrar aquele demonologista e pregar sua língua em algo.”



    “Bosomheavia…”



    “Oh, pare,” interrompeu Miss Highwater. “Você está fazendo a criança corar. Olha, por que você não me diz a resposta para a adivinha de Brerig? Os diabos organizaram um bolão de apostas.”



    “Oh, aquilo?” Davriel disse. “Era uma rocha específica que eu vi uma vez em Cabralin, com formato de cabaça.”



    “Isso é… estranhamente decepcionante”, disse Miss Highwater. “Como ele poderia ter adivinhado isso?”



    “Ele não poderia, o que é exatamente o ponto.” Daviel olhou para Tacenda. Sua confusão deve ter sido óbvia, porque ele continuou. “Cada um dos demônios tem um contrato comigo, e aquele cujas condições são satisfeitas primeiro tem direito à minha alma. Crunchgnar, por exemplo, só ganha minha alma se eu viver até os sessenta e cinco anos sem morrer.”



    “O que é inteligente”, disse Miss Highwater, “porque dá a Crunchgnar um grande motivo para protegê-lo”.



    “Brerig conquistaria minha alma se ele respondesse a adivinha que eu fiz para ele,” disse Davriel. “Ele não estipulou sobre o que seria a adivinha, infelizmente para ele.”



    “Eu ainda acho que foi intencional”, disse Miss Highwater. “Ele sempre foi mais feliz quando tinha um mestre para servir a longo prazo. Isso lhe dava um propósito.”



    “A adivinha,” disse Davriel. “Era ‘No que estou pensando agora?'”



    “Isso… não é uma adivinha,” disse Tacenda.



    “Ele a aceitou com uma,” disse Davriel. “Então o contrato foi satisfeito.”



    “Mas não há pistas!” disse Tacenda. “Não há nem mesmo um contexto! Poderia ser literalmente qualquer coisa. Ou, tecnicamente, nada. E você poderia mudar a resposta se ele conseguisse acertar!”



    “Pelo menos isso ele não poderia fazer, disse Miss Highwater. “Davriel teve que escrever a resposta no contrato antes de queimá-lo para selar o pacto. Qualquer outra pessoa que invocasse o contrato para lê-lo acharia o local da resposta indecifrável, mas se Brerig acertasse a adivinha, ele o saberia instantaneamente. Dito isso, ele só tinha direito a cinco palpites oficiais por dia, E, obviamente, Davriel escolheu algo virtualmente impossível de acertar.” Ela balançou a cabeça.



    “Você estava torcendo por ele, não é mesmo?” disse Davriel, divertido. Ele não parecia se importar nem um pouco com o fato de que eles estavam discutindo o destino de sua alma.



    “Teria sido hilário se Brerig tivesse adivinhado”, ela respondeu. “Eu gostaria de ver a reação do Crunchgnar. Você sabe, eu meio que esperava que você desse a resposta para Brerig um dia antes do seu sexagésimo quinto aniversário, só para fazer Crunchgnar explodir de frustração.”



    “Ah?” disse Davriel. Em seguida, falou muito baixinho, olhando para cima na direção do lugar do condutor da carruagem. “Minha cara, você acha mesmo que eu assinaria o contrato que daria a Crunchgnar uma chance de obter minha alma, mesmo que eu chegasse aos sessenta e cinco?”



    “Eu li o contrato”, disse Miss Highwater. “É hermético. As definições são específicas. O contrato gasta duas páginas na definição de tempos, medidas e idades! Você…”



    Ela parou quando Davriel se recostou, sorrindo.



    “Como?”, sussurrou ela. “Como você o enganou?”



    “Ele fica com a minha alma”, sussurrou Davriel, “se eu viver até os sessenta e cinco anos sem morrer”.



    “Ah, inferno …” disse Miss Highwater, arregalando os olhos. “Você já morreu uma vez, não é? Como?”



    Davriel apenas continuou a sorrir.



    “Toda aquela conversa sobre tempos e medidas no contrato”, disse Miss Highwater, “foi apenas uma distração, não foi? Eu nunca percebi… Fogo do inferno! E eles nos chamam de demônios”.



    Tacenda olhou de um para o outro quando a carruagem quicou sobre uma ponte. Que conversa bizarra. “Então…” disse ela, franzindo a testa. “Qual é a sua estipulação, Miss Highwater?”



    “Hm?” Disse ela, voltando-se para o seu livro-razão. “Oh, poderei tomar a alma de Davriel quando conseguir seduzi-lo.”



    Tacenda sentiu uma pontada de surpresa, depois corou furiosamente. Ela agarrou a viola, depois olhou de Davriel para Miss Highwater. Nenhum dos dois parecia se incomodar o mínimo que fosse com a ideia.



    “Ele é muito teimoso”, continuou Miss Highwater. “Eu presumi que teria sua alma em menos de um dia. No entanto, aqui estou eu, quatro anos depois. Fazendo sua contabilidade.”



    “Talvez eu simplesmente não goste de mulheres”, disse Davriel despreocupadamente.



    “Por favor. Você acha que eu sou tão desatenta?” Ela apunhalou seu livro-razão com um sinal de pontuação particularmente afiado, então olhou para cima. “Você é algo completamente diferente.”



    “Você já considerou que talvez não seja tão atraente quanto você sempre imaginou?”, disse Davriel.



    “Eu me apoderei de muitas almas usando precisamente essa estipulação contratual. Tanto homens quanto mulheres.”



    “E foi tão gentil a parte deles terem pena de você”, disse Davriel. “De verdade, eles devem ser parabenizados por reforçar sua autoestima enxergando a verdadeira beleza dentro de você. Pessoas louváveis, todas elas.”



    Miss Highwater suspirou, olhando para Tacenda. “Você vê o que eu tenho que aturar?”



    Tacenda abaixou a cabeça em uma tentativa de esconder seu profundo rubor.



    “Olha só o que você fez,” disse Miss Highwater para Davriel. “Escandalizou a pobrezinha.”



    “Você …” disse Tacenda. “Você realmente… quero dizer…”



    “Não é a única maneira com a qual eu consigo me apoderar de almas,” disse Miss Highwater. “Mas funcionou bem para mim no passado. E, devo admitir, é algo esperado de mim a esta altura. Não fiquei nada surpresa quando Davriel sugeriu isso durante o processo de invocação e ligação. Além disso, me interessou que uma pessoa que já tivesse um contrato sobre sua alma ousasse tentar fazer outro. Davriel é um caso especial, no entanto. Ele é muito persuasivo. Irritantemente persuasivo.”



    “Mas… mais cedo, você estava tão envergonhada pelo seu nome…”



    “Porque é bobo. Isso não significa que estou envergonhada de quem eu sou.” Ela olhou para Davriel. “Eu estou apenas enferrujada, isso é tudo. Passei anos presa naquela estúpida prisão de prata.”



    “Você poderia ter praticado suas artes de sedução com os outros demônios”, observou Davriel.



    “Por favor, você já viu como a maioria deles se parece? Ela olhou para Tacenda novamente, que não conseguia acreditar que esta conversa ainda estava acontecendo. “Crunchgnar é comparativamente bonito para um demônio, criança. Confie em mim. Alguns dos outros têm ganchos em vez de mãos. Literalmente ganchos.”



    “Eu sempre pensei sobre isso,” disse Davriel. “Parece terrivelmente impraticável. ‘Thornbrak, você poderia me passar essa jarra de sangue humano? Oh, espere. Esqueci. Você não tem polegares opositores. Ou dedos.’”



    Eles deixaram a conversa morrer por fim e Miss Highwater voltou a escrever. Uma rápida olhada mostrou que ela estava anotando o que descobriram na aldeia.



    Geists criados a partir das almas das pessoas. Retornaram para atacar seus amigos e familiares, portanto já se foram para bem longe.



    Traidor provavelmente envolvido, matando o padre que estava protegendo a igreja. Verificar se algum corpo está faltando na aldeia?



    O Pântano parece estar envolvido. Qual é a verdade?



    Alguém, provavelmente o traidor, estava na aldeia fisicamente mais cedo hoje. Tacenda ouviu passos. Por que eles não a atacaram?



    Tacenda estava determinada a não quebrar o silêncio com outra pergunta estúpida. Em vez disso, ela puxou a cortina da janela e observou a floresta escura lá fora.



    Um erudito pomposo de Thraben veio uma vez desenhar mapas dos Acessos. Ele tentou nomear as florestas mais próximas deles “o Bosque Verlasen”, mas o forçaram a abandonar a ideia. Os bosques não pertenciam a eles.



    Ninguém poderia se apropriar destes bosques.



    “Os soldados não deveriam ter matado Brerig”, disse Tacenda suavemente. Talvez nós humanos tenhamos sido caçados por tanto tempo, que aprendemos a sobreviver às custas da lembrança do que significa ser humano. Ser justo e bom.”



    Davriel bufou. “’Ser bom’ é simplesmente um método utilizado para sinalizar que alguém está disposto a conformar-se às normas sociais. Estar de acordo com a multidão. Olhe para qualquer livro de história e você descobrirá que o limite para uma conformação aceitável varia muito, dependendo do grupo.”



    “Você mesmo disse que roubar talentos de pessoas boas é mais difícil para você”, disse Tacenda. “Então a bondade deve existir.”



    “Eu disse que é mais doloroso para mim usar talentos extraídos de pessoas que se consideram puras. O que é uma coisa totalmente diferente.”



    “Eu conhecia pessoas boas”, disse Tacenda suavemente. “Na aldeia.”



    “A mesma aldeia que trancava você do lado de fora à noite?” Davriel disse. “Deixando uma criança para enfrentar os horrores da floresta sozinha?”



    “Era o meu destino”, disse Tacenda. “Fui escolhida pelo Pântano e tenho que seguir meu destino.”



    “Destino?” disse Davriel. “Você precisa aprender a abandonar esse absurdo, criança. Seu povo coloca muita coisa em jogo no destino — você deve escolher seu próprio caminho, fazer seu próprio destino. Levante-se e aproveite a vida!”



    “Levante-se?” Tacenda disse. “Aproveitar a vida? Como você faz, sentado sozinho em sua mansão? Aproveitando o cochilo ocasional?”



    Miss Highwater reprimiu uma risada, ganhando um olhar penetrante de Davriel. Ele olhou de volta para Tacenda. “Às vezes, a escolha mais ‘honrosa’ que um homem pode fazer é não fazer nada.”



    “Isso é contraditório”, disse Tacenda. “Você quer justificar ser impassível enquanto pessoas melhores morrem. Você quer fingir que ninguém é bom para que você não se sinta culpado por ignorar sua dor. Você…”



    “Isso é o suficiente, criança,  disse ele.



    Ela virou-se para o outro lado, olhando pela janela mais uma vez. Mas ele estava errado. Ela conhecia pessoas que eram boas. Seus pais e seu amor simples em fazer roupas. Willia, que estava determinada a aprender como afastar a escuridão para que ela nunca amedrontasse ninguém novamente.



    De um jeito ou de outro, esta noite Tacenda veria Willia — e os outros — restaurados.



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 8

    Children of the Nameless - Capítulo 8

    por MypCards em 07/02/2019 - 168 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 8: Tacenda





    Tacenda tropeçou para trás quando Crunchgnar rugiu e fechou a porta com força. O alto e espesso portal de carvalho chacoalhou quando Crunchgnar, com a ajuda de Yledris, enfiou a barra no lugar a ela destinado. Crunchgnar então tirou um escudo redondo de suas costas e sacou uma espada cruel de sua bainha. Yledris se posicionou ao seu lado, segurando a lança diante dela, alongando as asas e depois acomodando-as em uma postura relaxada.



    Miss Highwater espiou por uma pequena janela ao lado da porta — o vidro era espesso e a abertura estreita. “Isso é novo,” disse ela. “Nunca estive deste lado em um ataque a uma igreja antes.”



    Davriel juntou-se a ela e Tacenda se aproximou, mas a janela era muito estreita para que ela tivesse uma boa visão.



    “Lorde Greystone!” gritou uma voz de mulher do lado de fora.  “Nem tente se esconder! Nosso batedor viu você inspecionando seu trabalho sujo nesta pobre cidade. A hora do seu acerto de contas chegou! Você não irá mais aterrorizar os Acessos! Saia e submeta-se ao julgamento em nome do Arcanjo Sigarda e sua hoste da purificação!”



    “Greystone,” disse Miss Highwater. “Esse é o nome que você dá quando…”



    “…Eu visito a prioresa,” disse Davriel com a expressão escurecida. “Está ficando cada vez mais óbvio que ela e eu teremos que ter uma conversa. Você consegue obter uma contagem de quantos estão lá fora?”



    “Há pelo menos uma dúzia,” disse Miss Highwater. “Não deveremos ter problemas lutando contra eles a não ser que tenham traduzido algumas magias de peso.”



    “Lutando contra eles?” disse Tacenda, estendendo-se na ponta dos pés, tentando ver por sobre o ombro de Miss Highwater o que acontecia lá fora. “Não há necessidade de lutar, apenas deixe-me falar com eles. Depois que eu explicar que você não atacou minha aldeia, eles provavelmente nos ajudarão a salvar as pessoas.”



    Davriel e Miss Highwater trocaram olhares.



    “Ela é adorável,” disse Miss Highwater. “Será divertido vê-la se desiludir.”



    Tacenda enrubesceu. “Não sou ingênua. Mas aquelas pessoas lá fora são boas. Heróis. Certamente poderemos conversar com eles.”



    “Não há tal coisa como pessoas boas,” disse Davriel. “Apenas incentivos e respostas.” Uma luz vermelha brilhante atravessou a janela. “Ah! Eles trouxeram um piromante. Isso pode revelar-se conveniente. Proteja-se.”



    Ele se voltou e correu até os bancos próximos, pulando sobre eles com uma agilidade chocante. Miss Highwater fez o mesmo e Tacenda ficou boquiaberta por um momento, depois correu.



    A porta explodiu.



    A onda de choque fez Tacenda bater contra um banco de madeira. Uma borrifada de farpas em chamas flutuou pela sala, deixando um rastro de fumaça. Crunchgnar suportou sem vacilar, com o escudo bloqueando parte dos destroços.



    Soldados carregando o novo símbolo da igreja — com formato de uma cabeça de graça — inundaram a câmara. Eles trajavam austeros tabardos brancos, presos na cintura com grossas fivelas. Crunchgnar e Yledris os enfrentaram de imediato e, embora em menor número, os demônios assomavam sobre os humanos menores.



    Davriel limpou algumas lascas de suas roupas, depois se acomodou em uma cadeira ao lado da fonte — uma com vista para a luta — e colocou os pés para cima.



    Tacenda correu até ele, com os ouvidos zunindo pela explosão. “Você não vai fazer nada? Não pode paralisá-los como fez comigo?”



    “Aquele feitiço desapareceu,” disse ele. “Terei que roubar algo novo antes que eu possa intervir nisso.”



    Uma batida soou do lado de fora quando o outro demônio voador, Gutmorn, aterrissou e atacou os soldados por trás, fazendo com que aqueles mais próximos da porta se virassem, gritando. A maioria dos soldados estava vestida com uniformes semelhantes, embora seu líder fosse obviamente aquela mulher com o longo cabelo preto e com forro prateado em seu casaco. Ela moveu-se para o lado dos demônios, brandindo uma espada longa e procurando por uma abertura.



    Ao lado dela, um homem trajando vestes de couro carregava um grande cilindro em suas costas, brilhando com uma luz vermelha profunda. Tacenda nunca havia visto algo como aquilo antes, mas tubos estendiam-se a partir dele ao longo de seus braços. O piromante?



    Eu tenho que fazer algo para parar isso, pensou Tacenda enquanto Crunchgnar varreu um soldado de lado com seu escudo, depois golpeou uma outra, matando a pobre a mulher. No entanto, o demônio recebeu um golpe de lança no flanco e gritou em agonia.



    “Parem!” gritou Tacenda, embora sua voz estivesse perdida no tumulto. “Parem! Deixem-me explicar!”



    A mulher de cabelo comprido olhou para ela, depois apontou. “Lidem com a serva dele.”



    Um soldado correu em direção a Tacenda. Ela deu alguns passos para trás, ansiosa. “Ouça-me,” disse ela. “Lorde Davriel não fez isso. Estamos tentando descobrir o que aconteceu. Apenas ouça…”



    O soldado golpeou Tacenda com sua espada, que se afastou, subindo em um banco. “Por favor,” disse ela. “Apenas ouça.”



    O homem arrodeou os bancos. Perto dali, um corpo passou rolando, arremessado por um dos demônios. O edifício inteiro da igreja era uma cacofonia de demônios grunhindo, homens gritando e metal tinindo. Eles lutavam sem tomar nota dos corpos dos aldeões no chão, a não ser ao tropeçar neles ocasionalmente. Era uma loucura!



    O soldado atacou Tacenda novamente, mas ela ficou entre os bancos, mais rápida do que ele. Ele parou no corredor, então estendeu a mão para o lado, captando luz ali. Tacenda ficou paralisada, preocupada. Magia?



    O homem gritou de repente, enquanto a luz em sua mão desaparecia. Ele caiu de joelhos, segurando a cabeça em agonia.



    “Ah!” disse Davriel. “Curioso.”



    Tacenda olhou para ele, notando a fumaça vermelha desaparecendo de seus olhos. Ela olho de volta para o soldado. Davriel havia… roubado um feitiço ou talento? Da mente do homem?



    Ela recuou, parando perto do assento de Davriel.



    “O que você conseguiu?” perguntou Miss Highwater.



    “Um feitiço de invocação,” disse ele. “Não é terrivelmente poderoso, mas é flexível. Traz a arma tocada mais recentemente à mão. Suspeito que o soldado estava invocando uma besta para lidar com Miss Verlasen.”



    Outra rodada de gritos veio dos soldados, que recuaram quando Yledris levantou voo, golpeando com sua lança. Três homens com bestas, no entanto, lançaram uma salva de setas com estranhas correntes, designadas a danificar asas. Isso derrubou Yledris de volta ao chão, onde os homens vieram até suas longas pernas de cabra com machados.



    Davriel estreitou os olhos, depois apontou para um dos homens, que tropeçou e gritou, segurando a cabeça. Gutmorn forçou sua entrada no salão e atravessou o pescoço do homem com a lança.



    Tacenda virou-se de lado, estremecendo. “Não deveríamos ter que fazer isso,” disse ela. “Eles estão do nosso lado.”



    “Eles viram demônios, criança,” disse Davriel. “Eles não irão conversar ou ouvir agora.”



    “Eles são boas pessoas .” Quando ele começou a responder, ela o interrompeu. “Tal coisa existe. Eu conheci muitas pessoas boas e humildes.”



    “Produtos de condicionamento social e incentivos morais,” disse Davriel distraidamente. Ele apontou novamente e outro homem gritou.



    “Algo de bom?” perguntou Miss Highwater.



    “Não,” disse Davriel. “As mentes destes são tão úteis quanto colheres tortas.” Davriel olhou para o homem com o maquinário de fogo, então apontou diretamente para ele. Nada pareceu acontecer, entretanto, e Davriel grunhiu.



    “O que foi?” perguntou Miss Highwater.



    “Ele tem proteções em sua mente,” disse Davriel, franzindo a testa. “Proteções que parecem especificamente destinadas a me bloquear.”



    Crunchgnar rugiu quando recebeu um golpe nas costas e sangue escuro escorreu por sua armadura de couro. A maioria dos soldados ainda lutava neste espaço aberto nos fundos dos salão, entre as portas e os bancos, onde os três demônios lutavam com crescente desespero enquanto eram cercados.



    “Eles estão sendo feridos,” disse Tacenda. “Os soldados estão os matando!”



    “Sim, é literalmente por isso que eu os mantenho por perto,” disse Davriel. Ele se levantou e apontou mais uma vez para o homem com o equipamento de piromancia, mas novamente nada parecia acontecer.



    “Você pode mesmo roubar algo dele?” perguntou Tacenda. “Ele está usando maquinário.”



    “Ele está aumentando com flameogeist, mas ele terá poder inato para controlar e talvez acender o fogo”, disse Davriel. “Minha melhor chance será no momento da ignição…”



    “Dav,” disse Miss Highwater. “Lá atrás, perto das portas. Você vê aquele homem barbado?”



    Tacenda forçou a visão, notando um homem que havia entrado na igreja por trás da luta e depois colocado um tomo enorme no chão diante dele. “Aquele ali chama-se Gutmorn,” gritou o velho, com a voz espalhando-se pela contenda. “O alado com a perna ferida. Ele é um demônio das Profundezas de Devrik! Devorador de almas, algoz dos sete príncipes!”



    “Eles trouxeram um diabolista da igreja,” disse Davriel. “Que fofo.”



    “Inferno,” disse Miss Highwater. “Alguém o mate. Crunchgnar! Apunhale aquele barbudo!”



    Mas Crunchgnar estava fraco. A exata metade dos soldados havia perecido, mas ele tinha sido ferido seriamente. Os outros demônios se colocaram de costas um para o outro, atacando com lanças, mas eles também estavam ficando lentos. Sangravam sangue escuro no chão.



    “Aquela é Yledris Bloodslave!” gritou o velho. “O outro demônio alado, também das Profundezas de Devrik. Eles não são imunes ao fogo, Grart! O tomo assegura!“



    Tantas mortes. Tanta dor. Mais uma vez pareceu dominá-la. Incerta sobre o que fazer, Tacenda deu um passo adiante e se viu cantarolando. Talvez… Talvez ajudasse? Cantar?



    “Você só vai fazer com que eles morram se fizer isso,” disse Davriel. “Sua proteção irá atordoar os demônios e deixar que os soldados acabem com eles. Demônios não possuem alma; destrua-os e eles se vão para sempre.”



    Tacenda hesitou. Certamente havia uma forma de parar isso. Certamente havia uma forma para fazê-los…



    Mãos a agarram pelo lado e a empurraram para o chão. Ela engasgou — estava tão focada nos demônios que não havia visto a mulher com cabelo comprido, que tinha se esgueirado ao longo dos bancos. Atordoada, Tacenda se virou quando a mulher impulsionou as mãos na direção de Davriel. Seus olhos brilhavam com uma poderosa luz branca e azul formando à sua frente.



    Davriel empurrou Miss Highwater para o lado. Uma corrente de luz explodiu do caçador de demônios e passou por ele como uma coluna de pureza, levemente tingida de azul.



    “E agora você finalmente deverá descansar, monstro imortal!” gritou a mulher.



    A luz se apagou, deixando Davriel de pé ali com sua camisa macia, gravata roxa e capa longa. Ele piscou diversas vezes, com os olhos lacrimejando. “Bem, isso foi desagradável.”



    A mulher ficou boquiaberta, abaixando as mãos.



    “Infelizmente para você,” disse ela, “Eu sou bem humano.”



    “Lá!” Disse o velho com o livro, apontando para Miss Highwater, que havia tropeçado e caído quando Davriel a empurrou para fora do caminho. “Não ignore o demônio que assumiu a forma de uma formosa mulher! Aquela é Voluptara, Devoradora de Homens! Conhecida com um dos mais perigosos e astutos demônios da Vastidão das Chamas de Nexrix!”



    Tacenda piscou, sentando-se. “Vol… Voluptara?”



    “Oh, inferno”, disse a Miss Highwater. “Ele encontrou.”



    Um calor estrondoso surgiu de trás de Tacenda e ela se virou, lutando para ficar de pé. O homem de vermelho — finalmente na posição correta para não atingir nenhum de seus amigos — acendera-se com fogo. Ele soltou uma gargalhada, lançando uma labareda de suas mãos entubadas.



    Ela engolfou Yledris completamente. Um jato de inferno terrível e furioso que, quando finalmente desapareceu, deixou apenas ossos e algumas fivelas. Gutmorn  gritou em agonia, com um som chocantemente humano, enquanto os soldados restantes comemoravam.



    A líder deles virou-se para encarar Davriel novamente e levantou suas mãos para invocar sua luz, como se tentasse provar a si mesma que iria funcionar dessa vez.



    “Creio”, disse Davriel, “que seja o suficiente.”



    Ele apontou, como se apunhalasse com os dedos na direção da mulher líder. Sua luz apagou-se e ela gritou, caindo de joelhos. Mais uma vez, Tacenda observou que o próprio Davriel estremecia de dor ao roubar o poder da mulher, como se compartilhasse sua agonia.



    Davriel lidou com a dor muito melhor do que a mulher. Ele a chutou para o lado e Miss Highwater saltou para a frente, sacando uma faca de seu cinto. Ela lidou com a infeliz mulher e Davriel tomou o rumo na direção dos demônios.



    Outro soldado veio atrás de Davriel, mas ele estalou os dedos — fumaça vermelha nublava seus olhos —  e sua bengala apareceu em sua mão.



    O feitiço de invocação, pensou Tacenda, recuando. Aquele que lhe traz uma arma. Ele invocou a bengala de onde ele a havia deixado ao lado do altar. Com um movimento suave, Davriel retirou a bainha, revelando uma lâmina longa e delgada por dentro.



    O solado atacou Davriel, que não se esquivou, mas em vez disso se lançou para frente em uma posição de duelo, conduzindo sua espada diretamente através do pescoço do soldado. O homem conseguiu acertar Davriel, apunhalando-o no flanco, mas Davriel não pareceu se preocupar. Ele deslizou a espada do pescoço do homem quando ele cambaleou e morreu.



    O piromante rugiu, virando a arma para Davriel. Mas o lorde parecia estar esperando por isso, pois quando o homem se concentrava em acender suas chamas, Davriel apunhalou com os dedos na direção do homem.



    O fogo extinguiu-se e o homem cambaleou como se tivesse levado um soco. Então ele pareceu confuso enquanto inspecionava seus tubos. Um segundo depois, uma explosão de chamas da mão de Davriel o vaporizou, juntamente com uma extensa fileira de bancos atrás.



    Os três soldados restantes haviam visto o suficiente. Eles saíram correndo pela porta, deixando Crunchgnar e Gutmorn sangrando entre os cadáveres. Os demônios cederam sob o peso de suas feridas, suspirando. Restara apenas o velho com seu tomo, que ainda estava ajoelhado no chão, virando páginas freneticamente. Ele reduziu a velocidade quando olhou para cima e encontrou Davriel de pé acima dele.



    A igreja havia ficado quieta novamente. Silenciosa, exceto pelo crepitar das chamas dos bancos queimados. Davriel se aproximou do velho, depois esfregou os dedos, fazendo uma pequena chama se erguer entre eles.



    Tacenda engasgou, depois atravessou a sala e agarrou Davriel pelo braço. “Não”, disse ela. “Apenas deixe-o ir.”



    Davriel não respondeu. Seus olhos nublados em vermelho, sem pupilas, ele mesmo parecendo um demônio em pé ali.



    “O que você ganha matando ele?” perguntou Tacenda.



    “Suas palavras me custaram um servo valioso,” disse Davriel. “Estou simplesmente… respondendo aos incentivos. Vejamos se você tem algum talento útil, velho.”



    Ele apunhalou com os dedos para a frente e o velho gritou, segurando a cabeça. Dessa vez, Davriel não fez mais que recuar um pouco. Mas ele também prolongou o momento, como se continuasse a invadir a mente do homem, levando a dor cada vez mais fundo. O velho se contorceu em agonia.



    “Por favor,” disse Tacenda. “Por favor.”



    Davriel olhou para ela, e assim permaneceu por um momento, com seus olhos nublando em um profundo cinza-escuro. Depois estalou os dedos.



    O velho desabou, gemendo, mas sua dor imediata parecia ter terminado.



    Davriel pegou o velho tomo e o entregou a Miss Highwater, que guardava sua faca. O velho conseguiu ficar de pé e Davriel não fez nada para impedi-lo de sair correndo pela porta.



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 7

    Children of the Nameless - Capítulo 7

    por MypCards em 31/01/2019 - 205 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 7: Tacenda



    Tacenda parou na porta da igreja quando Davriel e os demônios se espalharam para investigar.



    Ela conhecia os sons deste lugar intimamente. A maneira como as vozes ecoavam nos beirais. A maneira como a pequena fonte tilintava com o som de água de nascente. A prioresa instalou aquele símbolo de pureza pouco antes do nascimento de Tacenda — uma tentativa de representar águas limpas em contraste com a impureza do Pântano.



    Tacenda tinha vindo aqui com Willia para atender aos serviços, ainda que ela mesma nunca tenha feito o juramento do Sono Abençoado. A igreja se preocupava com esse sinal de devoção verdadeira mais do que com todos os outros: a promessa de ter o corpo de alguém levado ao priorado para o enterro, em vez de aceitar o sepultamento no Pântano.



    Tacenda seguiu até o estrado frontal e o altar, que tinha furos para velas e dois postes idênticos nas laterais. Em outros tempos, eles portavam o símbolo de Avacyn, o símbolo geral da igreja. Tacenda se lembrou de ter ajoelhado aqui quando criança, com uma mão em cada um dos postes. Sentindo o metal frio, os símbolos de bronze fundido, enquanto os sacerdotes rezavam por cima dela numa tentativa de curá-la de seu sofrimento.



    Os símbolos de Avacyn haviam sido removidos por ordem da prioresa. Aparentemente, todos em Thraben adoravam um novo anjo agora. Mas será realmente possível mudar tão facilmente de fé? Trocá-la como quem muda de camisa? O que tornou esse novo culto melhor que o anterior? E por quanto tempo o antigo esteve comprometido?



    Willia não foi a única que passara a usar o símbolo do Anjo Sem Nome, uma figura misteriosa que garantia aos Acessos a dádiva da Pedra Seelen, uma relíquia do priorado.



    Crunchgnar bisbilhotou o interior do edifício com movimentos exagerados, como se estivesse se esforçando para provar o quão despreocupado estava por se encontrar dentro de uma igreja. Miss Highwater permaneceu próxima a Davriel, que inspecionava a barra destinava a travar a porta. Então, ele voltou sua atenção para as janelas, abrindo-as e olhando para as molduras.



    Tacenda caminhou até os corpos, que repousavam na sombra. A lanterna solitária de Crunchgnar deixou a ampla câmara com um aspecto sombrio. Cerca de uma dúzia de pessoas havia perecido aqui, o equivalente a duas famílias. Eram os fiéis da aldeia, um punhado comparado àqueles que permaneceram em suas casas confiando na Canção de Proteção do Pântano.



    Junto com eles estavam os corpos dos sacerdotes. Haviam três: a velha Gurdenvala era a sacerdotisa de sua aldeia, uma mulher que Willia sempre chamara de severa. Ela havia perecido no altar, erguendo um símbolo de Avacyn, um ícone agora proibido. Quando o perigo chegou, ela se voltou para a sua fé original.



    Os outros dois sacerdotes vieram do priorado para tentar ajudar o povo nesta emergência. Tacenda também não os conhecia, ainda que o mais novo fosse Ashwin, o sacerdote que certa vez fizera um desenho de Willia. Seu corpo estava encolhido contra uma parede, com os olhos arregalados. Tacenda ajoelhou-se e apanhou do chão ao lado dele um caderno de desenho, encontrando em seu interior desenhos de pessoas. Sacerdotes, aldeões e vários da própria prioresa.



    O último desenho foi um rápido esboço da igreja a partir desta perspectiva próxima à parede: os bancos em fila, as portas frontais escancaradas e a lua mais além. De pé na porta, desenhados como rápidos esboços inacabados, estavam figuras transparentes com rostos retorcidos. Imagens medonhas que a lembravam distintamente do que ela havia visto mais cedo na mansão de Davriel, quando o espírito do cátaro se transformou em um geist pavoroso.



    Ela estremeceu com o desenho assustador, grosseiro, mas de alguma forma convincente. Ela conseguia imaginar o sacerdote ali, encolhido no canto, desenhando furiosamente enquanto as bênçãos protetoras da igreja e as preces falhavam. Ela levou o caderno de desenho até à frente da câmara onde Davriel e Miss Highwater estavam novamente inspecionando a porta da frente.



    “O que é isso?” disse Davriel, caminhando até ela e tomando o caderno de suas mãos. “Muito escuro. Crunchgnar, que tal continuar acendendo as lamparinas aqui? Mal consigo ver o quão feio você é.”



    Crunchgnar resmungou, mas começou a fazê-lo. Davriel virou o caderno de desenho para a luz e depois assentiu. “Faz sentido.”



    “O que faz sentido?” disse Tacenda.



    “Miss Highwater,” disse Davriel, devolvendo o caderno para Tacenda, “o que você acha desta situação?”



    “As proteções da igreja resistiram, ao menos, por um breve momento,” disse Miss Highwater, apontando. “Arranhões nas portas e janelas, que parecem distintamente com as marcas feitas por geists tentando entrar por elas. Eles não precisariam fazer isso se pudessem simplesmente atravessar as paredes, como fizeram com as outras casas.”



    “Excelente,” disse Davriel. “Miss Verlasen, esta é uma evidência convincente.”



    “Evidência?” perguntou Tacenda. “De quê?”



    “Esses Sussurradores não conseguiram entrar na igreja, pelo menos não a princípio. Os poderes dos sacerdotes foramsuficientes para detê-los.”



    Tacenda olhou para a imagem dos espíritos na porta da igreja. “Você havia dito que era possível que os geists não tivessem sido afetados pela minha música porque eram muito poderosos. Mas se as proteções da Igreja os detiveram…”



    “Eu duvido que algo poderoso o suficiente para ignorar completamente o Pântano seria, por sua vez, detido pelas bênçãos protetoras destes sacerdotes,” disse Davriel. “Dito isso, temos provas de que a autoridade do priorado consegue afastar a influência do Pântano. A reivindicação que é capaz de fazer sobre as almas enterradas aqui, por exemplo.”



    “Como os Sussurradores não foram afetados por sua canção, mas foram detidos pelos sacerdotes, acho cada vez mais provável que eles sejam do Pântano. Na verdade, os espíritos que você ouviu sussurrando provavelmente eram pessoas de sua própria aldeia.



    Ele atravessou a câmara com a bengala estalando no chão de ladrilhos da igreja.



    Tacenda apressou-se atrás dele. “Quê?” perguntou ela, bruscamente. “O que você quer dizer?”



    “Os ataques começaram devagar,” disse Davriel. “No início, apenas duas pessoas, seus pais, em uma jornada ao Pântano. Depois, mais algumas, aumentando em frequência, até o ataque final na aldeia. Por que tantos dias entre os primeiros ataques, depois um ataque crescente e esmagador no final?



    “Suspeito que seja porque esses ‘Sussurradores’ são os próprios espíritos que estamos procurando, as almas desencarnadas de seus aldeões. Os espíritos podem perpetuar o roubo — uma vez que alguns geists tenham sido criados, eles poderiam ter sido enviados para arrebanhar outros. O efeito multiplicativo poderia aumentar seus números rapidamente, ampliando suas fileiras para ataques maiores e mais ousados.”



    Tacenda ficou paralisada, horrorizada pela ideia, mas ela fazia uma espécie distorcida de sentido. O rosto da sua irmã… ele não estava assustado quando ela foi levada. Poderia ser que ela, de alguma forma, reconheceu os geists que vieram atrás dela? Poderiam ter sido… seus pais?



    “Miss Highwater,” disse Davriel. “Várias perguntas permanecem. Alguém parece estar ajudando o Pântano, como evidenciado pelos passos que ela ouviu. Isso nos leva à resposta de como a igreja foi violada. As bênçãos protetoras estavam, afinal de contas, resistindo.”



    “Vampiros?” conjeturou Miss Highwater.



    “Um excelente palpite.”



    “Mas errado?” perguntou ela.



    Davriel sorriu.



    “Espere,” disse Tacenda. “O que é isso sobre vampiros?”



    “A porta foi aberta por dentro,” disse Miss Highwater, apontando. “A barra foi removida voluntariamente, sem sinais de uma entrada forçada. Seu desenho prova que os espíritos entraram através da porta. Então, alguém os deixou entrar, por isso que pensei em vampiros. Uma criatura que possa controlar a mente de alguém do lado de dentro e o fazer abrir as portas.”



    “E apenas abrir as portas permitiria que espíritos entrassem em uma igreja protegida?” perguntou Davriel.



    “Não tenho certeza.” Miss Highwater franziu a testa.



    “Além disso, poderia alguém dos Acessos ser submetido ao controle da mente?” perguntou Davriel. “Você já tentou entrar na mente de algum deles? Digo-lhe que não é uma experiência agradável. O toque do Pântano é bastante poderoso.”



    “Então…” perguntou Tacenda, “O que aconteceu?”



    “Verifique os corpos dos sacerdotes,” disse Davriel, acenando na direção dos cadáveres.



    “Eu acabei de fazer isso,” disse Tacenda.



    “Então faça um trabalho melhor desta vez, Miss Verlasen.”



    Ela franziu a testa, mas caminhou até o cadáver do jovem sacerdote, ajoelhando-se ao seu lado. Ela o olhou, depois — tímida de início — virou o corpo dele. Ele não está realmente morto, disse a si mesma. Ele está apenas dormindo. Eu vou salvá-lo, assim como salvarei Willia.



    Seu corpo não parecia diferente de nenhum dos outros. Ela se moveu até o sacerdote mais velho do priorado, que estava deitado de bruços, com a cabeça virada para o lado. Ele tinha a mesma expressão congelada e vítrea que todos os outros. Tacenda o rolou para o lado.



    E encontrou uma ferida de punhal em seu peito.



    Ela gritou, soltando-o, mas Miss Highwater pegou o corpo e virou-o totalmente. Ele foi morto com uma lâmina. Como Tacenda não percebeu isso?



    Quase não há sangue no chão, pensou ela. A frente de suas vestes estava manchada, mas não havia um acúmulo de sangue embaixo dele.



    “Seu corpo congelou como os outros, assim que sua alma foi tomada,” disse Miss Highwater. “Droga, Dav, como você sabia?”



    O Homem da Mansão passou por eles, parecendo satisfeito consigo mesmo enquanto começou a vasculhar o altar.



    “O que isso significa?” perguntou Tacenda.



    “Alguém o apunhalou, o que interrompeu sua oração,” disse Miss Highwater. “Então esse alguém abriu as portas e deixou os Sussurradores entrarem. Havia um traidor na aldeia.”



    “Sim,” disse Davriel. “Você sabe exatamente quem estava neste salão no momento em que eles barraram aquelas portas?”



    “Não,” disse Tacenda. “Foi um momento confuso e eu ainda estava cega. Minha visão só voltou logo após o anoitecer.”



    “Talvez seja interessante que alguém investigue a cidade em todo caso,” disse ele. “De forma que possamos ver se alguém está desaparecido. Uma tarefa que talvez possamos designar aos sacerdotes do priorado, pela manhã. A menos que… Miss Tacenda, sua irmã está morta, de forma que não podemos interrogá-la. Mas você disse que um sacerdote estava entre aqueles que me identificaram. Você sabe qual sacerdote?”



    “Edwin,” disse Tacenda. “Um homem mais jovem. Ele topou com você… ou com alguém vestido como você, suponho… atacando alguns mercadores locais. Aquela foi a primeira vez que alguém relatou o envolvimento de geists…”



    Ela parou. Aqueles foram os primeiros ataques após a morte de seus pais e Edwin havia relatado ter visto dois geists. Parecia óbvio, depois que Davriel havia apontado. Aqueles dois tinham sido… tinham sido seus pais.



    O horror daquilo ameaçou dominá-la de repente. Ela caiu no chão ao lado do sacerdote apunhalado, cercada por cadáveres. Seus pais, sua irmã, o povo da aldeia — eles foram mortos, corrompidos, forçados a retornar e a arrancar as almas daqueles que amavam. E Davriel falou que o Pântano estava envolvido? Que ele queria isso por alguma razão?



    Tacenda havia adotado uma espécie de foco para se manter em movimento — primeiro, focou estritamente em atacar o Homem. Depois, focou em tentar salvar sua irmã. Mas se ela realmente parasse para pensar em como tudo isso era terrível…



    Ela era a última protetora da aldeia. Mas, no final das contas, ela mal havia alcançado a adolescência e não tinha ideia do que estava fazendo. O que ela faria se o próprio Pântano estivesse contra ela? Se a dádiva dele era inútil, o que ela era?



    Ela abraçou a si mesma e desejou pela primeira vez ter alguém para cantar para ela, como ela cantava para Willia durante a noite. Ela desejou poder ouvir a Canção da Alegria, aquela que, a cada momento que passava, ela parecia estar esquecendo…



    “O sacerdote, criança,” disse Davriel com uma voz estranhamente suave. “O que você sabe sobre ele?”



    “Não… não muita coisa,” disse Tacenda, agitando-se. “Ele é natural dos Acessos, mas foi instruído em Thraben. Você certamente não acha que ele está envolvido nisto, acha?”



    “Eles podem ter aberto as portas da igreja para um sacerdote,” disse Davriel.



    “Isso explicaria muita coisa,” disse Miss Highwater. “Alguém parece ter passado por essas portas e depois apunhalado o sacerdote enquanto ele orava, permitindo que os geists entrassem.”



    “Não estou fazendo nenhum juízo absoluto ainda,” disse Davriel, ainda vasculhando atrás do altar. “Não tenho nenhuma teoria concreta sobre por que um sacerdote trabalharia em conjunto com o Pântano. Sequer posso dizer por que o Pântano mataria seus próprios adoradores, se é que de fato isso aconteceu.”



    “Então… o que faremos a seguir?” perguntou Tacenda, piscando e tentando recuperar o foco. Ela não podia pensar muito sobre isso, caso contrário não aguentaria.



    Eles não estavam mortos. Willia não estava morta. Concentre-se nisso.



    “Precisamos de magia que possa dar conta dos geists,” disse Davriel.  “Preferiria um feitiço para rastreá-los. Às vezes, se você puder isolar um geist e então confrontá-lo com algo bem familiar de quando ele era vivo — uma ferramenta de trabalho, talvez —  ele se recuperará o suficiente par responder a algumas perguntas. Talvez queiramos também alguma magia que estabilize e ancore suas formas, forçando-os a permanecer corpóreos para que possam ser resistidos fisicamente.”



    “Você possui esse tipo de magia?” perguntou ela.



    “Não,” disse Davriel. “Tecnicamente, tenho poucos talentos para chamar de meus.”



    “Mas…”



    “Posso pegar emprestado de outros, Miss Verlassen,” disse Davriel. “Eu sou um simples mendigo, um servo de todas as pessoas.”



    Crunchgnar bufou enquanto acendia outra lamparina. A câmara continuava com pouca claridade.



    “Muitas pessoas,” continuou Davriel, “têm algum tipo de talento menor, um pendor para a magia, uma aura de fé ou mesmo alguma prática de feitiçaria. Eles verdadeiramente não possuem inspiração para fazer uso dessas bênçãos. Eu lhes dou uma ajudinha.”



    “Ele faz isso,” observou Miss Highwater, “entrando em suas mentes e arrancando à força suas habilidades mágicas, que ele utiliza, quando preciso.”



    “Que horrível!” disse Tacenda.



    “Não me entenda mal,” disse Davriel. “Dói em mim quase tanto quanto dói neles, especialmente se a magia que eu roubo é de alguém particularmente hipócrita. E eles recuperam os talentos logo após a minha intervenção, então qual é o mal? Aha!



    Ele se levantou de repente, erguendo algo.



    “Quê?” perguntou Tacenda. “Uma pista?”



    “Melhor,” disse ele, virando o pequeno pote. “A sacerdotista estava armazenando um pouco de chá de pó de salgueiro.” Ele desenroscou a tampa e seu rosto desabou.



    “Vazio?” perguntou Tacenda.



    “Vocês, camponeses, foram excepcionalmente preguiçosos nas últimas semanas,” disse ele. “Sim, sim. Sendo mortos por geists e tudo o mais. Mas fracamente…”



    Um baque soou do lado de fora e uma sombra obscureceu a frente da igreja. Um dos dois demônios voadores — Tacenda não conseguia distinguir um do outro — mergulhou na câmara, segurando uma lança e falando com uma voz rouca. “Mestre. Cavaleiros portando lanternas se aproximaram da cidade.”



    “Quê?” disse Davriel. “A essa hora da noite?”



    “Eles atiraram em nós quando nos viram,” disse o demônio, segurando uma seta de besta. “Gutmorn foi atingido na perna. Ele aterrissou em cima de uma casa próxima para se recuperar, mas os cavaleiros estão vindo diretamente nesta direção. Eles se parecem com caçadores de demônios.”



    Davriel soltou um suspiro alto e deliberado e lançou um olhar para Tacenda.



    “Não é possível que você esteja me culpando por isso”, disse ela.



    “Culparei quem eu quiser,” retrucou ele. “Yledris, vá buscar Brerig e a carruagem. Veja se ele consegue chegar aqui antes…



    Uma seta de besta bateu contra a porta de madeira ao lado de Yledris e gritos subiram nas redondezas.



    “Ou,” disse Davriel, “talvez apenas barrar a porta.”



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 6

    Children of the Nameless - Capítulo 6

    por MypCards em 25/01/2019 - 186 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 6: Davriel



    Davriel sentiu que podia ouvir o Pântano, apesar da distância, enquanto sua carruagem descia pela estrada florestal coberta por vegetação.



    Ele havia vindo para este plano especificamente porque muitos outros o evitavam. A terra tinha algo de… sinistro. Uma sensação de pavor que corria mais fundo que o duro outono e as árvores vigilantes. Era perturbador até para os mais insensíveis visitarem um lugar onde seres humanos, com amores, vidas, famílias, eram muitas vezes apenas… comida.



    O que as outras terras sussurravam, esta gritava: sentimentos e aspirações eram imateriais. Em última instância, seus sonhos eram menos importantes que o seu dever de reproduzir e depois tornar-se uma refeição.



    A carruagem deu uma chacoalhada quando passou por sobre um dos muitos buracos da estrada. Miss Highwater xingou baixinho, depois rabiscou uma linha através de algo que estava escrevendo em seu livro-razão. A garota, Tacenda, sentou-se próximo a ela, segurando firme sua viola. Davriel fingira estar relutante em devolvê-la; na verdade, ele não tinha ideia do que faria com tal coisa. Ele preferia o silêncio.



    A estrada chegou a uma elevação e, do lado de fora, o luar cobria as copas das árvores. Um bando de pássaros — muito distante para se distinguir a espécie — bateu em revoada quando algo os assustou. Eles quase pareciam rastrear algo através do luar, como peixes em uma corrente. Como se  a luz fosse, de alguma maneira, muito espessa.



    Está lá fora, pensou Davriel. Aquela direção. O Pântano amaldiçoado. Ele alegava ser o senhor dos Acessos, mas os aldeões faziam muito pouco para demonstrar lealdade, até mesmo à religião. A única coisa que eles realmente pareciam respeitar era aquele lodaçal. E o que quer vivesse nas profundezas dele.



    A Entidade agitou-se dentro dele.



    Nenhuma palavra para mim? Pensou Davriel. Normalmente, você se aborrece quando penso no Pântano.



    A Entidade não falou, nem mesmo oferendo sua habitual garantia de que ele faria uso de seu poder um dia. Algo estava errado esta noite. Os aldeões desaparecidos. A proteção do Pântano. Aquele luar frio…



    “Então”, disse Miss Highwater, continuando seu interrogatório da menina. Somente os três estavam na carruagem; ele havia colocado Crunchgnar e Brerig no assento do cocheiro do lado de fora. “As primeiras vítimas foram seus pais, dez dias atrás. Sua irmã escapou e correu para o priorado.”



    “Sim,” disse a menina. “Ela estava… estava treinando para ser uma cátara, para a igreja. Quando ela retornou com os soldados e eles encontraram meus pais, alguns deles acharam que eles poderiam ter sido vítimas de envenenamento por pó de salgueiro. Isso acontece às vezes com os agricultores, sabe. Mas não conseguimos pensar por que o Homem atacaria e depois envenenaria alguém. Então, três dias depois, os mercadores foram pegos no caminho para o priorado.”



    “Testemunhas?” perguntou Miss Highwater.



    “Um sacerdote viu o ataque à distância,” disse Tacenda. “Ele afirmou ter visto o Homem da Mansão e terríveis espíritos verdes removendo a alma dos mercadores. Depois disso, começamos a permanecer próximos à aldeia e a prioresa prometeu solicitar a Thraben instruções ou ajuda.



    “Outros morreram, no entanto, levados por aparições, às quais começamos a chamar de Sussurradores. Dois dias atrás, minha irmã caiu morta perto das fazendas. Estranhamente, ela não parecia… assustada, como os outros estavam. Pelo menos sua face não estava congelada em uma careta de medo. Talvez ela tenha sido pega de surpresa?



    “De qualquer forma, o pior de tudo aconteceu hoje mais cedo. Trabalhadores nos campos vieram correndo para a aldeia, dizendo que geists estavam fluindo para fora da floresta que cerca Verlasen. Mirian, minha vizinha, me acordou, visto que eu normalmente durmo quase até o anoitecer. Todos se esconderam em suas casas enquanto eu assumi o meu posto próximo à cisterna e comecei a cantar.”



    “Do lado de fora?” Davriel interrompeu. “Eles te deixam sozinha do lado de fora, como uma oferenda, a noite inteira?”



    “Não sou uma oferenda,” disse a garota, levantando o queixo. “Minha irmã e eu nascemos com a benção do Pântano, mais forte do que qualquer pessoa tenha visto antes. Minhas canções protegiam a aldeia durante a noite.”



    “Isso não é difícil?” perguntou Miss Highwater. “Cantar a noite toda?”



    “Normalmente, eu não preciso varar a noite,” disse a menina. “Uma música aqui e ali, um pouco de cantarolado entre uma e outra. Mas… hoje…” Ela desviou o olhar. “Não funcionou. Os Sussurradores entraram na aldeia, ignorando a minha canção. Não vi o que quer que fossem, mas conseguia ouvi-los. Sussurrando…”



    Davriel inclinou-se para frente,  curioso. “Por que ninguém fugiu? Por que apenas se esconder em suas casas? Por que não fugir?”



    “Fugir?” A garota riu uma risada vazia. “Para onde iríamos? Passar fome em algum lugar da floresta? Viajar à noite, tentando chegar a Thraben, onde iriam nos mandar embora? Seus mercadores e sacerdotes podem vir aos Acessos, mas ele não aceitariam uma aldeia inteira de refugiados.”



    “Há ainda o priorado,” disse Davriel. “Fica perto.”



    “Alguns dos aldeões foram para a igreja em nossa aldeia. Aqueles que adoram o Anjo. Quando ouviu nossa situação, a prioresa enviou sacerdotes para nos proteger com suas preces. Mas a fé não ajudou aqueles que se esconderam na igreja. Assim como não ajudou a minha irmã.”



    Parecia que Tacenda não era seguidora do Anjo, apesar do símbolo que ela usava enrolado em seu pulso. Curioso. Desde que chegara aos Acessos, ele achava inusitado o quão firmemente as pessoas aqui resistiam à igreja. Os sacerdotes do priorado, ainda que fossem tolos desorientados, possuíam uma bugiganga que tranquilizava as almas de qualquer um que morresse ali. Sem geists, sem cadáveres se levantando, sem terrores.



    Isso deveria ser o suficiente para amealhar conversos, mas poucos dos aldeões aceitaram o sono abençoado do Anjo. Em vez disso, eles deixaram instruções para que seus corpos fossem devolvidos ao Pântano. A coisa amaldiçoada possuía vinhas enroladas em seus corações.



    “Eu conhecia os sacerdotes que vieram ajudar” disse Tacenda. “O mais jovem, Ashwin, fez um desenho de minha irmã uma vez. Eles se barricaram junto com os fiéis dentro da igreja. Fui em busca deles ao final de tudo e encontrei apenas cadáveres.”



    Davriel recostou-se, pensativo. Na mansão, ele havia postulado que isso teria sido obra de algum necromante celerado. Mas uma aldeia inteira? Defendida por múltiplos sacerdotes com bençãos protetoras e talentos banidores?



    “Talvez devêssemos ter ido embora,” disse Tacenda, olhando para fora da janela. “Talvez devêssemos ter fugido. Mas você não tem ideia de como são as coisas, a salvo em sua rica mansão. Você não sabe como é dormir a cada noite com uma prece fervorosa e um machado ao lado da porta, só por precaução.



    “É assim que nós vivemos. Há sempre uma sombra na floresta, com olhos que ardem muito sombriamente e dentes muitos brilhantes. Vivemos aqui há gerações, confiando na proteção do Pântano. Esse é o nosso destino. Encolher-se dentro de casa à noite e rezar para que as nuvens passem por nós…”



    A carruagem saltou novamente, então as rodas bateram ruidosamente na madeira enquanto cruzavam uma velha ponte. As lanternas da carruagem logo revelaram uma coleção de casas abandonadas. Embora as construções se amontoassem em grupos, as portas reforçadas e as venezianas grossas das janelas faziam com que cada uma delas parecesse solitária.



    Ele avistou o primeiro corpo na rua. Uma mulher deitada de costas, com os braços congelados em um gesto de pânico, tentando proteger a cabeça. A face estava travada em uma máscara de terror.



    Crunchgnar reduziu a velocidade da carruagem. Davriel saiu para a cidade silenciosa repleta de edifícios ocos, como cascas de ovos quebrados. Este lugar, decidiu ele com um arrepio, era pior que a floresta, onde você sabia que estava sendo vigiado. Aqui… bem, havia uma questão.



    Crunchgnar desceu pesadamente da carruagem, usando seu equipamento de batalha completo. Brerig empoleirou-se em cima da carruagem como uma gárgula, com as asas raquíticas tremulando atrás dele. Gutmorn e Yledris completavam a comitiva, um casal de irmãos de demônios de Nightreach com armaduras leves, que aterrissaram em um telhado próximo, com suas enormes asas se restabelecendo em torno deles. Eles eram muito menos parecidos com humanos que Crunchgnar ou Miss Highwater, com feições esqueletais e longas pernas como as de bodes.



    Se alguém estivesse vivo na aldeia, provavelmente teria morrido de medo da chegada repentina de sua procissão. Miss Highwater ajudou Tacenda a descer da carruagem, depois pegou a capa e a máscara de Davriel. Ela segurou ambos na direção dele, com expectativa. Ele normalmente as usava em público. Menos pessoas de fora do plano conheciam o traje do que o rosto dele — e Davriel Cane, é claro, era um nome mais recente que ele havia adotado.



    Ele colocou a capa, que possuía um antigo encanto de sombra dos tempos que ele vivia entre os demônios de Vex. Quando as bordas rodopiaram para baixo, deixaram fracas borras no ar, como faixas feitas por um pincel. Foi um pouco dramático, mas poucos acusariam demônios de serem sutis.



    Ele deixou a máscara de lado por ora enquanto ajoelhava-se ao lado do corpo da mulher assustada. Ele sentiu a pele da face dela, que havia esfriado e enrijecido, depois deslizou a mão por suas costas. O sol havia se posto há quase três horas e o ataque aconteceu pouco antes disso, mas não havia qualquer rastro de calor. O calor do corpo não teria desaparecido tão rapidamente por conta própria, mesmo em um ambiente frio como este. Isso também descartava a hipótese de algo como envenenamento por pó de salgueiro — ele pode provocar um estado catatônico, mas não faria com que a temperatura corporal caísse tão rapidamente.



    Ele assentiu para si mesmo, trabalhando os músculos da face dela, depois movendo um de seus braços para baixo. “Definitivamente não se trata de uma proteção imobilizadora, como a que usei em você mais cedo,” disse ele enquanto Tacenda se aproximava ao seu lado. Ele olhou fundo nos olhos da mulher caída, então usou um espelho para checar se ela respirava. “Nenhum sinal de vida, mas também muito pouco acúmulo de sangue na parte de trás… Frio anormal… Nenhum sinal de perfurações por parte de alguma criatura em busca de alimento… Azul ao redor dos lábios, como você notou… Os músculos estão tensos, mas podem ser movidos…”



    “Então?” perguntou Tacenda.



    “Então, isso foi um desperdício de viagem,” disse Davriel, levantando-se e aceitando uma toalhinha de Miss Highwater para suas mãos. “É exatamente como eu presumi na mansão. Suas almas foram evacuadas e o trauma induziu seus corpos a uma forma de suspensão paralítica.”



    “Mas o que podemos fazer?”



    Davriel devolveu a toalha para Miss Highwater, que a guardou e lhe devolveu a bengala. Ela tinha, é claro, uma espada escondida por dentro. Ele se virou, inspecionando uma aldeia inteira repleta de mausoléus.



    “Isso depende de quem ou o que está por trás disto”, disse ele, gesticulando com sua bengala. “O necromante médio iria querer os corpos; o fato de que eles foram deixados aqui nos diz que não se trata do trabalho de algum vendilhão de cadáveres comum. No entanto, existem variedades de necromante que constroem dispositivos utilizando almas como forma de energia. E há muitas criaturas nesta terra que se alimentam de almas. Algumas atacam agressivamente. Outras, como os demônios, tomam parte em tais festins apenas como uma iguaria, quando a alma é conquistada através de contrato.”



    “Duvido que tenham sido demônios,” disse Miss Highwater, voltando algumas páginas de seu caderno. “A menina disse que muitas das portas ainda estavam trancadas. Ela teve que arrombá-las para checar por sobreviventes. Ela escutou esses Sussurradores, mas não conseguiu distinguir a língua que falavam.”



    “Os Sussurradores podiam atravessas as paredes,” disse Tacenda. “Mas… alguém estava controlando eles. Certo?”



    “Sim,” disse Davriel. “Mesmo que você não tivesse ouvido passos mais cedo, poderíamos supor isso. O subterfúgio de usar meu semblante, o ataque de precisão para extirpar sua irmã, depois o ataque coletivo… Alguém está controlando esses geists. Sozinhos, eles não teriam a presença de espírito para agir de forma coordenada.” Ele apontou com sua bengala. “Leve-me a um dos prédios trancados que você abriu.”



    Crunchgnar e Brerig juntaram-se a eles — o demônio menor segurando uma lanterna para iluminar — enquanto Gutmorn e Yledris alçaram voo, atentos ao perigo. Todos eles tinham várias reivindicações sobre sua alma, devido aos contratos que ele estabeleceu com eles. Os termos de cada um deles eram diferentes, mas todos compartilhavam um elemento importante: sua recompensa era baseada nele sobreviver tempo o suficiente para que o acordo fosse cumprido. Se ele morresse cedo, eles não receberiam nada.



    Essa era a primeira regra da demonologia: certificar-se de que os incentivos para os demônios estejam aliados aos seus. Embora o conceito fosse economia simples, era tão fácil de esquecer.



    Eles chegaram a uma casa igual às outras, mas com uma janela quebrada. As venezianas pareciam ter sido destravadas por algum motivo durante o ataque, por isso Tacenda conseguira entrar facilmente quebrando o vidro.



    Entraram pela porta e se depararam com os corpos de uma jovem família, com duas crianças pequenas, amontoados em uma variedade de estados de pânico aterrorizado. Davriel entregou sua bengala a Miss Highwater, depois verificou superficialmente os corpos, que possuíam os mesmos sinais que os da primeira mulher. Enquanto ele realizava o trabalho, Brerig ergueu seu corpo atarracado até o balcão perto do fogão e começou a vasculhar os armários. Ele jogou fora alguns frascos vazios depois de cheirá-los, então continuou vasculhando.



    “Se estiver aqui, Mestre,” disse Brerig, “eu encontrarei.”



    Ele… está procurando por chá, percebeu Davriel. Para mim. O pequeno demônio tinha o hábito de se fixar em alguma coisa dita por Davriel, se esforçando o máximo que podia para cumpri-la em seguida. Ele retornou com um pote do que pareciam ser dentes de alho secos e, claramente, não conseguia decidir se era chá ou não. Miss Highwater balançou a cabeça discretamente, então ele jogou-o de lado.



    Davriel retornou à investigação. “Esses aqui eram seguidores do Pântano?”



    “Sim,” disse Tacenda, com a voz soando oca. Cuidadosamente, ela colocou uma manta em torno da menor das crianças, um menino que não deveria ter mais que quatro anos. Seu rosto aterrorizado estava congelado no meio de um grito, com olhos arregalados, e ele se agarrava a um brinquedo de palha para se consolar.



    Davriel estava inclinado a confiar na descrição de Tacenda de que esses Sussurradores eram uma forma de aparição, mas ela era cega, então o melhor era verificar ele mesmo. Os corpos nesta casa, que havia sido bem trancada, pareciam evidência suficiente. O que quer tenha feito isso podia atravessar paredes.



    Brerig chegou coxeando, carregando uma bolsa que parecia promissora. De fato, ela já havia guardado chá, a julgar pelo cheiro.



    “Desculpe, Mestre” disse Brerig, virando a bolsa para provar que não havia nada dentro.



    “Tudo bem,” disse Davriel, levantando-se e limpando as mãos no pano que Miss Highwater providenciou.



    “Adivinhação?” perguntou Brerig.



    “Vá em frente.”



    O pequeno demônio franziu o cenho. “É ar?”



    “Bom palpite,” disse Davriel. “Mas não, essa não é a resposta.”



    Brerig sorriu, depois enfiou a bolsa na algibeira enquanto saía. Crunchgnar, que havia esperado do lado de fora durante a investigação, passou a mão por cima do ombro dele, mandando o demônio menor ir vigiar os cavalos, o que ele fez sem reclamar.



    “Honestamente,” disse Miss Highwater, “Não acho que ele realmente deseje desvendar essa adivinhação.”



    Talvez ela estivesse certa; era criminoso o quão leal Brerig podia ser. Davriel retornou para a rua, com Tacenda o seguindo.



    “E agora?” perguntou ela.



    Ele apontou com sua bengala para a sombra da pequena igreja no centro da cidade. Crunchgnar conduziu-os naquela direção com sua lanterna.



    “O quanto você sabe a respeito da proteção do Pântano sobre você?” Davriel perguntou a Tacenda.



    “Todos os nascidos nos Acessos são marcados. A proteção do Pântano. Dizem que, por causa dela, não sofremos tantos ataques quando deveríamos, vivendo tão longe do resto da sociedade. Não sei. Quando eu era mais nova, os ataques pareciam frequentes o suficiente. Até que eu aprendi a cantar.” Ela olhou para baixo. “Antes do meu fracasso hoje, achei que meu canto sempre seria o suficiente. Minha visão em troca da música…”



    “Uma maldição curiosa,” disse Davriel.



    “É um lembrete,” disse Tacenda. “Do que devo ao Pântano. Da dívida que todos temos com o Pântano, pela proteção.” Ela pareceu vacilar quando disse isso, olhando em direção a uma porta aberta com corpos dentro.



    Bem, Davriel supôs que não poderia culpar essas pessoas por um pouco de superstição. Havia algo de diferente a respeito dos nativos dos Acessos. Essa era a parte mais intrigante de tudo isso.



    “Algo está muito estranho acerca desses espíritos que invadiram sua cidade,” disse Davriel, gesticulando com a bengala. “Miss Highwater, algum demônio perspicaz faria um acordo com um habitante dos Acessos?”



    Ela torceu o nariz. “Mas é claro que não.”



    “E por que não?”



    “Porque eles já têm dono. Todos sabem disso. Dá para sentir o cheiro neles.”



    Crunchgnar grunhiu, depois assentiu. “Do mesmo modo que sabemos quando uma alma já está sob contrato com outro demônio. É necessário um prêmio poderoso para valer a pena entrar numa barganha como essa.”



    “Obrigado pelo elogio,” disse Davriel. “Miss Verlsasen, a marca em suas almas é menos uma proteção do que um sinal da propriedade. Uma reivindicação. Sua música funciona da mesma forma. Ela afugenta feras e espíritos porque eles reconhecem o perigo em provocar o Pântano. Matar você seria como como matar os cães de caça de um lorde poderoso. Mas sua canção não ajudou mais cedo. Portanto…”



    Tacenda parou na rua, com seu instrumento amarrado às costas. Embora Miss Highwater tenha lhe dado um lenço mais cedo para limpar seu rosto e mãos, seu vestido de camponesa ainda estava rasgado e ensanguentado no local onde ela havia arranhando o braço. Ele a deixou embasbacada.



    “Certamente,” disse ela, “você não está insinuando que o Pântano os levou?”



    “É a minha principal teoria,” disse Davriel. “Há outra possibilidade. Talvez esses geists tenham sido enviados por alguém poderoso o bastante para ignorar a reivindicação do Pântano. Ainda assim, não consigo deixar de me perguntar por que sua proteção não funcionou. Talvez a coisa que capturou essas almas tenha sido criada a partir do mesmo poder. Enquanto um rato pode ter medo do cheiro do gato, o próprio gato sequer o sentiria.”



    “O Pântano nos protege,” disse Tacenda. “Ele exige nossas almas quando morremos, mas nos mantém a salvo. Ele não pode estar envolvido.”



    “Possivelmente,” disse Davriel. “Sempre achei difícil separar o pequeno culto de vocês das intervenções reais do Pântano.”



    “Não é um culto. Isso é apenas… a maneira como as coisas são.”



    Davriel olhou através de uma porta aberta de outra casa, observando um corpo deitado no chão próximo à entrada. Ele se viu cada vez mais irritado. Não pelas mortes — vidas começam e vidas terminam. Não havia utilidade em se desgastar com cada pequena perda. Mas esses eram os seus camponeses. O Pântano, ou algo similar, os levara em flagrante desrespeito à autoridade de Davriel.



    Nós nos tornaremos muito mais, disse a Entidade, sempre à espreita no fundo de sua mente.



    Aí está você, pensou Davriel. Estava cochilando?



    Você continua a se envolver em lutas mesquinhas por poder e autoridade, sussurrou a Entidade. Você deve entender que essas coisas são desperdícios sem sentido do seu potencial. Assim que você utilizar a minha força, infundindo seus feitiços com meu poder, você superará tudo isso.



    Isso era exatamente o que Davriel temia. Desde que roubou a Entidade, extraindo-a da mente de um moribundo, ele conseguia sentir seu vasto potencial.



    Em breve, disse a Entidade, escaparemos dessa mundanidade. Em breve…



    Eles chegaram à igreja, uma estrutura simples de madeira com um telhado pontiagudo. Não há grandes vitrais nas janelas, não aqui nos Acessos. Apenas uma ampla estrutura de um único andar cheia de bancos. Em seu interior, a escuridão era completa, pois as poucas janelas não permitiam a passagem da luz da lua direito.



    As grandes portas da frente estavam abertas. A barra do lado de dentro não havia sido usada. Curioso, pensou Davriel, repousando os dedos na madeira gravada, observando arranhões peculiares. Eram frescos. Também digno de nota, a porta outrora portara o simbolo do colar, o sinal da Igreja de Avacyn, o Arcanjo. Ele havia sido lixado há alguns meses. Além disso, a idêntica marca trabalhada em pedra no arco fora coberta com gesso.



    “O que é isso?” perguntou ele, apontando. “Por que seu povo removeu o símbolo?”



    “Bom,” disse Tacenda, “depois daquele negócio no ano passado, a prioresa decidiu…”



    “Negócio no ano passado?” disse Davriel com uma careta. “Que negócio é esse?”



    “Com os anjos” disse Tacenda.



    “Ele balançou a cabeça, depois olhou para Miss Highwater, que parecia achar graça. Até Crunchgnar levantou uma sobrancelha.



    “Você não está falando sério, está?” disse Miss Highwater. “O arcanjo Avacyn enlouqueceu. Da mesma forma que a maioria das revoadas. Não sabia?”



    “Quê?” disse ele. “Sério?”



    “Os anjos tentaram nos matar,” disse Tacenda. “Eles tentaram exterminar a humanidade pelo nosso próprio bem. Mesmo aqui, longe do corpo principal da igreja, ouvimos falar sobre isso.”



    “Hã,” disse Davriel. “Isso soa como um inconveniente bastante grande.”



    “Oh, Dav,” disse Miss Highwater. “Eu lhe informei sobre o assunto em três ocasiões.”



    “Eu estava ouvindo?”



    “Obviamente que não.”



    Tacenda, incrédula, acenou para o céu. “A lua? Você não notou a lua?”



    “Oh? Ela também tentou matá-los?”



    “O símbolo?” disse Tacenda. “A enorme runa gravada em sua superfície?”



    Ele deu um passo para trás, olhando para ela, depois inclinou a cabeça. “Aquilo sempre esteve lá?”



    Tacenda olhou para ele, incrédula. “Como ele pode ser tão astuto e, ao mesmo tempo, tão desatento?”



    “Você faz uma pergunta que tem me atormentado há anos, criança,” murmurou Crunchgnar. “Um dia, eu descobrirei seus segredos enquanto ele grita por piedade, com a alma ardendo em meu lar nas profundezas do inferno. Então, devorarei sua alma.”



    “E eu me esforçarei em dar-lhe uma indigestão, Crunchgnar,” disse Davriel, forçando as vistas para a lua. “Você sabe que eu gosto disso. Tem estilo. É diferente.” Ele ergueu a mão, fazendo um punho no ar para invocar Gutmorn e Yledris.



    Eles chegaram batendo as asas, aterrissando no chão próximo com batidas silenciosas. Os dois alegavam ser irmão e irmã, criados no mesmo dia, embora suas faces fossem tão retorcidas com chifres que eles também poderiam ser irmãos de um garfo particularmente ambicioso e Davriel não saberia apontar a diferença.



    “Vigiem o perímetro da cidade,” Davriel disse a eles. “Eu não confio nesta noite. O resto de vocês ficará bem se entrarmos em uma igreja?”



    “Não temo os anjos,” retrucou Crunchgnar.



    “E eu não me importo,” disse Miss Highwater. “Desde que não hajam sacerdotes ou feitiços de banimento por perto.”



    Bom o suficiente. Davriel entrou a passos largos.



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


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    por MypCards em 23/01/2019 - 148 Visualizações, 0 Comentários.

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  • Pré-Release: Lealdade em Ravnica - Piedade Card House

    Pré-Release: Lealdade em Ravnica - Piedade Card House

    por Piedade em 20/01/2019 - 251 Visualizações, 0 Comentários.



     





    Salve Galera!

    Meu nome é Lucas Heckler Piedade, sou da Piedade Card House. Jogo Magic a mais ou menos 13 anos e meu primeiro Pré-Release foi de Lorwyn. Fiquei alguns anos sem jogar e voltei recentemente.



    O ambiente de pré-release é bem único. Existem cartas que neste formato são muito boas, capazes de ganhar um jogo sozinha, mas fora dele são completamente inúteis. Isto torna este formato bem interessante pois te permite criar várias possibilidades. Todas as vezes que joguei pré-releases notei que os decks que se destacavam eram decks com: Criaturas com muito poder, muitas criaturas rápidas, muito controle (Seja negando mágicas ou destruindo) e/ou criaturas dificeis de bloquear (Voadoras, com ameaçar e etc). Decks com uma ou alguma junção destas características tendem a se destacar em pré-releases, com isto em mente montei meu deck. 



    A guilda que escolhi neste pré-release foi a guilda de Gruul, por causa de seu grande número de criaturas poderosas. As cartas que obtive em meu pick não continham nada muito interessante para um deck de "pré" nas cores pretas, brancas e azuis. Por este motivo fiquei com as cores da guilda mesmo. 



    Procurei manter em meu deck criaturas com um custo não muito elevado e grande poder, criaturas rápidas e criaturas com potencial de tornarem-se uma bomba. 

    As criaturas rápidas que coloquei em meu deck foram: 1-Territorial Boar, 1- Sauroform Hybrid, 1- Feral Maaka, 1- Rubble Slinger, 1- Rubblebelt Runner, 2- Sylvan Brushstrider, 1- Steeple Creeper e 1- Clamor Shaman que me permitiam causar uma quantidade generosa de dano nos primeiros turnos. 

    Seguindo, para um jogo mais duradouro ou até mesmo para finalizar a partida coloquei criaturas com muito poder e que podiam ficar ainda mais poderosas, que foram: 1- Frenzied Arynx, 2- Enraged Ceratok e 1- Trollbred Guardian.



    Como meu deck possuia muitas criaturas, seria muito díficil para um deck de pré-release possuir remoções para todas elas, mas eu ainda podia perder muitas criaturas em combate, pois as resistências delas não eram tão grandes, por este motivo decidi colocar magias que permitissem que minhas criaturas ficassem com uma resistência maior ou um poder maior para que houvesse uma troca de dano, ou até um ataque poderoso de surpresa, por este motivo inclui em meu deck: 1-Collision, 1-Burn Bright2- Gift of Strength e 1- Tower Defense (Permitia eu bloquar criaturas com voar).



    As poucas cartas de remoção que eu tive em minha pool que tinham a cor do meu deck foram: 2-Scorchmark, 1-Electrodominance e 1- Savage Smash.



    Caso eu não pudesse destruir uma criatura eu a roubava em um momento oportuno para um ataque poderoso de surpresa com: 2-Act of Treason.



    Como meu deck possuía apenas duas cores e muitas cartas com custo baixo, optei por usar apenas 16 terrenos. Obs: O terreno de simic era para ativar a habilidade da criatura: Steeple Creeper.



    Rodada 1: Guilherme Santana (Simic com splash vermelho). Vitória por 2-0.

     



    O deck do Guilherme possuia muitas criaturas fortes e com voar, mas não contia muitas remoções. O jogo foi para o meu controle durante os combates, pois quando ele bloqueava minhas criaturas na intenção de fazer trocas eu utilizava as magias para torná-las mais fortes e assim matar as criaturas dele sem perdas, sem criaturas para bloquear  e sem remoções, o dano foi grande.  Isto se repitiu nos dois games. 



    Rodada 2: Paolo (grull com splash azul)Vitória por 2-1.



    O primeiro game acabei fazendo mulligan até 5 e saindo apenas com um terreno na mão, consegui comprar um terreno mas possuía apenas cartas com custo 3 na mão, consegui comprar o 3º terreno no turno 6 quando a mesa dele já estava muito cheia de criaturas e não consegui voltar pro jogo. 

    O game dois aconteceu a mesma coisa, só que com ele. 

    O game jogado de maneira justa foi o 3º, onde ambos foram com 7 cartas na mão e o jogo fluiu. Ambos os decks atacando com muitas criaturas, trocando muito dano. Nos momentos finais do jogo o Paolo estava com 11 de vida e eu com 9 (após o ataque dele), ele baixou uma criatura com 5 de poder e passou. Em meu turno utilizei Act of Treason para roubar a criatura que ele tinha deixado para bloquear, juntamente com a minha para deixá-lo com 5 de vida. No turno dele ele me deixou com 3 de vida e deixou outra criatura para bloquear, no turno seguinte eu utilizei meu outro Act of Treason e finalizei a partida. 



    Rodada 3: Júlio (Jund {não tenho certeza}). Vitória por 2-1.



    Foi uma partida relativamente rápida, perdi o primeiro game sem conseguir fazer muita coisa, minhas criaturas foram destruídas por magias e as criaturas dele eram muito fortes para eu ganhar em combate. 

    O segundo game estava fluindo de maneira equilibrada até que utlizei Act of Treason que me permitiu causar muito dano sem bloqueadores. 

    O teceiro game estava muito equilibrado, ambos com muitas criaturas, mas eu estava com menos vida. Mas, mais uma vez, utilizei Act of Treason em dois turnos seguidos para roubar uma criatura com potencial de bloquear para causar o dano necessário para ganhar.   



    Rodada 4: Danilo Silva. Empate 1-1.



    Como eu e o Danilo eramos os ùnicos com 3 vitórias no torneio, decidimos empatar a partida, pois ambos passariam nas primeiras posições.  



    Top 4:



    No top 4 passou, eu em primeiro, Danilo Silva em segundo, Guilherme Santana em terceiro e Flávio em quarto. 

    Todos os jogadores do top 4 decidiram splitar e dividir a premiação. 



     





    É isso ae galera, valeu pela atenção, foi muito legal fazer este report. Me diverti muito neste pré-release. E em nome da Piedade Card House, agradeço a todos que estavam presente e deixo aberto o convite ae para todos que quiserem irem conhecer a loja e jogar conosco (Endereço da loja no perfil). E um agradecimento especial a MYP cards que está sempre conosco dando uma força. Um abraço a todos e bons games. 


  • O Trono de Géia, ou quase.

    O Trono de Géia, ou quase.

    por Wlad em 15/01/2019 - 316 Visualizações, 0 Comentários.



    Boa tarde a todos!



    Venho lhes apresentar um deck bem diferente do que estamos acostumados: Um deck baseado no Gaeas Touch!





    Este encantamento permite ao jogador baixar uma floresta básica adicional em cada um de seus turnos.

    A idéia central do deck é bem simples: Usar 12 "Karoos" no deck, as "Bounce Lands" (Dimir Aqueduct, Golgari Rot Farm e Simic Growth Chamber).



    Exemplo:



    Turno 1 você joga uma floresta.

    Turno 2 você joga outra floresta e o Gaeas Touch.

    Turno 3 você já transforma cada bounce land sua em uma tapland convencional, baixando ela, voltando a floresta para sua mão e em seguida baixando a floresta adicional.



    Agora que vocês já entenderam a ideia central do deck, vou lhes explicar as escolhas de cartas:



    Criaturas:



    1x Winged Coatl - Ele é uma remoção com pernas, pode ser buscada com Mystical Teachings e consegue pegar o monarca para nós.

    2x Twisted Abomination - Pode buscar o único pântano do deck, é um corpo que mata um Gurmag Angler e ainda regenera, forçando o oponente a usar uma remoção boa nele.

    1x Havenwood Wurm - Ele é um corpo bem decente, consegue matar o Gurmag Angler no combate tbm sem morrer e pode ser buscado com Mystical Teachings.

    2x Gurmag Angler - Entra rápido e tem um corpo bem decente.



    Remoções de criatura:



    1x Diabolic Edict , 1x Doom Blade, 1x Echoing Decay e 1x Last Gasp. Todas podem ser buscadas por Mystical Teachings.

    2x Chainer's Edict (ou dependendo do ambiente 2x Evincars Justice).



    Vantagem de cartas:



    3x Forbidden Alchemy - Busca a carta que precisamos no momento e ainda melhora nosso cemitério pro Gurmag Angler.

    2x Mystical Teachings - Busca a mágica instantânea ou a criatura com flash que precisamos.

    1x Enhanced Awareness - Compra carta que pode ser buscado com Mystical Teachings.



    Ficar vivo:



    1x Moments Peace, 1x Crypt Incursion e 2x Pulse of Murasa.



    Ramp (acelerador de mana) e fix (transforma o excesso de mana verde em preto/azul):



    4x Gaeas Touch, 4x Explore, 4x Prophetic Prism e 2x Dimir Signet.



    E, por último, os Terrenos:



    12x Karoos.

    1x Swamp (pro Twisted Abomination nos salvar de uma zica).

    12x Floresta (pra garantir o Gaeas Touch no segundo turno).



    É um deck diferente, divertido e que pode ser bem interessante com a lista mais otimizada possível e com um bom piloto.



    Cartas a considerar:



    Crop Rotation, Vessel of Nascency  (ao invés do Explore, para buscar o Gaeas Touch).



    Bom, fiquem a vontade para comentar sobre o deck, estou aberto a novas idéias também.



    Sobre o autor:

    Nome: Wladimir Oda Petroski.

    Jogou de: Tolarian Academy, Rec-Sur, Jund, Caw-Blade e Uw Illusions.

    Joga hoje em dia: Pauper com muitos Dismal Backwater.

    Quantidade de decks pauper: 34.

    Sonho: Ter um artiguinho sobre cada deck, =]

    Cartas prediletas: Um set de trio de urza de antiquities.


  • Children of the Nameless - Capítulo 5

    Children of the Nameless - Capítulo 5

    por MypCards em 04/01/2019 - 278 Visualizações, 0 Comentários.

    Acesso rápido:





    Capítulo 5: Tacenda



    Tacenda testou suas amarras. Estavam frouxas e ela pensou que poderia até mesmo se soltar das que atavam seus pés. Atreveria-se ela a fugir? O que conseguiria com isso?



    Assim que Miss Highwater retornou após dar ordens do lado de fora do aposento, o Homem perguntou a ela se a Aldeia de Verlasen era, “Aquela com um homem furioso que cheirava a água de lavar louça.” Terá sido aquilo uma referência ao Prefeito Gurtlen da Ponte de Hremeg? De qualquer forma, Davriel fingia não ter consciência do que havia acontecido com seu povo, sua família, seu mundo inteiro.



    Qual era o propósito do subterfúgio? Quem sabe que estranhas maquinações habitam o cérebro de tal criatura? pensou ela. Talvez ele deseje apenas me torturar com a incerteza.



    Ela mexeu os pés, libertando-os das cordas. Deveria ela tentar atacar de novo? Tolice. Ela obviamente não poderia ferir Davriel com algo tão simples quanto um furador de gelo. Talvez ela devesse tentar a Canção de Proteção?



    Ela decidiu esperar. Em pouco tempo, outro demônio entrou no quarto. Mais ou menos de sua altura, ele era retorcido e encurvado, possuindo feições que lembravam vagamente às de um focinho de um cão sem pelos. Ao contrário dos outros dois, asas negras projetavam-se de suas costas, embora fossem retorcidas e murchas.



    O demônio foi até Davriel, carregando uma sacola em uma mão e um objeto embrulhado em pano na outra.



    “Finalmente,” disse Davriel, erguendo e puxando um criado-mudo. “Aqui, Brerig.”



    O demônio encurvado colocou o objeto na mesa e o pano deslizou, revelando um pote grande e largo de conserva com uma luz brilhante pulsando por dentro.



    “Excelente,” disse Davriel.



    “Charada, mestre?” perguntou Brerig, o demônio, sorrindo com uma larga boca repleta de dentes em demasia.



    “Está bem.”



    “Foi um fazendeiro?”



    “Não. Não foi.”



    “Ah. Bem.” Brerig suspirou e puxou algo de dentro do saco. Uma cabeça de homem, segurada pelo cabelo. Tacenda imediatamente passou mal. A cabeça foi preservada com algum tipo de placa de metal na parte inferior. A pele estava pálida e sem sangue, mas não apodrecida.



    Ela sentiu o gosto de bile, mas forçou-se a engolir e a respirar profundamente. Era apenas outro cadáver. Ela havia visto… já havia visto muitos deles hoje.



    Davriel pegou a cabeça e parafusou-a ao frasco de vidro brilhante, afixando os dois. Brerig arrastou-se até à parede, onde enxotou alguns dos diabos de pele vermelha. Miss Higwater inspecionou o pote, com seu livro-razão debaixo do braço, enquanto Crunchgnar estava próximo à porta e tirou uma faca do cinto, olhando para Tacenda.



    Davriel brincou com o pote, lançando algo sobre a parte superior enquanto murmurava algo que soava como um encantamento. Então, quando ele a colocou no chão, a luz do pote desvaneceu-se — e a cabeça no topo estremeceu. Os lábios começaram a se mover, com os olhos abrindo letargicamente, olhando para um lado e depois para o outro.



    “Você é um suturador?” perguntou Tacenda.



    “Não me insulte, jovem”, disse Davriel.



    “Um  invocador de carniçais, então? Um… um necromante?”



    Davriel levantou-se e girou, apontando na direção dela. “Tenho sido paciente com você até agora. Não me teste.”



    Tacenda encolheu-se na cadeira. Apunhalá-lo pareceu apenas incomodá-lo, mas isso… isso parecia realmente tê-lo insultado.



    “Sou um diabolista,” disse Davriel. “Um demonologista — um erudito. Meu estudo requer habilidade, esforço e perspicácia. Necromancia é uma arte de tolos, praticada por açougueiros fracassados que acham que estão sendo espertos só porque, brilhantemente, percebem que, às vezes, os cadáveres não permanecem mortos.” Ele estalou os dedos na frente dos olhos da cabeça, chamando sua atenção. Ele moveu os dedos para frente e para trás e os olhos os seguiram.



    “Você já tomou nota dos tipos de pessoas que acabam praticando a necromancia?” continuou Davriel. “A arte atrai os desequilibrados, os estúpidos e os desleixados. Um número muito grande deles possui opiniões superinfladas sobre seus próprios ‘esquemas perversos’, acreditando que são rebeldes e indivíduos auto-empoderados simplesmente porque treinaram a si mesmos a olhar para um cadáver sem passar mal. Sem falar que cadáveres são servos terríveis. O trabalho inicial é um pesadelo e depois ainda tem a manutenção! O fedor! Tudo isso por um servo ainda mais burro que Crunchgnar!”



    Crunchgnar rosnou baixinho ao ouvir isso. Tacenda deslizou o outro pé, libertando-o. Davriel não estava observando; ela usava uma seringa que estava na sacola para injetar algum tipo de líquido verde na cabeça.



    “Mas…” Tacenda não pôde deixar de dizer, “você está trabalhando com um cadáver neste exato momento.”



    “Isto?” disse Davriel. “Isto quase nem é magia. Isto é apenas um meio para um fim.” Ele terminou a injeção e a cabeça se concentrou nele de maneira mais deliberada, depois separou seus lábios.



    “Você se recorda do seu nome?” Davriel perguntou à cabeça.



    “Jagreth,” disse a cabeça, com os lábios movendo, embora o som parecesse vir da placa de metal que a conectava ao pote.



    “Jagreth de Thraben,” disse Miss Highwater, lendo no seu livro-razão. “Cátaro, guerreiro oficial da igreja e auto-intitulado ‘caçador do mal.’ Ele era reputado por sua honra, segundo as minhas fontes.”



    Eu o conheci, percebeu Tacenda. Não a cabeça dele, mas este homem — esta alma — havia passado por Verlasen alguns dias atrás, após ter ouvido sobre a morte de seus pais. Sua voz era profunda e confiante; ela o imaginou como um homem alto, de peito largo. Willia ficou caidinha por ele. Isso antes… antes dela…



    Eu vim para matá-lo,” disse a cabeça, fixando o olhar em Davriel. “Homem da Mansão. O que fez comigo?”



    “Apenas algumas melhorias,” disse Davriel. “Como se sente?”



    “Com frio,” sussurrou o cadáver, “como se minha alma houvesse sido congelada no gelo da montanha mais alta, depois trancada em uma escuridão tão profunda que até o sol seria engolido ali.”



    “Perfeito,” disse Davriel. “É o líquido de preservação fazendo o seu trabalho.” Ele bateu levemente na bochecha da cabeça. “Obrigado pelo feitiço de aprisionamento que você me deixou roubar do seu cérebro. Ele mostrou-se útil menos de meia hora atrás.”



    “Seu monstro,” sussurrou a cabeça. “O que você fez comigo é uma abominação. Uma injustiça moral.”



    “Tecnicamente,” disse Davriel, “eu sou a autoridade legal nesta região e você tentou me matar enquanto eu dormia. Então, eu diria que o que fiz a você é moral e justo. Mas vamos fazer um trato. Responda algumas perguntas para mim e prometo deixar o seu espírito ir.”



    “Não irei ajudá-lo a trazer terror e dor para outras pessoas, demônio.”



    “Ah, mas olhe para aquela pobre menina naquele cadeira,” disse Davriel, apontando na direção de Tacenda. “A aldeia inteira dela foi assassinada! Suas almas foram roubadas de seus corpos durante a noite por algum terror misterioso.”



    “Foi durante o dia,” sussurrou Tacenda. “E não é misterioso. Você sabe o que aconteceu. Você foi o responsável.”



    A cabeça fixou o olhar nela e suas feições suavizaram-se em simpatia. “Ah, criança,” disse a cabeça com a voz de Jagreth, o Cátaro. “Eu tentei e falhei. É como eu temia, então? Um monstro como este é raramente saciado com alguns assassinatos. Assim que sente sede de sangue, ele retorna de novo e de novo…”



    Tacenda estremeceu.



    “Eu realmente fico com sede,” disse Davriel. “Normalmente, eu opto por um bom vinho tinto, mas após um dia extremamente difícil, nada atinge melhor o alvo do que uma taça cheia com o sangue quente de um inocente.”



    Os olhos da cabeça se voltaram para ele.



    “Eu banho-me nele, sabe.” disse Davriel. “Do jeito que as histórias contam. Não importa o quão impraticável soe isso — a coagulação, as manchas — sério, tente você mesmo. Mas droga, todos vocês continuam a descobrir sobre meus nefastos morticínios noturnos. O que preciso saber é como. Como descobriram sobre mim?”



    “Os membros do priorado me contaram o que você tem feito.” disse Jagreth. “Eles explicaram sobre as almas que você capturou.”



    “Quem do priorado?”disse Davriel.



    “A própria prioresa.”



    Isso fez Davriel empedernir-se por algum motivo, com os lábios traçando uma linha.



    “Todos sabem o que você tem feito,” disse Jagreth. “Você removeu as almas e deixou os corpos.”



    “Mas como vocês sabem que fui eu?” perguntou Davriel. “Não sou nativo do local, mas mesmo meus poucos anos aqui ensinaram-me que vocês não têm escassez de ameaças às vidas humanas. Por que presumem que eu estou por trás disso?”



    “Eu já disse a você…”



    “Minha irmã viu você,” disse Tacenda, atraindo a atenção de ambos. “Ela observou enquanto você capturou meus pais dez dias atrás. Depois disso, quando você roubou as almas daqueles mercadores que viajavam entre aldeias, um sacerdote o viu. Então você pegou Willia nos campos, provavelmente com raiva visto que ela já havia escapado antes.”



    “Você não pode fingir inocência, monstro,” disse Jagreth. “É difícil confundi-lo com o seu manto e máscara.”



    “Meu… manto e máscara,”disse Davriel.



    “Os que você usa quando visita a aldeia,” disse Tacenda. “Minha irmã viu você claramente.”



    “Ela viu alguém com a meu manto e máscara,” disse Davriel.  “O manto e a máscara que eu uso especificamente para ofuscar minhas feições, de modo que o meu verdadeiro eu seja irreconhecível. Ninguém viu a minha face. Correto?”



    Bem, tecnicamente, a máscara e o manto foram tudo o que Willia disse ter visto. Mas todos sabiam que o Homem da Mansão era uma figura malévola que consorciava com demônios. Todos sabiam disso…



    Ela olhou novamente para Davriel, com sua camisa macia, bigode fino e gravata violeta.. Com sua estranha mistura de conhecimento arcano e notável indiferença.



    “Fogos do inferno,” murmurou ele. “Alguém está me imitando.”



    “Uma tarefa difícil,” disse Miss Highwater. “Pense no grande número de sonecas que eles teriam que tirar.”



    Davriel olhou para ela.



    “Admita, Dav,” disse ela. “Seria necessário um verdadeiro mestre da imitação para se passar por você. A maioria das pessoas iria fazer algo relevante ou útil acidentalmente, e isso destruiria a ilusão completamente.”



    “Vá buscar meu manto e máscara,” disse ele.



    “Liberte-me,” disse a cabeça. “Eu respondi suas perguntas.”



    “Eu não especifiquei uma data ou hora,” disse Davriel. “Apenas disse que iria libertá-lo. E irei. Eventualmente.”



    “Tecnicalidades!”



    “Até onde sei, tecnicalidades são tudo o que importa.”



    “Mas…”



    Davriel torceu algo na parte superior do pote e a cabeça ficou frouxa, o queixo caído, os olhos rolando para o lado. O pote embaixo preenchido novamente com luz brilhante.



    Miss Highwater vasculhou um guarda-roupa ao lado do quarto. Ela puxou um manto preto profundo, com a parte inferior particularmente esfarrapada e fantasmagórica, como o espírito desgastado de um geist assombrador. A máscara dourada estava com uma forma demoníaca com grandes olhos escuros, linhas sinuosas e uma boca aterradora que lembrava uma mandíbula com a a pele removida. Era o que o Homem usava quando saía em público.



    “Bem,” disse ela, “sua vestimenta ainda está aqui. Então o imitador fez sua própria cópia.”



    “Mas por quê?” perguntou Tacenda. “Que razão teria alguém para imitá-lo?”



    “Miss Highwater,” disse Davriel, “quantas vezes você disse que eu fui atacado nas últimas semanas?”



    “Quatro,” disse ela. “Cinco, se você contar a garota, suponho.”



    Davriel se jogou na cadeira, esfregando a testa. “Que dor. Alguém está se divertindo por aí e colocando a culpa em mim. Como poderei realizar algum trabalho assim?”



    “Trabalho?” perguntou Miss Highwater. “Que trabalho?”



    “Principalmente lembrar você de fazer coisas,” disse ele. “Não quero você enrolando. Escrevi uma nota para mim mesmo sobre isso outro dia…” Ele deu um tapinha no bolso, depois estendeu a mão para o paletó e tirou um pedaço de papel, que estava ensanguentado de sua facada. Olhou fixamente para Tacenda.



    “Você… realmente não fez aquilo, não é?” perguntou Tacenda. “Você não matou a minha aldeia.”



    “Fogos do inferno, não. Por que eu arruinaria a aldeia que fornece meu chá? Mesmo que sua colheita tenha atrasado este ano.” Ele olhou para Tacenda.



    “Estivemos ocupados,” disse ela. “Sendo assassinados.”



    “Que confusão,” disse Davriel. “Não posso tolerar alguém me imitando. Miss Highwater, mande Crunchgnar  e, quem sabe, Verminal para investigar quem possa ter feito isso.  E veja se podemos conseguir mais camponeses. Talvez deva prometer cessar as chicotadas pelos dois primeiros anos, para ver se isso atrai alguns colonos?”



    “Você vai enviar os demônios?” perguntou Tacenda. “Você nem mesmo irá pessoalmente?”



    “Muito ocupado,” disse ele.



    “Ele tem que tirar o cochilo do fim de tarde,” disse Miss Highwater. “Depois um gole de vinho pela noite. Dormir, em seguida. Depois uma soneca matinal.”



    Tacenda ficou perplexa por causa de Davriel, que recostou-se na cadeira. Talvez ele não tivesse matado as pessoas de sua aldeia, mas alguém estava liderando os Sussurradores quando eles atacaram. Ela havia ouvido seus passos e alguém foi visto usando o manto e a máscara de Davriel.



    O assassino e os geists que o serviam ainda estavam à solta. Verlasen não era a única aldeia na região; havia mais duas, além do povo do priorado. Centenas de outras almas estavam em perigo. E Davriel não iria sequer deixar sua mansão?



    Tacenda sentiu sua raiva aumentar novamente. Talvez este homem não tenha matado seus amigos e familiares, mas seu governo incompetente e egoísta compartilhava a culpa pelas mortes. Tacenda levantou-se livrando-se das cordas.



    Crunchgnar, que estava observando a cena, posicionou-se na frente da porta para impedir sua fuga. Mas Tacenda não tentou escapar. Ela saltou para a frente e apanhou o pote brilhante da mesa perto de Davriel, depois, sem pensar duas vezes, atirou-o no chão, quebrando-o e fazendo a cabeça rolar para longe.



    A luz brilhante da alma dentro do pote escoou para fora e ela ouviu um suspiro bem peculiar quando o cátaro aprisionado escapou de seu tormento. A luz flutuou, assumindo vagamente a forma do homem, exatamente como ela o havia imaginado, com aquela mandíbula quadrada e um ar nobre, envolto na capa áspera de um caçador.



    Evidentemente, o colarinho era um pouco exagerado.



    Muito… Muito obrigado… Uma voz, como se tivesse sido soprada pelo vento, atravessou o quarto.



    Davriel observava com uma expressão que ela não conseguia ler. Surpresa? Horror pelo que ela fez com o seu prêmio?



    “Tecnicalidade ou não,” disse ela. “Você deveria cumprir a sua palavra. Tenho certeza que um verdadeiro necromante saberia…”



    “Muito obrigado… muighugh Muitahhhhhhhhh…



    Tacenda hesitou, depois virou-se na direção do espírito que, em vez de ter se dissipado como ela supunha, estava ficando mais brilhante. Seus olhos ficaram maiores à medida que escureciam, distorcendo o rosto. Seus dedos se esticaram e ele adotou um sorriso perverso e torto.



    “Cátaro Jagreth?” perguntou ela.



    A coisa atacou, cortando com dedos afiados através de seu antebraço, sem fazer com que ela sangrasse, mas sentisse uma intensa e gélida dor. Ela ofegou e tropeçou para trás. A coisa, enlouquecida, lançou-se contra Davriel.



    Crunchgnar chegou primeiro. O enorme demônio bloqueou o espírito, tocando-o como se ele fosse físico, e lançou-o para trás. O espírito soltou um gemido de raiva que fez os ouvidos de Tacenda doerem, levando-a apertar as mãos sobre eles, gritando.



    O espírito parécia ser capaz de decidir se era físico ou não, pois, embora Crunchgnar pudesse tê-lo tocado inicialmente, o espírito se desvanecia e flutuava como cortinas esvoaçantes. Ele repetia uma versão distorcida de “muito obrigado” várias vezes, cada uma mais errada do que a anterior.



    O espírito fluiu na direção de Davriel, escurecendo e tornando-se menos transparente. Crunchgnar sacou uma espada de sua bainha e o fraco brilho de poder da arma fez o espírito hesitar.



    Então Davriel, com fumaça vermelha preenchendo seus olhos, tornando-os carmesim, ergueu-se e soltou um jato de chamas de suas mãos, um calor tão intenso que Tacenda gritou. O espírito guinchou na mesma medida do centro da imolação, depois encolheu-se, murchando antes de queimar por inteiro.



    Ele deixou uma cicatriz chamuscada e enegrecida no tapete e na estante de livros atrás. Tacenda olhou boquiaberta, segurando o braço, que ainda estava gelado onde havia sido cortado.



    A fumaça vermelha desapareceu dos olhos de Davriel. Ele fez uma careta, como se usar a magia lhe causasse dor. Ele esfregou as têmporas e balançou a cabeça. “Bem, isso foi emocionante. Obrigado, Crunchgnar, pela intervenção oportuna.”



    “Eu terei a sua alma, diabolista,” vociferou Crunchgnar . “Eu não esqueci do nosso acordo.”



    Davriel se aproximou e chutou o tapete queimado. “Os fabricantes de tapetes viviam em sua aldeia?”



    “Mestra Gritich e sua famíllia,” disse Tacenda. “Sim”.



    “Droga,” disse Davriel. “Quero que você saiba, garota, que eu roubei a magia de fogo da mente de um piromante particularmente perigoso. Estava guardando-a para uma emergência.”



    “O cátaro…” Tacenda piscou. “Ele me atacou…”



    “Espíritos libertos ou geists, como você os chama, podem ser perigosos e imprevisíveis. A maioria esquece de si mesmos quando separados de seus corpos, retendo os mais fracos indícios de memória. O que você fez foi insensato e imprudente.”



    “Desculpe-me.” Ela desviou o olhar do tapete marcado, pressionando o braço contra o peito.



    “Ótimo. Fico feliz em ouvir isso.” Davriel acenou com a cabeça em direção a ela. “Miss Highwater, veja o que a menina pode lhe contar sobre esse impostor, então jogue-a na floresta. Diga aos diabos que eles poderão ficar com ela se ela tentar esgueirar-se por aqui novamente.”



    “Você não vai vasculhar a mente dela por talentos que você possa roubar?” disse Miss Highwater.



    “O fedor do Pântano está sobre ela toda,” disse Davriel. “Não, obrigado. Já tenho dores de cabeça suficientes no momento.”



    Um dos demônios, o encurvado que eles chamavam de Brerig, pegou Tacenda pelo braço e começou a tirá-la do quarto. Sua pele era surpreendentemente macia.



    Tacenda resistiu, tentando livrar-se das mãos do demônio. “Espere,” disse ela, “Minha viola de gamba!”



    Atrás deles, um diabo mexia no instrumento. Davriel acenou com um gesto improvisado e o diabo veio bamboleando, entregando a viola a ele.



    “Eu…” disse Tacenda. “Por favor. É tudo o que me resta.”



    “É um bom instrumento,” disse Davriel. “Deve vender pelo suficiente para comprar um novo tapete. Mas coopere com Miss Highwater, conte a ela tudo que sabe sobre esse impostor e deixarei que fique com ela. Você viu esse manto e a máscara pessoalmente?”



    “No,” disse Tacenda, murchando. “Eu sou… cega durante os dias. A benção do Pântano me amaldiçoou também, como pagamento pelas músicas que ele dá…”



    Davriel suspirou, depois fez um movimento de afugentar.



    Brerig puxou Tacenda pelo braço em direção à porta. “Venha,” disse o demônio. “Venha. Venha e irei te contar uma charada. Elas são divertidas. Venha.”



    Ela resistiu por mais um momento, então, quando Miss Highwater juntou-se a eles, finalmente cedeu ao estímulo surpreendentemente gentil de Brerig. Ela havia escapado da morte três vezes esta noite. Os Sussurradores. O Pântano. O Homem da Mansão.



    “Você não viu o impostor,” disse Miss Highwater, com uma caneta escura posicionada sobre seu livro-razão enquanto caminhava. “O que você viu de fato?”



    “Apenas corpos,” disse Tacenda. “Tantos corpos. Eu deveria habitar entre eles. Meu lugar é em um túmulo…”



    “Eles perderam a cor da pele?” perguntou Davriel de sua cadeira, ainda brincando com a viola dela. “Depois que eles foram pegos, tornaram-se pálidos ou acinzentados?”



    Tacenda parou ao lado da porta e os demônios não a forçaram a prosseguir.



    “Eles pareciam exatamente como eram quando vivos,” respondeu Tacenda. “Apenas azuis ao redor dos lábios. Seus membros enrijeceram e assim permaneceram por algumas horas, estranhamente rígidos, antes de finalmente amolecerem.”



    “Animação suspensa precedida por uma drenagem direta de alma,” disse Davriel distraidamente. “Provavelmente o resultado de algum aspirante a necromante colhendo almas. Bem, poderia ser pior. Se Miss Highwater puder encontrar as almas, suponho que poderíamos restaurá-los antes que os corpos apodreçam. Então eu não teria que encomendar uma nova aldeia.”



    Tacenda sentiu um sobressalto. Ele acabou de dizer…



    “Restaurá-los?” perguntou Tacenda. “Você quer dizer trazê-los de volta à vida?“



    “Possivelmente,” disse ele. “Eu teria que ver os corpos para ter certeza. Mas, pela descrição, esse estado deve ser reversível e isso certamente seria mais fácil do que cultivar novos camponeses da maneira tradicional.”



    “Embora não seja tão divertido quanto”, observou Miss Highwater. “Venha, vamos parar de incomodar o Lorde Cane.”



    O demônio Brerig puxou o braço de Tacenda, mas algo profundo dentro dela, algo que ela supunha estar murcho e sem vida, agitou-se.



    Trazê-los de volta. Ela poderia trazê-los de volta?



    “Quanto tempo?” disse ela. “Quanto tempo nós temos?”



    “Você ainda está aqui?” perguntou Davriel.



    “Quanto tempo?”



    Crunchgnar deu um passo à frente, afastando Miss Highwater, com a espada fora da bainha e apontada para Tacenda.



    Então Tacenda começou a cantar.



    Embora ela pretendesse começar de forma moderada, aquela esperança, aquele calor, explodiu dela em uma nota pura, solitária e forte. Como o repique de um sino da manhã, saiu a primeira nota da Canção de Proteção.



    Os demônios e os diabos no quarto gritaram de dor, em uma harmonia afiada e extravagante. Brerig choramingava e Miss Highwater recuou com as mãos nos ouvidos. Mesmo Crunchgnar, com seus mais de dois metros de altura e terríveis chifres, tropeçou e titubeou. Os diabos espalharam-se com gritos coletivos de agonia.



    Sua viola, ainda nas mãos de Davriel, tocava a mesma nota: um tom exigente e implacável. Isso acontecia às vezes. Seus tambores faziam o mesmo.



    Ela continuou a música, cada nota mais alta que a anterior. Os três demônios se encolheram, gemendo em agonia, segurando suas cabeças. Davriel, no entanto, apenas empurrou o instrumento flutuante para o lado com um dedo, depois se levantou com um movimento deliberado.



    A canção não afetou Davriel. Ele… ele realmente era humano. Da mesma forma que muitas magias de proteção, as pessoas eram imunes.



    Davriel foi até Tacenda, que deixou sua canção morrer. Sua viola flutuou até o chão diante da cadeira de Davriel e os três demônios caíram bruscamente. Os gritos dos diabos ainda ecoavam nos outros aposentos.



    “A proteção do Pântano,” disse Davriel. “Uma bela demonstração. O que quer que tenha levado as pessoas da sua aldeia, obviamente, estava com medo de você, e é por isso que você ainda está viva.”



    “Quanto tempo?” disse ela. “Por quanto tempo durará o meu povo? Se eu pudesse encontrar suas almas…”



    “Depende,” disse Davriel. “A maioria das colheitas violentas de almas mata as vítimas imediatamente, frequentemente com feridas físicas. Peitorais explodindo e todo drama do tipo. Mas o que você descreveu soa mais como o resultado de uma projeção involuntária, onde a alma é afastada do corpo. Isso muitas vezes leva o corpo a uma breve hibernação catatônica.”



    “Como…”



    “Dois dias, três talvez,” disse Davriel. “Depois disso, a alma não reconhecerá o corpo como seu, e o corpo terá começado a se decompor de qualquer maneira.”



    Então os pais dela… os pais dela realmente se foram. Mortos há dez dias e retomados pelo Pântano. Mas sua irmã, Willia, está deitada sobre uma tábua no priorado. Ela não fora devolvida ao Pântano, pois adorava ao Anjo. Poderia ela ser salva? E Joan, a xilógrafa. O pequeno Ahren e Victre…



    “Você tem que ajudá-los,” disse ela. “Você é o senhor deles.”



    Davriel deu de ombros.



    “Se você não o fizer,” disse Tacenda. “Eu irei… Eu…”



    “Me divirto ouvindo essa ameaça.”



    “Me certificarei de que você nunca mais consiga tirar outra soneca.”



    “Você verá que eu…” Ele parou. “O quê?”



    “Viajarei a Thraben,” disse Tacenda. “Irei a todas igrejas e cantarei para eles sobre o ‘necromante dos Acessos.’ Sei cantar mais do que a Canção de Proteção. Tenho outras músicas, com outras emoções. Farei com que eles o odeiem. O terrível Lorde Davriel Cane, o homem que roubou as almas de uma aldeia inteira.”



    “Você não se atreveria.”



    “Eu me derramarei em lágrimas,” ameaçou ela, “diante de cada pretendente a cavaleiro, herói aventureiro e caçador e em busca de reputação. Enviarei um fluxo interminável de campeões justiceiros aos Acessos, até que eles entupam as pontes em sua ânsia de virem aqui incomodá-lo.”



    “Eu poderia simplesmente matá-la.”



    “E minha alma permanecerá!” disse Tacenda. “Como um fantasma pesaroso. A menina das florestas, cuja família inteira foi tomada por Davriel dos Acessos! Cantarei baladas! Viva ou morta, os enviarei para perturbá-lo! E… e desenharei mapas para eles. E retratos do se rosto. E…”



    “Chega, garota,” disse Davriel. “Duvido que você teria a força de vontade para continuar esse esforço bobo como um geist.”



    Tacenda mordeu o lábio. Apesar de suas palavras, Davriel parecia preocupado. Irritado, em verdade, mas parecia — para este homem — ser o melhor que ela poderia esperar.



    “Você sabe que eles virão atrás de você,” disse Tacenda. “Mesmo se você me matar. Uma aldeia inteira? Os rumores vão se espalhar. Por décadas adiante, as pessoas continuarão a tentar te matar. Você provavelmente está certo quando diz que eu não poderia fazer muito para inspirar mais, mas duvido que precisaria fazer qualquer coisa. Pense no inconveniente que isso causará. No entanto, uma noite de trabalho leve poderia impedir tudo isso. Sem muito esforço. Apenas vá olhar os corpos dos caídos e tente descobrir o que pode ter roubado suas almas.”



    “Sua argumentação é estranhamente persuasiva, criança.” Ele suspirou. “Miss Highwater? Você está bem?”



    A mulher demônio ergueu-se do chão e balançou a cabeça, ainda parecendo atordoada pelos efeitos da Maldição de Proteção. “Bem o suficiente, creio eu,” disse ela.



    “Então… prepare a minha carruagem. Vamos visitar essa aldeia. Talvez possamos encontrar algum chá que tenham esquecido de entregar.”



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 4

    Children of the Nameless - Capítulo 4

    por MypCards em 23/12/2018 - 244 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 4: Davriel





    Davriel Cane — O Homem da Mansão — estava ficando muito cansado de pessoas tentando matá-lo.



    Qual era o sentido em mudar-se para um remanso tão longínquo se as pessoas continuariam a te incomodar de toda maneira? Davriel havia tornado extremamente difícil chegar a ele, mas esses tipos que se arvoram em arautos da justiça pareciam considerar tal fato um desafio extra.



    Você não terá essas preocupações depois que fizer uso de mim, disse a Entidade no fundo da mente de Davriel. Ela tinha uma voz sedosa e convidativa. Assim que estivermos confiantes em nosso poder, nenhum aventureiro simplório sequer pensará em nos desafiar.



    Davriel ignorou a voz. Conversar com a Entitade era raramente produtivo. Desde que ela curasse as suas feridas, Davriel não dava importância às promessas que sussurrava.



    Ele se acomodou em seu assento quando Crunchgnar chegou. A criatura alta e chifruda seria — para uma pessoa normal — “um demônio”. Este, obviamente, era um termo muito grosseiro. Os diabolistas peritos sabiam que os demônios pertenciam a diversas cepas — e seria um erro empregar o termo “raça” ou “linhagem” para demônios, visto que eles são normalmente criados já totalmente formados por meios mágicos, em vez de nascerem.



    Crunchgnar, por exemplo, era um demônio Hartmurt: um tipo de demônio alto e musculoso, sem cabelos, com feições inumanas e chifres que varriam a cabeça quase como uma crina. Uma rara cepa sem asas, os Hartmurts são resistentes, se curam rapidamente e tendem a ser combatentes habilidosos. De fato, Crunchgnar usava couro de guerreiro e tinha um par de espadas cruéis amarradas à cintura.



    O demônio era burro como uma porta. Felizmente, ele também era robusto. Seguindo algumas instruções de Miss Highwater, Crunchgnar espremeu-se para dentro do banheiro e pegou a garotinha assassina, carregando-a então para o quarto. Ele pegou a viola de suas costas e a colocou na cadeira de frente para Davriel. O demônio franziu a testa quando a forma rígida e congelada da garota não estava de acordo com o assento.



    Miss Highwater estava correta. Esta menina era diferente dos outros pretendentes a heróis que vinham matar Davriel. Ela era tão jovem. Catorze, quinze anos no máximo. Teria a igreja ficado sem adultos fisicamente capazes para enviar à morte?



    Em vez do habitual equipamento composto por armas pontiagudas e muitas fivelas, a criança vestia roupas de camponês — esfarrapada, ensanguentada, pálida. Ela parecia meio morta de fome, com círculos escuros profundos sob os olhos.



    Miss Highwater aproximou-se dele, levantando uma sobrancelha, enquanto Crunchgnar tentava forçar a menina a sentar-se — o que o feitiço de aprisionamento de Davriel ainda impedia. O demônio então grunhiu para si mesmo, fazendo o melhor que podia para amarrá-la no assento.



    Davriel bateu palmas, invocando um pequeno diabo de pele vermelha da sala de serviço. Ele veio trotando, carregando uma bandeja grande demais para si, precariamente arranjada com uma garrafa de Glurzer, uma safra local. O vinho docemente aromático fez cócegas no nariz de Davriel quando ele se serviu de uma taça.



    A criatura tagarelou com ele na língua recortada dos diabos locais.



    “Não.” disse Davriel em resposta, sorvendo o vinho. “Ainda não.”



    A criatura rosnou em aborrecimento, depois ergueu uma taça bem menor, que Davriel encheu de vinho. O diabo cambaleou, carregando a bandeja enquanto tentava beber seu vinho. É melhor que ele não derrame aquele Glurzer. Os diabos eram servos terríveis, mas cada um faz o que pode com aquilo que possui. Pelo menos, eles eram baratos e fáceis de enganar.



    Você terá muito mais, sussurrou a Entidade no fundo de sua mente. Basta você aproveitar.



    Crunchgnar finalmente recuou, cruzando os braços enormes. “Pronto. Está feito.” Ele amarrou a garota pela cintura, pés e pescoço à cadeira — embora ela ainda estivesse rígida como um tábua, acomodada inclinada na cadeira.



    “Bom o bastante”, disse Davriel. “Porém, você provavelmente deveria permanecer aqui quando eu soltá-la do aprisionamento, só por garantia.”



    “Você tem medo de uma coisa tão pequena?” Crunchgnar rosnou.



    “Pequenas coisas podem ser muito perigosas também, Crunchgnar”, disse Davriel. “Uma faca, por exemplo.”



    “Ou o seu cérebro, Crunchgnar,” observou Miss Highwater.



    Crunchgnar cruzou os braços, olhando para ela. “Você acha que me insulta. Mas eu sei que, no fundo, você realmente me teme.”



    “Oh, acredite, Crunchgnar,” disse ela. “Você vai descobrir que não há nada que eu tema mais que a estupidez.”



    Ele avançou, seus pés batendo ruidosamente no chão. Ele se aproximou de Miss Highwater, pairando sobre ela. “Eu vou destruir você assim que me apossar da alma dele. Você está se tornando fraca e preguiçosa que nem ele. Livros-razão e cifras? Bah! Quando foi a última vez que você se apoderou da alma de um homem?”



    “Eu tentei me apoderar da sua na outra noite,” retrucou ela, “mas encontrei apenas a alma de um rato, o que eu deveria ter previsto, considerando…”



    “Já chega,” disse Davriel. “Os dois.”



    Eles trocaram olhares, mas pararam. Davriel entrelaçou os dedos das mãos diante de si, estudando a menina camponesa. Ela havia parado de cantar, mas aquela música… Ela tinha uma força estranha, um poder que ele não esperava. Terá sido aquilo o toque do Pântano sobre ela? Ela era, sem dúvida, dos Acessos, provavelmente Verlasen.



    Ele cancelou o feitiço de aprisionamento. A jovem imediatamente relaxou em seu assento, ofegando. Então, ela envolveu seus braços em volta de si mesma e estremeceu, como se estivesse com frio — feitiços de aprisionamento costumavam ter esse efeito. Seus longos cabelos castanhos cobriam muito de seu rosto quando ela olhou para ele. As cordas de Crunchgnar, agora frouxas, não tinham muita utilidade. Eles amarraram seus pés à cadeira, mas não a impediram de mover os braços ou a cabeça.



    “Termine com isso de uma vez, monstro,” sibilou a menina para ele. “Não brinque comigo. Mate-me.”



    “Você tem alguma preferência?” disse Davriel. “Machadada no pescoço? Cozida nos fornos? Diabos foram sugeridos, mas preocupa-me que você seja muito magra para nutri-los adequadamente.”



    “Você zomba de mim.”



    “Estou apenas frustrado,” disse ele, levantando-se da cadeira para começar a andar. “O que há de errado com vocês aldeões? A vida de vocês não é terrível o suficiente com esses espíritos, feras e tudo o mais que existe nas florestas? Vocês têm que vir aqui e incitar a minha ira também?”



    A garota se encolheu na cadeira.



    “Tudo o que eu quero”, disse Davriel, “é ficar em paz. Vocês só precisam fazer o trabalho de vocês! Garantir a minha provisão de chá.”



    “E camisas,” disse Miss Highwater, conferindo seu livro-razão, “e comida. E impostos ocasionais. E móveis. E tapetes.”



    “E, bem, sim”, disse Davriel. “Algumas poucas oferendas, condizentes com a minha posição. Mas não é tão ruim. Uma relação igualmente benéfica para todos os envolvidos. Eu recebo um lugar tranquilo e isolado para tocar a minha vida. Vocês ganham um senhor que não bebe o sangue de vocês ou se deleita com a carne de virgens a cada lua cheia.



    Pensei que, em Innistrad, ter um senhor que ignora vocês a maior parte do tempo seria uma novidade!”



    “E o que foi que a Aldeia de Verlasen fez para ofendê-lo?” sussurrou a menina. “Suas meias foram feitas muito apertadas? Alguma de suas maçãs estava bichada? Que ofensa insignificante o levou a finalmente nos notar?”



    “Bah,” disse Davriel, entre um passo e outro. “Não me importo com vocês. Porém, vocês continuam a enviar esses caçadores para virem me atacar! Foram quantos nas últimas duas semanas, Miss Highwater? Quatro?”



    “Quatro grupos,” disse ela, virando uma página do livro-razão. “Com uma média de três cátaros ou caçadores em cada um.”



    “Pulando para fora da minha adega,” disse Davriel, acenando aborrecido, “ou arrombando a porta da frente. Aqueles gêmeos com os tridentes quebraram minha janela da sala de jantar — aquela feita de vitrais antigos. Alguém continua falando de mim para eles e, por isso, eles continuam vindo para me matar. Isso está se tornando extremamente inconveniente. O que mais posso fazer para vocês, aldeões, calarem a boca?”



    “Isso não deveria ser um problema,” sussurrou a garota, “agora que você assassinou todos nós.”



    “Sim, bem, isso não é …” Ele interrompeu a fala, parando no lugar em que estava. “Espere. ‘Assassinou todos nós’?”



    “Por que fingir ignorância?” disse a menina. “Todos sabemos o que você fez. Você foi visto quando levou meus pais de sua carroça há dez dias. Então seus geists pegaram aqueles mercadores e outros que se aproximaram demais do limite da aldeia. Minha irmã dois dias atrás. E então, hoje…”



    Ela fechou os olhos.



    “Estão todos mortos”, ela sussurrou. “Todos menos eu. Mortos e frios, com olhos de mármore. Eu segurei a minha irmã depois que eles a encontraram e ela estava… flácida. Como um saco de grãos do celeiro. Ela estava treinando para tornar-se sacerdotisa, mas morreu como os demais. O Pântano receberá os corpos do meu povo, mas não irá banquetear-se, pois suas almas se foram. Levadas, como o calor roubado diretamente do fogo, deixando apenas cinzas.”



    Davriel olhou na direção de Miss Highwater, que inclinou a cabeça.



    “Todos,” disse Miss Highwater. “Todos da Aldeia de Verlasen?”



    A garota assentiu.



    “Verlasen?” perguntou Davriel. “É aquela onde…”



    “Você obtém o seu chá de pó de salgueiro?” perguntou Miss Highwater. “Sim.”



    Maldição. O chá, um leve sedativo, era o seu favorito. Ele precisava dele para dormir nos dias em que suas lembranças ficavam pesadas demais para ele.



    “É lá que os alfaiates de camisas vivem,” disse Miss Highwater. “Viviam. Creio que nós antecipamos esse problema, então.”



    “Todos os aldeões?”disse Davriel, virando-se para a garota. “Todos eles?”



    Ela assentiu.



    “Fogos do inferno!” disse ele. “Você sabe quanto tempo leva para substituir essas coisas? Pelo menos dezesseis anos até tornarem-se produtivos!”



    “Você tem mais duas aldeias,” observou Miss Highwater. “Suponho que poderia ser pior.”



    “Verlasen era a minha favorita.”



    “Você não seria capaz de diferenciar uma da outra nem mesmo se a sua vida dependesse disso. Mas isso terá um forte impacto em seus rendimentos e no registros de lucros e perdas da próxima estação.” Ele fez uma anotação. “Além disso, estamos sem chá.”



    “Desastre,” disse Davriel, caindo para trás em sua cadeira. “Já se passaram dez dias desde a primeira dessas mortes?”



    Ela balançou a cabeça lentamente, assentindo. “Meus pais. Você os conhecia; eles fizeram as suas camisas. Mas… Você já sabe sobre as suas mortes. Você os matou.”



    “Claro que não,” disse ele. “Assassinar aldeões? Eu próprio? Isso soa como uma enorme quantidade de trabalho. Eu tenho pessoas — bem, seres que são vagamente moldados como pessoas — para fazer esse tipo de coisa para mim.”



    Davriel esfregou a testa. Não é de admirar que os caçadores estivessem o incomodando tanto ultimamente. Nada atraía candidatos a herói mais do que notícias de um lorde misterioso abusando de seus camponeses.



    Fogos do inferno! Ele deveria ter sido capaz de ocultar-se na obscuridade [aqui]. Ele havia se mudado para [aqui] anos atrás, finalmente estabelecendo-se nos Acessos, o local mais remoto em um plano igualmente remoto. [Aqui], consorciar com demônios era apenas uma pequena excentricidade.



    Assim pensava ele. E se… e se as notícias se espalhassem para os ouvidos errados? Os que escutam histórias sobre um homem com a sua descrição, um homem que poderia roubar feitiços das mentes dos outros?



    O tempo está se esgotando, disse a Entidade no fundo de sua mente. Eles irão te encontrar. E eles irão te destruir. Precisamos reunir nosso poder e nos prepararmos.



    Ficarei bem, respondeu Davriel, pensando diretamente na Entidade. Eu não preciso de você.



    Mentira, ela respondeu. Eu posso ler seus pensamentos. Você sabe que um dia precisará de mim novamente.



    Por um instante, Davriel sentiu cheiro de fumaça. Ouviu gritos. Por um instante, ele estava de pé diante de multidões encolhidas e era adorado.



    Essas memórias eram, de alguma forma, mais reais do que deveriam ser. A Entidade conseguia brincar com seus sentidos, mas ele afirmou sua determinação e afastou o seu toque, banindo as sensações.



    “Miss Highwater,” disse ele.



    “Sim?”



    “Ainda temos a alma daquele cavaleiro que me atacou há alguns dias? Aquele de quem roubei o vínculo que utilizei para aprisionar a garota?”



    “Você prometeu dar a alma do cavaleiro aos diabos,” disse ela, virando algumas páginas em seu livro-razão. “Se eles fossem bonzinhos”



    “Eles foram bonzinhos?”



    “Eles são diabos. Claro que não foram bonzinhos.”



    “Certo. Busque a alma para mim. Ah, e uma cabeça, se tivermos uma por aí.



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Capítulo 3

    Children of the Nameless - Capítulo 3

    por MypCards em 20/12/2018 - 250 Visualizações, 0 Comentários.

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    Capítulo 3: Tacenda





    O Homem da Mansão havia chegado dois anos atrás, logo depois que Tacenda descobriu a Canção de Proteção. Ele havia imediatamente removido o antigo governante dos Acessos — uma criatura conhecida como Lorde Vaast. Ninguém derramou lágrimas pela aparente morte de Vaast. Com frequência, ele tomava muito sangue das jovens mulheres que visitava à noite.



    Pelo menos ele nunca tirou a vida de uma aldeia inteira em um único dia.



    Tacenda agachou-se dentro do perímetro do terreno da mansão, olhando para o imponente edifício. Uma luz muito vermelha brilhava das janelas. O Homem da Mansão era conhecido por consorciar com demônios; de fato, a estrada de acesso pela frente era alinhada por estátuas aladas que — enquanto ela observada suas formas sombreadas — ocasionalmente se contorciam.



    Ela agarrou o furador de gelo, sua viola estava amarrada às suas costas. A parte de trás do prédio teria uma entrada para os criados; seu pai falou sobre ter entregado camisas ali.



    Sentindo-se exposta, Tacenda deixou a floresta e atravessou o gramado. O luar parecia pomposo e brilhante. Será que o sol podia mesmo ser mais brilhante que ele? Ela alcançou o lado da mansão, seu coração trovejando em seu peito, o furador de gelo segurado como um punhal. Ela encostou-se na parede de madeira, depois avançou rumo ao sul. Um brilho veio daquela direção. E isso seriam… vozes?



    Ela chegou aos fundos do edifício, depois olhou em volta, avistando uma porta aberta. A entrada dos criados, derramando luz ao longo do gramado em um retângulo. Ela não conseguia respirar — um grupo de pequenas criaturas de pele vermelha tagarelava ali, do lado de fora da porta. Da altura de sua cintura, os disformes demônios possuíam longas caudas e não usavam roupas. Eles cavavam em um barril de maçãs podres, atirando as frutas uns nos outros.



    Aquelas maçãs… seriam da colheita do pomar do mês passado, enviadas ao Homem da Mansão conforme ordenado. Os aldeões tinham fornecido a ele as melhores frutas, mas — a julgar pelo quanto o barril estava cheio — os frutos haviam sido deixados para apodrecer.



    Tacenda recuou, escondendo-se, respirando rapidamente, sua mão tremendo. Ela fechou firmemente os olhos e ouviu as criaturas tagarelando em sua linguagem gutural e distorcida. Ela costumava escutar sons terríveis saindo da floresta, mas ver tais criaturas diretamente era outra coisa.



    Ela forçou a se mover, tentando abrir algumas janelas ao longo da parede. Infelizmente, todas estavam trancadas e quebrar uma delas chamaria atenção. Restavam os portões da frente ou a porta com as criaturas nos fundos.



    Ela rastejou de volta para o canto e se forçou a olhar para aquelas coisas novamente. Os quatro brigavam por uma maçã mais ou menos inteira. Tacenda respirou fundo.



    E cantou.



    A Canção de Proteção. Ela a manteve suave, apenas um calmo canto em voz baixa — embora sua viola de gamba tenha respondido à música, vibrando como costumava acontecer caso ela não começasse a tocá-la enquanto cantava.



    A música fez o calor subir dentro dela, paixão e dor juntos. A música surgia mais através dela do que para fora dela. Esta noite, a canção parecia particularmente vibrante. Viva. Mais do que ela estava.



    Os demônios congelaram e seus olhos negros arregalaram como se estivessem ofuscados. Eles se inclinaram para trás com os lábios entreabertos, expondo dentes bastante afiados. Então, afortunadamente, eles se afastaram guinchando baixinho buscando a floresta.



    A canção queria crescer, queria explodir mais alto de dentro dela. Tacenda a cortou em vez disso, depois expirou, ofegando baixinho. A música a fez sentir. A retirou das águas, encharcada e fria e, de alguma forma, soprou vida para dentro dela. Mas como ela poderia sentir alguma coisa, exceto raiva e tristeza?



    Concentre-se na tarefa a ser feita. Com o furador de gelo empunhado diante dela, ela deslizou através das portas dos fundos da mansão e entrou em um corredor que parecia muito acolhedor, com seu tapete grosso e o ornamentado acabamento em madeira. Esta era a casa de um monstro. Ela não confiou em sua fachada amigável mais do que confiaria em uma garotinha encontrada no meio da floresta, sorrindo e prometendo tesouros.



    Passos fizeram o assoalho ranger em uma sala próxima. Certa de que algum horror iria aparecer e agarrá-la, Tacenda subiu os degraus da escada próxima rumo ao segundo andar. De fato, logo depois que ela se acalmou, alguma coisa com pele cinza escura passou pelo corredor. Os enormes chifres da criatura escovavam o teto e seus passos eram pesados.



    Aflita, Tacenda o observou inspecionando a área do lado de fora da porta dos fundos. Ele havia ouvido — ou talvez apenas sentido — a sua música. Ela tinha que sair de vista. Ela esgueirou-se para o primeiro aposento que encontrou no segundo andar: um quarto de dormir, a julgar pelo dossel banhado pelo luar ao lado da janela.



    Ela atravessou o quarto até uma porta ao lado, então entrou em um luxuoso banheiro, com uma banheira que poderia servir a uma família inteira. Ela fechou a porta, envolvendo-se em uma espécie de escuridão comum. Uma que ela quase achou acolhedora. Familiar, ao menos.



    Aqui, a tensão do momento finalmente a sobrepujou. Ela sentou-se em um banquinho em meio à escuridão com o furador de gelo apoiado em seu peito, sua mão tremendo. Sua viola começou a vibrar suavemente em suas costas — e então ela percebeu que havia começado a cantarolar para tentar acalmar-se, parando abruptamente.



    Em vez disso, ela tateou procurando o pingente de sua irmã, que ela havia tomado antes de entregar o corpo de Willia aos sacerdotes.



    Willia confiava nos anjos. Ela sempre fora a mais forte das duas, a guerreira. Ela deveria estar viva em vez de Tacenda. Willia teria tido uma chance real de matar o Homem da Mansão.



    Elas sempre contaram uma com a outra. Durante os dias, Willia encorajava Tacenda, conduzindo-a aos campos para cantar para os trabalhadores. À noite, Tacenda cantava enquanto Willia estremecia. Juntas, elas era uma só alma. E agora, Tacenda teria que tenta viver sozinha?



    Vozes.



    Tacenda levantou-se de forma abrupta na escuridão. Ela podia ouvir vozes aproximando-se — uma delas ríspida, autoritária. Ela conhecia aquela voz. Ela tinha ouvido-a quando o Homem da Mansão havia vindo — envolto em seu manto e máscara — reclamar a respeito de uma entrega de camisas feita por seu pai há dois meses.



    Passos ressoaram nas tábuas do lado de fora, o rangido de madeira velha e cansada. Tacenda se levantou atabalhoadamente e posicionou-se logo na entrada da porta. Uma onda de pânico percorreu-a quando a porta se abriu, derramando luz no banheiro. E então…



    Então paz… Era chegada a hora.



    Vingança.



    Ela pulou para fora das sombras e ergueu a sua arma improvisada contra o Homem: uma figura dominadora com um bigode de lápis, cabelo escuro penteado para trás e um terno preto. O furador de gelo fez um barulho satisfatório quando ela bateu com ele diretamente no lado esquerdo do seu peito, bem ao lado de sua gravata violeta. O furador moeu um osso ao penetrar profundamente.



    O Homem congelou. Ela parecia ter realmente o surpreendido, a julgar pelo olhar de choque em seu rosto. Seus lábios se separaram, mas ele não se moveu.



    Será que ela… será que ela teria acertado seu coração? Será que ela realmente conseguiu…



    “Miss Highwater!” o Homem chamou por cima do ombro. “Há uma camponesa no meu banheiro!”



    “O que ela quer?” uma voz feminina chamou de outro aposento.



    “Ela me apunhalou com o que parece ser um furador de gelo!” O homem empurrou Tacenda de volta para o banheiro, depois arrancou o furador de si. O comprimento brilhava com seu sangue. “Um furador de gelo enferrujado!”



    “Ótimo!”  disse a voz. “Pergunte quanto devo a ela!”



    Tacenda reuniu sua coragem — sua fúria — e endireitou-se. “Vim atrás de vingança!” gritou ela. “Você deveria saber que eu viria, depois que você…”



    “Ah, cale-se,” disse ele, soando mais incomodado do que com raiva. Seus olhos nublaram-se brevemente, como se estivessem se enchendo de fumaça azul.



    Tacenda tentou avançar contra ele, mas se viu magicamente congelada no lugar. Ela fez força, mas não conseguiu fazer mais do que piscar um olho. Sua confiança evaporou na mesma hora. Ela sempre soube que vir aqui seria suicídio. Ela esperava obter algum tipo de vingança, mas ele nem parecia ter sentido dor pelo ferimento. Ele jogou a jaqueta sobre uma cadeira no quarto, depois cutucou a pequena seção ensanguentada de sua camisa branca de babados.



    A mulher que tinha falado mais cedo finalmente entrou no quarto… e chamar aquilo de mulher seria um erro. A criatura vestia roupas humanas — uma jaqueta cinza justa sobre uma saia simples na altura do joelho — e usava os cabelos pretos em um coque. Mas ela tinha a pele acinzentada e olhos vermelhos escuros, com pequenos chifres espreitando através de seus cabelos. Outro dos servos demoníacos do Homem.



    O demônio enfiou um livro sob o braço e caminhou para dar uma olhada em Tacenda. Mais uma vez, Tacenda tentou lutar, mas não conseguiu sair da postura anterior — de pé, desafiando o Homem.



    “Curioso,” disse a mulher demônio. “Ela não pode ter mais que dezesseis anos. Mais nova que maioria dos seus pretensos assassinos.”



    O Homem cutucou sua ferida novamente. “Parece-me, Miss Highwater, que você não está tratando esta situação com a devida gravidade que ela merece. Minha camisa está arruinada.”



    “Providenciaremos outra para você.”



    “Esta era a minha favorita.”



    “Você tem trinta e sete exatamente iguais a esta. Você não conseguiria diferenciar umas das outras nem mesmo se a sua vida dependesse disso.”



    “Essa não é a questão.” Ele hesitou. “… Trinta e sete? Isso é um pouco excessivo, mesmo para mim.”



    “Você me pediu para abastecê-lo devidamente caso o alfaiate fosse devorado.” A mulher demônio gesticulou na direção da Tacenda. “O que devo fazer com a criança?”



    A respiração de Tacenda ficou presa. Ela ainda conseguia respirar, embora seus olhos estivessem paralisados abertos, olhando para frente. Ela mal conseguia distinguir o Homem através da porta do banheiro quando ele se deixou cair em uma cadeira no quarto.



    “Incinere-a ou algo do tipo”, disse ele apanhando um livro. “Alimente os demônios com ela, talvez. Eles têm me implorado por carne viva.”



    Devorada vida?



    Não imagine isso. Não pense. Tacenda tentou se concentrar em sua respiração.



    A mulher demônio — Miss Highwater — encostou-se à porta do banheiro de braços cruzados. “Ela parece ter passado pelo inferno. E não necessariamente pelas partes agradáveis.”



    “Existem partes agradáveis no inferno?” perguntou o Homem.



    “Depende do quão quente você goste do seu magma. Olhe para aquele vestido ensanguentado, rasgado e coberto de sujeira. Não há algo nela que lhe pareça estranho?”



    “Suja e ensanguentada,” disse ele. “Não é assim que os camponeses normalmente se parecem?”



    Miss Highwater olhou por cima do ombro.



    “Eu não acompanho as modas locais”, disse o homem da sua  cadeira. “Sei eles que gostam muito de fivelas. E colarinhos. Juro que outro dia vi um camarada com uma colarinho tão alto que seu chapéu repousava sobre ele, em vez de tocar a sua cabeça…”



    “Davriel,” disse Miss Highwater. “Estou falando sério.”



    “Eu também. Ele tinha fivelas em seus braços.” O Homem ergueu o braço esquerdo, gesticulando incredulamente. “Apenas envolvendo a parte superior do seu braço. Nenhum propósito. Acho que as pessoas estão preocupadas de que suas roupas escorregarão se não estiverem presas no lugar.”



    Tacenda suportou o diálogo em silêncio. A conversa deles era estranha, mas também tão desdenhosa. Ela realmente não era nada além de um inconveniente para eles, não é verdade?



    Ainda assim, quanto mais tempo passassem discutindo, mais demoraria para que alimentassem os demônios com Tacenda. Ela não conseguia evitar imaginar a experiência, permanecendo imóvel enquanto as criaturas brigavam por ela como fizeram com as maçãs. Até que, finalmente, começariam a banquetear-se com a sua carne —a dor aguda e real, embora ela fosse incapaz de gritar…



    Respire. Apenas concentre-se em respirar.



    Inspire profundamente, expire profundamente. Até mesmo os seus lábios estavam paralisados — sua língua e garganta como se fossem pedras — mas talvez… com um esforço…



    Ela respirou fundo, então cantarolou uma suave — mas pura — nota sussurrada. Sua viola respondeu, as cordas vibrando em harmonia.



    O Homem da Mansão ergueu-se em um movimento brusco.



    Canção de Proteção. Cante a Canção de Proteção! Ela tentou, mas todo o seu esforço resultou em nada mais que um murmúrio silencioso, e não parecia incomodar o demônio ou seu mestre.



    “Chame Crunchgnar,” disse o Homem finalmente. “Faremos ele amarrar a assassina e então fazê-la explicar quem a mandou aqui.”



    Continua (…)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • Children of the Nameless - Uma novela Magic: the Gathering

    Children of the Nameless - Uma novela Magic: the Gathering

    por MypCards em 18/12/2018 - 371 Visualizações, 0 Comentários.

    Acesso rápido:





    Brandon Sanderson é mais conhecido pelo universo Cosmere, onde estão situadas as histórias de Mistborn The Stormlight Archive, e por seu trabalho em finalizar a saga A Roda do Tempo. Porém, quem acompanha com mais afinco a trajetória do escritor, sabe que ele é um apaixonado jogador do card game Magic: the Gathering. Não foi à toa que a Wizards of the Coast propôs que ele escrevesse uma novela situada no universo do jogo, o que ele prontamente aceitou.





    Children of the Nameless (Filhos do Sem Nome) é o título deste primeiro contato de Sanderson com a história por trás do multiverso repleto de magos, criaturas, terras e artefatos mágicos do mais antigo jogo de cartas colecionáveis.



    O Multiverso



    O multiverso de Magic: the Gathering é composto por diversos planos (algo como mundos) separados pelo Éter. Esses planos podem ser naturais ou artificiais. Alguns raros indivíduos, quando expostos a situações extremas, podem despertar em si uma fagulha. Essa fagulha é o desencadear do processo que os fazem ascender à condição de planeswalkers (planinautas).



    Os planeswalkers possuem habilidades mágicas poderosíssimas, sendo capazes de transitar entre os diversos planos do multiverso. Em Children of the Nameless, Sanderson introduz Davriel Cane, um planeswalker concebido pelo próprio autor em conjunto com a Wizards. A história se passa no plano de Innistrad, uma terra sombria, cheia de lobisomens, vampiros, demônios e fantasmas.



    A História



    Sanderson concedeu uma entrevista ao site io9, falando sobre a protagonista Tacenda, que possui poderes mágicos, mas tem que enfrentar a sua própria fraqueza para fazer bom uso do sem dom. É através dela que a maior parte da história é experimentada.



    Conhecido pelos seus sistemas de magia bem elaborados. Como era de se esperar, achou bastante interessante desenvolver a forma como a magia é conjurada em Magic: the Gathering:




    Estou sempre ansioso em pôr as minhas mãos em um novo sistema de magia, vendo como posso dobrá-lo, brincar com ele e abordá-lo a partir de direções inesperadas.




    Em uma outra entrevista, concedida à Wizards, Sanderson revelou que já possuía a história na cabeça há anos. Sentiu-se muito satisfeito em escrevê-la, pois a empresa lhe concedeu total liberdade para criá-la. Ele afirmou que a disponibilidade de numerosas ilustrações e da história pré-existente para o plano o auxiliou no processo. No entanto, teve todo o cuidado de fazer as coisas ao seu modo. O escritor concluiu a entrevista dizendo que gostaria de escrever outras histórias para a franquia.



    Sinopse




    Desde o dia em que nasceu, Tacenda tem sido tanto abençoada quanto amaldiçoada. Quando o seu feitiço de proteção falha durante a noite e a sua aldeia em Kessig é atacada, ela busca vingança contra quem acredita ser o responsável: o pactuante com demônios Lorde da Mansão.




    e-book completo foi disponibilizado gratuitamente (em inglês) pela Wizards of the Coast. Você poderá baixá-lo em formato EPUB clicando aqui ou em PDF neste link.



    Prólogo



    Haviam dois tipos de escuridão e Tacenda temia o segundo muito mais do que o primeiro.



    A primeira escuridão era uma escuridão comum. A escuridão das sombras, onde a luz esforçava-se para alcançar. A escuridão de uma porta de armário, rachada, ou do antigo galpão perto da floresta. Essa primeira escuridão era a escuridão do entardecer, que infiltrava-se nas casas quando a noite chegava, como um visitante indesejável que você não possui escolha senão deixá-lo entrar.



    A primeira escuridão tinha os seus perigos, especialmente nesta terra onde as sombras respiravam e coisas sombrias uivavam à noite. Mas foi essa segunda escuridão — a que vinha sobre Tacenda todas as manhãs — que ela realmente temia. Sua cegueira estava ligada diretamente ao nascer do sol; ao primeiro raio de luz, sua visão desaparecia. Então, a segunda escuridão se apossava dela: um puro, inescapável negrume. Apesar de todas as garantias tanto dos seus pais quanto dos sacerdotes, ela sabia que algo terrível a observava daquela escuridão.



    Sua irmã gêmea, Willia, a entendia. A maldição de Willia era o inverso da de Tacenda — Willia enxergava durante o dia, mas era capturada pela segunda escuridão todas as noites. Nunca houve um momento no qual ambas pudessem enxergar ao mesmo tempo. Desta forma, ainda que gêmeas, as garotas nunca puderam olhar nos olhos uma da outra.



    Enquanto crescia, Tacenda tentou banir o medo dessa segunda escuridão aprendendo a tocar música. Ela disse a si mesma que, pelo menos, ainda podia ouvir. De fato, sendo cega, ela sentia que conseguia ouvir melhor a música natural da terra. O triturar de seixos sob os passos. Os vibrantes tremores das risadas quando uma criança passava por seu assento no centro da cidade. Às vezes, Tacenda até sentia que podia ouvir o alongamento de árvores antigas enquanto cresciam — um som como o torcer de uma corda — acompanhando pelo gentil suspirar de suas folhas estabelecidas.



    Ela desejava poder ver o sol, ao menos uma vez. Uma bola de fogo gigante, flamejante e ardente no céu, mais brilhante do que a lua? Ela podia sentir o seu calor intenso em sua pele, por isso sabia que ele era real, mas como será que é para os outros viverem as suas vidas, vendo aquela incrível fogueira no céu caindo sobre eles?



    O povo da aldeia soube sobre as maldições inversas das meninas e as consideraram marcadas. Foi o toque do Pântano sobre elas, sussurravam as pessoas. Algo bom: significa que as gêmeas foram abençoadas.



    Tacenda tinha dificuldades em sentir que isso era uma bênção até o primeiro dia em que ela encontrou a sua primeira verdadeira canção. Quando ainda era criança, as pessoas da aldeia compraram para ela tambores de um mercador viajante, de forma que ela pudesse cantar para eles enquanto trabalhavam nos campos cheios de pó. Eles diziam que a escuridão entre as árvores parecia recuar quando ela cantava e afirmavam que o sol brilhava mais forte. Em um desses dias, Tacenda descobriu um poder dentro de si — e começou a cantar uma linda e reconfortante canção de alegria. De alguma forma, ela sabia que ela havia surgido do Pântano. Um dom concedido juntamente com a sua maldição de cegueira.



    Willia sussurrou que ela também sentia um poder dentro de si. Uma estranha e incrível força. Quando ela lutava com a espada — embora tivesse apenas doze anos — se igualava até a Barl, o ferreiro.



    Willia sempre foi a feroz das duas. Pelo menos durante o dia. À noite, quando a segunda escuridão se apossava dela, ela se estremecia com um medo que Tacenda conhecia intimamente. Durante aquelas longas noites, Tacenda cantava para a sua irmã, uma menina atemorizada — contra toda a razão — de que, desta vez, a luz não retornaria para ela.



    Foi em uma noite como essas, logo após o décimo terceiro aniversário das duas, que Tacenda descobriu uma outra canção. Surgiu para ela como uma coisa da floresta arranhando a porta, uivante e delirante. Feras às vezes vinham da floresta à noite, invadindo casas e raptando os moradores. Esse era o preço de viver nos Acessos; a terra cobrava um imposto sobre o sangue dos indivíduos. Havia pouco a fazer além de barrar a sua porta e rezar ao Pântano ou ao Anjo — dependendo da sua preferência — pela libertação.



    Mas, naquela noite — ouvindo a sua irmã em pânico e o choro dos seus pais — Tacenda foi em direção à besta quando esta entrou. Ela ouvira música na porta rachada e estilhaçada, na brisa que sacudia as árvores, em seus próprios batimentos cardíacos que trovejavam em seus ouvidos. Ela abriu sua boca e cantou algo novo. Uma música que fez a fera gritar de dor, batendo em retirada. Uma canção de desafio, uma canção de proteção.



    Na noite seguinte, a aldeia pediu-lhe para cantar a sua música na escuridão. A aldeia, outrora a menor das três nos Acessos, começou a inchar à medida que as pessoas escutaram sobre as suas gêmeas protetoras: a feroz guerreira que treinava durante o dia e a tranquila cantora que acalmava a noite.



    Por dois anos, a aldeia conhecera uma paz excepcional. Ninguém fora raptado durante a noite. Nenhuma fera uivara para a lua. O Pântano enviou guardiões para proteger seu povo. Ninguém notou muito quando um novo lorde, que referia a si mesmo como o Homem da Mansão, chegou para tomar o lugar do antigo morador. As disputas entre os lordes não eram algo para as pessoas comuns questionarem. De fato, esse novo Homem da Mansão parecia guardar os seus assuntos para si — uma melhoria em relação ao velho senhor. Assim eles pensaram.



    Então, assim que as gêmeas completaram quinze anos, tudo deu errado.



    Capítulo 1: Tacenda



    Os Sussurradores chegaram pouco antes do anoitecer e a canção de Tacenda não foi o suficiente para detê-los.



    Ela gritou o refrão da Canção de Proteção, escorregando suas mãos pelas cordas de sua viola de gamba — um presente de seus pais em seu décimo quarto aniversário.



    Seus pais foram mortos dez dias atrás pelas estranhas criaturas que agora atacavam a aldeia. Tacenda havia acabado de se recuperar daquela dor quando eles levaram Willia também. Agora, elas haviam vindo pela aldeia inteira.



    Uma vez que o sol ainda não havia se posto, ela não conseguia vê-los, mas podia ouvir suas fracas vozes sobrepostas umas às outras, enquanto fluíam ao redor de seu assento. Elas falavam em tons roucos — suaves, as palavras eram indistinguíveis — como um acompanhamento vocal à sua música.



    Ela redobrou seus esforços, depenando a sua viola com dedos crus, sentada em seu lugar habitual no centro da vila, próximo à cisterna borbulhante. A canção deveria ter sido o suficiente. Durante dois anos ela deteu todos os terrores e horrores. Os Sussurradores, no entanto, pareciam indiferentes enquanto fluíam ao redor de Tacenda. Logo, gritos humanos de terror surgiram como um horrendo coro ao redor dela.



    Tacenda tentou cantar mais alto, mas a sua voz estava ficando rouca. Ela tossiu em sua expiração seguinte. Engasgou, tremendo, lutando para—



    Algo frio roçou nela. A dor dos seus dedos tornou-se dormente e ela arquejou, saltando para trás, apertando a viola contra o peito. Tudo estava negro ao redor dela, mas ela conseguia escutar a coisa por perto, mil sussurros se sobrepondo, como páginas sendo passadas rapidamente, cada um tão silencioso como um suspiro de morte.



    Então, ela se afastou, ignorando-a. O resto dos aldeões não tiveram a mesma sorte. Eles haviam se trancado em suas casas — onde agora gritavam, rezavam e imploravam… até que, um por um, começaram a ficar em silêncio.



    “Tacenda!” Uma voz gritou por perto. “Tacenda! Socorro!”



    “Mirian?” A voz de Tacenda saiu como um áspero coaxar. De que direção veio aquele som? Tacenda girou na escuridão, chutando seu banquinho ruidosamente.



    “Tacenda!”



    Ali! Tacenda correu cuidadosamente seu pé ao longo do lado da cisterna para sentir suas pedras esculpidas e orientar-se, enfiando-se, então, na escuridão. Ela conhecia essa área muito bem e fazia anos desde a última vez que ela tropeçou ao cruzar a praça da aldeia. Mesmo assim, ela não conseguia evitar aquele pico de medo quando dava um passo à frente. Ali, naquela escuridão que ainda a aterrorizava.



    Caminharia ela dessa vez rumo ao vazio para nunca mais retornar? Continuaria ela a tropeçar em uma vasto, desconhecido negrume, alheio a todos os sentimentos e toques naturais?



    Em vez disso, ela alcançou a parede de uma casa, exatamente onde ela havia previsto que estaria. Ela tateou com dedos crus, tocando o peitoril da janela, sentindo os vasos de ervas de Mirian em uma fileira, um dos quais, em sua pressa, derrubou acidentalmente. Ele despedaçou-se nos paralelepípedos.



    “Mirian!” Tacenda gritou, tateando o seu caminho ao longo do muro. Outros gritos ainda ressoavam na aldeia — algumas pessoas clamando por ajuda, outros gritando em pânico. Juntos, os sons era uma tempestade, mas cada um parecia tão solitário.



    “Mirian?” Disse Tacenda. “Por que a sua porta está aberta? Mirian!”



    Tacenda tateou seu caminho para dentro da pequena casa e, então, tropeçou em um corpo. Com lágrimas molhando o seu rosto, Tacenda ajoelhou-se, ainda segurando a sua viola em uma mão. Com a outra, sentiu a saia de renda — bordada pelas próprias mãos de Mirian durante as noites quando, às vezes, ela permanecia acordada para fazer companhia a Tacenda. Ela moveu sua mão até o rosto da mulher.



    Mirian havia trazido chá para Tacenda há menos de uma hora. E agora… sua pele, de alguma maneira, já estava fria e seu corpo, rígido.



    Tacenda deixou cair a sua viola e se afastou, batendo as costas contra a parede e derrubando alguma coisa. O item derrubado quebrou-se ao atingir o chão, um som quase musical.



    Do lado de fora, os últimos gritos estavam se rendendo.



    “Levem-me! “Tacenda gritou, tateando seu caminho em volta da porta. Ela raspou o braço em um canto afiado, rasgando a sua saia, sangrando o seu antebraço. “Levem-me, como fizeram com a minha família!” Ela tropeçou na praça principal da aldeia novamente e, ao passo em que os gritos e o pânico se dissipavam, ela notou uma voz mais suave. Uma voz de criança.



    “Ahren?” Ela gritou. “É você?”



    Não. Pântano, ouça a minha prece. Por favor…



    “Ahren!” Tacenda seguiu o pequeno grito de pânico para outro prédio. A porta estava trancada, mas isso não parecia deter os Sussurradores. Eles eram algum tipo de espíritos ou geists.



    Tacenda tateou seu caminho até à janela, onde ela ouviu uma pequena mão batendo no vidro. “Ahren…” disse Tacenda, repousando a própria palma contra o vidro. Uma frieza passou por ela.



    “Tacenda!” gritou o garotinho com a voz abafada. “Por favor! Ela está vindo!”



    Ela respirou fundo e tentou, através de seus soluços, forçar uma música. Mas a Canção de Proteção não estava funcionando. Talvez… talvez outra coisa?



    “Simples… simples dias de sol quente…” ela começou, experimentando a sua antiga canção. A música alegre que ela cantava para sua irmã e para as pessoas da aldeia quando ainda era criança. “E a luz que acalma não irá fugir…”



    As palavras morreram em seus lábios. Como ela poderia cantar a respeito de um sol quente que ela não podia mais ver? Como ela poderia tentar acalmar, trazer alegria, quando as pessoas estavam morrendo ao seu redor?



    Aquela música … ela não se lembrava mais daquela música.



    O choro de Ahren parou quando um baque abafado soou dentro do prédio. Lá fora, os últimos gritos desapareceram. E a aldeia ficou em silêncio.



    Tacenda recuou da janela e, então, ouviu passos atrás dela.



    Passos. Os Sussurradores não fazem esse som.



    Ela girou em direção aos passos e ouviu o farfalhar de pano de alguém por perto, observando-a.



    “Eu posso ouvir você!” Tacenda gritou para a figura oculta. “Homem da Mansão! Eu posso ouvir os seus passos!”



    Ela escutou uma respiração. Mesmo os sons dos Sussurradores desapareceram. Mas, quem quer que estivesse ali, observando, permaneceu imóvel.



    “Leve-me!” Tacenda gritou para a segunda escuridão. “Leve-me de uma vez!”



    Os passos, em vez disso, recuaram. Uma brisa fria e solitária soprou pela aldeia. Tacenda sentu os últimos raios de sol se dissiparem e o ar gelando. Quando a noite caiu, a visão de Tacenda retornou. Ela piscou quando a escuridão recuou até tornar-se meras sombras, o céu ainda levemente quente da recente passagem do sol.  Como as brasas do pavio que se agarram — brevemente — ao pavio depois que o fogo se apaga.



    Tacenda deu por si de pé perto da cisterna, seu rosto uma bagunça de lágrimas e cabelos castanhos emaranhados. Sua preciosa viola de gamba no chão, com o acabamento em madeira riscado, na entrada da casa de Mirian.



    A aldeia estava silenciosa. Vazia, com a exceção de Tacenda e dos cadáveres.



    Capítulo 2: Tacenda



    Tacenda passou cerca de meia-hora invadindo casas, procurando em vão por sobreviventes. Mesmo aquelas famílias que tinham fugido para a igreja haviam perecido. Ela confrontou cadáver após cadáver. A luz havia desaparecido de seus olhos e o calor fora roubado de seu sangue.



    Seus pais sofreram o mesmo destino, dez dias antes. Eles, juntamente com Willia, estavam a caminho para entregar oferendas ao Pântano. O Homem da Mansão os interceptou e os atacou por razões incompreensíveis. Ele subjugou Willia, que — apesar de sua força incomum — não era páreo para a sua terrível magia.



    Willia havia escapado e corrido até o priorado em busca de ajuda. Quando ela retornou com soldados da igreja, havia encontrado apenas dois cadáveres. Seus pais, com os corpos já frios. Ainda naquela noite, os Sussurradores apareceram pela primeira vez — estranhos, retorcidos geists que mataram aqueles que se afastaram das aldeias. Testemunhas juraram que eles trabalhavam sob a direção do Homem da Mansão.



    Mesmo assim, Tacenda esperava por uma salvação. Esperava que o Pântano os protegesse. Até que o Homem da Mansão finalmente veio atrás de Willia, matando-a. E agora…



    E agora…



    Tacenda desabou à beira da porta da família Weamer, com a cabeça nas mãos, iluminada pelo distante luar. Os sacerdotes e WIllia desejavam dar aos seus pais um enterro na igreja, mas Tacenda insistiu que, em vez disso, seus corpos fossem devolvidos ao Pântano. Sacerdotes podiam ensinar sobre anjos o quanto quisessem, mas a maioria dos habitantes dos Acessos sabiam que pertenciam — em última instância — ao Pântano.



    Mas… quem poderia devolver todos esses cadáveres ao Pântano? A aldeia inteira?



    Subitamente, parecia que todos os olhos dos cadáveres a observavam. Com uma mão dolorida, Tacenda tateou o pingente de sua irmã, que ela usava em volta do pulso. O simples cordão de couro trazia um ícone de ferro do Anjo Sem Nome. Ele e sua viola eram as únicas coisas importantes que restavam em sua vida. Não havia nenhum motivo para permanecer aqui sob aqueles olhos mortos e vigilantes.



    Sentindo-se entorpecida, Tacenda pegou sua viola e começou a andar. Ela vagou para fora da cidade, passando pelo campo de terra onde o corpo de Willia foi encontrado. Naquele dia… bem, uma parte de Tacenda tornou-se fria. Talvez por isso, agora que aquilo havia acontecido, ela achava-se cansada demais para derramar lágrimas.



    Ela caminhou pela floresta sombria, um lugar onde nenhuma pessoa iria em sã consciência. Vagar através da floresta à noite era pedir por acidentes, um convite para se perder ou expor a si mesmo às presas de alguma fera à espreita. Mas por que isso importaria agora? Sua vida não tinha mais sentido e ela não poderia se perder se não tivesse planos de retornar.



    Ainda assim, quando fechou os olhos, ela pôde sentir onde a escuridão era mais pura. Era quase a mesma sensação daquela segunda escuridão que ela sentia. Alguns anos atrás, ela encontrou uma menina cega do condado, de passagem juntamente com mercadores. Willia estava tão animada em poder falar com alguém que pudesse entender a Segunda Escuridão — mas essa garota estava confusa com as suas descrições. Ela não temia a escuridão e não conseguia entender por que elas a temeriam.



    Foi então que Tacenda finalmente começou a compreender. A coisa que elas viram quando a maldição se apossou delas era algo mais profundo, estranho. Algo mais que mera cegueira.



    Ela seguiu em direção à escuridão, sua saia agarrando no mato, passando por árvores tão antigas que ela certamente teria perdido a conta dos anéis. Em muitas noites, essas árvores tinham sido o único público de Tacenda, e o vento em suas folhas, seu aplauso. O resto da aldeia dormia o sono intermitente e incerto de uma lâmpada com pouco óleo. Se você acordasse com falta de ar, pelo menos teria acordado vivo.



    O interminável dossel — perfurado aqui e ali pelo luar de aço — parecia ser o próprio céu. Erguido pelas colunas escuras das árvores, estendendo-se até o infinito, como reflexos de reflexos. Ela andou sem parar durante meia-hora, mas nada veio atrás dela. Talvez os monstros da floresta estivessem simplesmente chocados demais em ver uma garota solitária de quinze anos perambulando à noite.



    Em pouco tempo, ela conseguia sentir o cheiro do Pântano: podridão, musgo e coisas estagnadas. Ele não possuía um nome, mas os aldeões todos sabiam que pertenciam a ele. O Pântano era a proteção deles, pois até mesmo as coisas que aterrorizavam na escuridão da floresta — até mesmo pesadelos encarnados — mesmo eles temiam o Pântano.



    E, no entanto, ele falhou conosco esta noite.



    Tacenda emergiu em uma pequena clareira. Ela conhecia o som do Pântano como conhecia os próprios batimentos cardíacos — um rumor baixo, como o de uma panela fervente, pontuado por estalos ocasionais, reminiscente de um osso quebrando. Ela veio aqui muitas vezes com os pais, trazendo oferendas — mas nunca durante a noite.



    Ele era… menor do que ela imaginava. Uma lagoa perfeitamente circular, cheia de água escura. Embora o solo desta região da floresta fosse repleto de charcos e brejos traiçoeiros, esta lagoa específica sempre foi conhecida como “o Pântano” pelo seu povo.



    Tacenda aproximou-se até à beirada, lembrando o som suave — não como uma salpicada na água, mas como um suspiro — que os corpos dos seus pais fizeram quando foram deslizados para dentro d’água. Você não precisava atar pesos aos corpos quando alimentava o Pântano com eles. Os cadáveres afundavam e não retornavam.



    Ela hesitou na margem da lagoa. Ela nasceu para proteger seu povo, possuindo um poder de proteção que não era visto há gerações. Porém, ela falhou naquele dever esta noite e mesmo os Sussurradores não a queriam. Tudo o que restava era juntar-se aos seus pais. Deslizar sob aquelas águas tão calmas. Era o seu destino.



    Não, uma voz parecia sussurrar de dentro dela. Não, não foi para isso que te criei…



    Ela hesitou. Estaria ela louca agora também?



    “Ei!” disse uma voz atrás dela. “Ei, o que é isso?”



    Uma luz vistosa se espalhou e banhou a área ao redor do Pântano. Tacenda virou-se para encontrar um homem velho parado na porta da cabana do zelador. Ele segurava uma lanterna e possuía uma barba desalinhada, grisalha na maior parte — embora seus braços ainda fossem um pouco tonificados e sua postura era forte. Rom fora um caçador de lobisomens outrora, antes que ele tivesse vindo para os Acessos para viver no priorado.



    “Senhorita Tacenda? disse ele, quase caindo sobre si mesmo em seguida, lutando para alcançá-la. “Venha aqui agora! Afaste-se daí, criança! Qual o problema? Por que você não está em Verlasen, cantando?



    “Eu…” Estava atordoada em ver alguém vivo. Todos… Nem todos haviam morrido? “Eles vieram atrás de nós, Rom. Os Sussurradores…”



    Ele a puxou para longe do pântano em direção à cabana. Era um lugar seguro — devido às bençãos protetoras de um sacerdote. Obviamente, essas mesmas proteções não serviram aos aldeões esta noite. Ela não sabia mais o que era seguro e o que não era.



    Sacerdotes do priorado se revezavam aqui, nesta cabana, vigiando. Ultimamente, eles estavam tentando proibir as pessoas de trazer oferendas ao Pântano. Os sacerdotes não confiavam no Pântano e achavam que o povo dos Acessos precisava ser desiludido de sua antiga religião. Mas um forasteiro, mesmo um gentil como Rom, nunca poderia entender. O Pântano não era apenas a sua religião. Era a sua natureza.



    “O que é isto, criança?” perguntou Rom, colocando-a em um banquinho dentro da pequena cabana do zelador. “O que aconteceu?”



    “Eles se foram, Rom. Todos eles. Os geists que mataram meus pais, minha irmã… eles voltaram com força. Eles levaram todo mundo.”



    “Todos?” ele perguntou. “E quanto à Irmã Gurdenvala, na igreja?”



    Tacenda balançou a cabeça, sentindo-se entorpecida. “Os Sussurradores conseguiram passar pelas proteções.” Ela olhou pra ele. “O Homem da Mansão. Ele estava lá, Rom. Eu ouvi seus passos, sua respiração. Ele liderou os Sussurradores e levou todos embora, deixando nada além de olhos mortos e peles frias…”



    Rom ficou em silêncio. Então, rapidamente pegou uma espada ao lado da estreita cama da cabana e a amarrou. “Preciso ir atrás da prioresa. Se o Homem da Mansão for realmente… bem, ela saberá o que fazer. Vamos.”



    Ela balançou a cabeça. Sentia-se exausta. Não.



    Rom puxou-a, mas ela permaneceu sentada.



    “Fogos do inferno, criança,” disse ele. Ele olhou para fora pela porta, em direção ao Pântano — então estreitou os olhos. “As preces nesta cabana deverão protegê-la das piores coisas da floresta. Mas… se aqueles geists conseguiram entrar na igreja…”



    “De qualquer jeito, os Sussurradores não querem a mim.”



    “Fique longe do Pântano,” disse ele. “Prometa-me isso, pelo menos.”



    Ela assentiu, sentindo-se dormente.



    O idoso sacerdote guerreiro respirou fundo, depois acendeu uma vela antes de apanhar a sua lanterna e sair para a noite. Ele seguiria pela estrada, que o levaria para além de Verlasen. Então, veria a situação por ele mesmo.



    Todos se foram. Todos.



    Tacenda sentou-se, olhando o Pântano lá fora. Lentamente, começou a sentir algo novamente. Um calor subindo dentro dela. Uma fúria.



    Não haveria repercussões para o Homem da Mansão. Rom poderia reclamar à prioresa o quanto quisesse, mas o Homem — o novo lorde desta região — estava além da condenação. Os sacerdotes não tinham poder real para enfrentá-lo. Eles podem gritar um pouco, mas não ousariam fazer mais por medo de serem exterminados. O povo das duas aldeias irmãs de Verlasen virariam as suas cabeças para o lado e continuariam a vida, esperando que o Homem ficasse satisfeito com aqueles que já havia matado.



    Os perigos da floresta eram reais, mas os verdadeiros monstros desta terra sempre foram os lordes. Cheia de raiva, Tacenda começou a vasculhar a pequena cabana. Rom havia levado a única arma de verdade, mas ela encontrou um furador de gelo enferrujado na caixa de gelo velha. Serviria. Ela apagou a vela, depois retornou para o lado de fora, sob o luar.



    O Pântano emitiu ruídos de aprovação quando ela começou a seguir a estrada que levava à mansão. O Homem, sem dúvidas, a mataria. Ele iria torturá-la, utilizaria seu cadáver em algum experimento terrível, alimentaria demônios com a sua alma.



    Ela foi assim mesmo. Ela não iria atirar-se no Pântano. Esse não era o seu destino.



    Ela ao menos tentaria matar o Homem da Mansão.



    Continua(...)



    Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!


  • O que é Cubo?

    O que é Cubo?

    por Willowman em 08/12/2018 - 324 Visualizações, 1 Comentários.

    Nesse ano, o Magic completou 25 anos. Eu acredito que o principal motivo dessa longevidade é a incrível variedade de formas de jogar que existem. Para uns, o formato Padrão (T2) é o melhor jeito de jogar, outros preferem o Moderno (Modern), outros ainda só jogam Commander. Claro que, para muitos jogadores, a maneira mais divertida de jogar envolve o desafio do Magic Limitado, de sentar à mesa e navegar um Draft na tentativa de construir o melhor baralho possível.



    E é justamente sobre o Magic Limitado que eu quero falar nesse artigo. Para muitos, a experiência mais comum de Limitado é o formato Selado, que é o utilizado nos pré-lançamentos das coleções. O formato mais utilizado em torneios, no entanto, é o Booster Draft (clique aqui se você quiser uma explicação de como o Draft funciona).



    A Wizards dá grande importância aos formatos Limitados, e muitas das decisões sobre quais cartas vão fazer parte de uma coleção e em qual raridade é consequência da experiência de Draft que os designers querem criar. Ainda assim, abrir uma carta como Lua Alpina ou Lápide Silenciosa em um booster pode ser decepcionante. É aí que entra o Cubo.



    Falando de forma simples, um Cubo é uma expansão de Magic customizada, voltada para proporcionar uma experiência de Limitado que o seu criador acredita ser divertida. Montar um Cubo permite que você crie o seu draft perfeito, seja lá o que isso quer dizer. Uma pessoa pode querer a chance de jogar com o Power 9, enquanto outra quer experimentar um draft só com cartas que todo mundo acha horrível.



    Essa é a maior vantagem do cubo, você tem liberdade total, se uma carta faz parte dele, é porque você quer ela lá. O seu cubo pode refletir você como jogador, contendo os seus tipos de deck preferidos, ou pode recriar um formato que você sente falta, por exemplo, o draft de Innistrad original. Existem Cubos que foram criados para contar uma história, ou mesmo como um desafio para o conhecimento dos jogadores, com cartas como Lago da Sabedoria e Olho da Tempestade .



    No caso do meu cubo, eu comecei me restringindo só a cartas comuns e incomuns, para controlar o poder das cartas (apesar de cartas como Força de Vontade, Frasco do Éter e Cetro Isócrono serem incomuns em suas impressões originais, e fazerem parte do cubo) e me dar a chance de usar cartas que eu gosto bastante, mas que não são usadas em formatos construídos, como Ent da Floresta Morta ou Patrulheiro da Ordem do Zimbro .



    O meu cubo tem uma estrutura bem simples, com cada par de cores formando um arquétipo Agressivo, Midrange ou Controle, sem combos ou sinergias muito restritivas. A minha idéia enquanto eu estava construindo a lista era um cubo que não fosse muito difícil de draftar para quem não tem muita experiência. Uma estrutura simples também permite que o cubo seja usado em drafts menos convencionais, como draft Commander ou Archenemy.



    Eu posso afirmar que, com certeza, a diversão que eu tenho draftando o meu cubo valeu o trabalho de construí-lo, mas a maior vantagem de ter um cubo que eu só percebi depois é poder convidar os amigos e ninguém ter que se preocupar em ter decks ou qualquer outra coisa. Para terminar, e para dar um ponto de partida para quem começou a se interessar em construir um cubo, a minha lista nesse link.


  • Report do Campeão PPTQ Londrina - Piedade Card House

    Report do Campeão PPTQ Londrina - Piedade Card House

    por Xaves em 13/11/2018 - 405 Visualizações, 2 Comentários.



    Eae galera, meu nome é Victor Hugo Carvalho Nogueira, também conhecido como “Xaves” ou “Xaveco”, jogo MTG a muitos anos, mas comecei a viajar para campeonatos em 2014 ou 2015, dando uma pausa no jogo em 2016 e retornando Julho desse ano. Esse é meu primeiro report então não sei direito como faço isso aqui, mas vamos lá.



    Desde que comecei a jogar MTG sempre tive um amor muito grande pelos decks de control, jogava de miracles no legacy e no standard atual testei diversas listas de Jeskai control que se adequassem ao meu estilo de jogo e meu gosto pessoal. Então cheguei a essa lista:



    Com o meta bem diversificado atualmente do standard, essa foi a lista que mais me agradou, e que mais me surpreendeu sobre o poder da carta Niv-Mizzet, Parun que me garantiu a vitória em todos os jogos do top8.



    Rodada 1 – Bye 1-0



    Comecei tranquilo, 27 jogadores no torneio e logo eu peguei bye. Easy 1-0.



    Rodada 2 – UR Control 1-1



    O g1 foi bem longo como esperado de um mirror de control. O jogo se resume em eu dar três Ionizar no meu inimigo, ele cair a 14 de vida. Dei um Expansão // Explosão com x2, um com x8 e um com x4, terminando o jogo com apenas 7 cartas no baralho. 1-0



    O g2 ele abriu melhor que eu, desceu lands todo turno e castou algumas Visão da Quimiomante, encheu a mão e baixou um Nezahal, Maré Primordial. Não consegui lidar com o bixo e perdi 1-1.



    O g3 eu abri melhor, não perdi land drops e como minha mão estava cheia de agressividade eu parti pra cima. Baixei um Niv-Mizzet, Parun com anula para proteção que morreu no turno dele para um Enfrentar com Fogo e um anula para o meu anula. Depois disso eu tentei baixar dois Teferi, Hero of Dominaria, um Ral, Vice-rei Izzet, uma Huatli, Poetisa Guerreira e uma Lyra Dawnbringer. Todos anulados. Ele baixou um Niv-Mizzet, Parun, tentei matar, tomei um anula e faleci 1-2 para o oponente.



    Rodada 3 – Boros Caminho da Bravura 2-1



    No g1 eu fui limpando a mesa mas ele conseguiu flipar o encantamento. Depois disso comecei a cavar para achar meus Campo da Ruína. Baixei um Teferi, Hero of Dominaria e um Ral, Vice-rei Izzet, sempre matando os bichos dele ou anulando e tentando achar o Campo da Ruína. Quando cheguei a 7 de vida baixei um Niv-Mizzet, Parun, usei uma Hélice de Lava nele e respondi com um Syncopate pra 0 so para triggar o Niv-Mizzet, Parun. Comprei mais duas cartas, achei o campo e o oponente concedeu. 1-0



    O g2 ele abriu rápido, mas tomou um Clarim Ensurdecedor no turno 3, e outro no turno 4. Voltei com uma Lyra, Portadora da Alvorada no turno 5 e uma Huatli, Poetisa Guerreira no 6 e finalizei o oponente. 2-0



    Rodada 4 – Mono Red Aggro 3-1



    Infelizmente para meu oponente tanto no g1 como no g2 ele floodou demais e não conseguiu agressivar, me dando o tempo necessário para controlar o jogo e finaliza-lo. 2-0



    Rodada 5 – Mono Red Aggro 3-1-1



    Olhamos os standings e decidimos dar ID. Infelizmente meu oponente não estava com um rating muito bom e ficou em 9° e eu passei em 6°. Partiu Top8.



    Top8 – Mono Blue Tempo 2-1



    Quando sentei na mesa já estava preocupado, pois esse deck é muito forte contra decks de controle, felizmente meu oponente não abriu com muitos bichos, dei um Selar no primeiro que estava com uma Obsessão Curiosa, ele voltou o bicho pra mão com um Piscar de Olhos e baixou mais dois que tomaram um Clarim Ensurdecedor com anula para proteger, ai o jogo se estendeu mais um pouco me levando a 1 de vida, cavei o deck, encontrei um Dragonete Fagulhante, dei uma Hélice de Lava em um Gênio da Tempestade, dei life link com o Clarim Ensurdecedor pro Dragonete Fagulhante e ganhei 7 de vida de volta. O oponente comprou a carta do turno e recolheu. 1-0



    O g2 foi como eu esperava que seria a match. Ele baixou um Domador de Tempestades Sireno no primeiro turno. No segundo pois uma Obsessão Curiosa e me bateu anulando tudo que eu tentava fazer até acabar a partida. 1-1



    No g3 logo no meu segundo turno aproveitei que ele estava com as manas viradas para matar o Domador de Tempestades Sireno que ele fez no turno 1. Dei um Clarim Ensurdecedor mais pra frente, ele não estava com muita agressão, apenas duas Nightveil Sprite, baixei uma Huatli, Poetisa Guerreira e fiz um token 3/3. Ele bateu na Huatli, indo a 1 de lealdade. Voltei de Niv-Mizzet, Parun, e ganhando 5 de vida com o planeswalker. Ele leu o Niv, perguntou se o dano era em qualquer alvo, eu disse que sim. E ele recolheu. 2-1. Fiquei super feliz por ter ganho de um match tao ruim. Nesse momento eu vi que o Niv-Mizzet era extremamente forte contra monoU.



    Top4 – Mono Blue Tempo 2-1



    Mal tinha acabado a partida contra um, já tinha outro me esperando.



    O g1 foi complicado mas consegui dar alguns removals até que encontrei o meninão Niv-Mizzet, Parun. O oponente cheio de anulas na mão arregalou os olhos e disse: “Eita esse ai é complicado em”.



    Conjurei algumas magicas, fui dando 1 de dano nas criaturas dele e comprando cartas com o Niv, ele viu que não ia conseguir segurar e concedeu. 1-0



    Não vi nem a cor do jogo no g2, ele baixou 2 bichos, colocou Obsessão Curiosa nos dois, me deu um Spell Pierce no Clarim Ensurdecedor e eu morri que nem vi o jogo. 1-1



    O g3 foi o jogo mais tenso do campeonato. Meu oponente baixou um único bicho que matei logo cedo. Depois disso meu oponente só baixou terreno por uns 7 turnos, e eu travado na quarta mana... Tinha certeza que ele estaria recheado de anulas. Ele então baixou dois bixos 1/1, tentei matar os bichos mas ele anulou ou protegeu com Dive Down. Ele baixou um Gênio da Tempestade que estava facilmente 9/4 e me mataria no próximo turno. Finalmente encontrei a sexta mana para baixar o Niv-Mizzet, Parun e trocar com o gênio. Meu oponente castou um Dormir, comprei uma carta com o trigger do Niv-Mizzet e matei um dos 1/1. Ele me bateu e fui a 1 de vida. Na volta dei 1 de dano no gênio com o draw do turno, castei um clarim, tivemos uma briga de counters que sai vitorioso por causa do dormir que o oponente conjurou no turno passado e suas manas estavam viradas. Ter voltado os Sincopar pro deck no g3 por estar no play salvaram minha vida. Ele comprou, baixou um Saqueador do Aeroveleiro Bélico e passou. Comprei a carta do turno, matei o bixo com o trigger do Niv, bati e passei. Ele comprou a carta do turno e estendeu a mão. Não acreditei que tinha ganhado do segundo mono blue em sequência. Niv-Mizzet mostrando seu poder novamente. Bora pra final.



    Final – UR Control 2-0



    Tava la o cara da minha única derrota no suíço. Hora da revanche.



    Clássico começo de jogo emocionante de control mirror, a primeira mágica castada foi no passe do turno 4 de cada jogador, ambos castamos uma Visão da Quimiomante que com certeza não foram contestadas. No meu sexto turno, baixei uma Busca por Azcanta // Azcanta, a Ruína Submersa para tirar um anula da mão do oponente, que para minha surpresa não foi anulada. Imaginei que ele não devia ter anula na mão ou que teria poucos e brigaria por algo que acabasse com o jogo mais rápido. A seleção de draws que a azcanta me proporcionou foi crucial para esse jogo.



    Depois disso, como tinha dois Teferi, Herói de Dominária na mão, joguei um pra faze-lo gastar um anula, e foi isso que aconteceu, ele anulou e então jogou um Ral, Vice-rei Izzet no seu turno. Deixei resolver e castei o outro Teferi, Herói de Dominária que não foi anulado. Joguei o Ral, Vice-rei Izzet dele pra terceiro do deck com o -3 do Teféri e passei. No turno dele, o oponente voltou o Teféri pra minha mão com um piscar de olhos kickado e passou, imaginei que ele teria um anula. Baixo o Teféri denovo e tenho o anula para proteção mas o oponente faz uma jogada que me deixou meio confuso. Eu tinha 3 manas em pé, e ele castou um syncopar para 3. Paguei o custo e o Teféri resolveu. Compro uma carta e passo. Ele joga o Ral novamente e passa. No meu turno mando o Ral pra terceiro do deck novamente e jogo meu Ral que não foi contestado. Nesse momento com dois planeswalkers na mesa, uma azcanta prestes a flipar, um Niv-Mizzet, Parun na mão, e a mão lotada de anulas, eu estava bem seguro da vitória. Meu oponente baixou o Niv-Mizzet, Parun dele, comprei uma carta com o Teféri e dei um golpe da justiça no Niv, ele respondeu com uma visão da quimiomante e matou o Teféri. Baixo o terceiro Teferi, Herói de Dominária , compro uma carta e passo.



    Ele joga uma Busca por Azcanta // Azcanta, a Ruína Submersa que eu deixo resolver pois o jogo não demoraria muito para acabar, ele deu um Golpe Relampejante no meu teferi que foi a 2 de lealdade e então ele jogou outro Ral. Tentei anular com um Syncopate pra 5, que tomou um outro syncopar pra 1 e entrou. No meu turno dei uma Expansão // Explosão de x=6 para matar o Ral já que ele estava com todas as manas viradas. Tirei o Ral da mesa, comprei seis cartas, selecionei completamente minha mão e nesse momento só faltava fechar a tampa do caixão. O oponente perguntou quantas cartas restavam no meu baralho: 18. Imaginei que ele pretendia me fazer comprar cartas com uma explosão e me matar de deck over, mas não, ele deu uma explosão de x=6 no meu Ral, levando ele a 1 de lealdade, deixei resolver, pois como ele não ia morrer não faria muita diferença.



    Baixei meu Niv-Mizzet, Parun, com 7 manas sobrando, desvirei duas com o Teféri e passei. Ele tentou matar, tivemos uma briga de anulas, dei 3 ionizar nele, comprei várias cartas com o Niv e o oponente concedeu. O jogo mais demorado do mirror sempre é o g1, e eu abri a vantagem, pos side eu tinha bastante coisa para agressivar.



    O g2 começa daquele típico jeito de mirror, land vai até o quarto turno, mas dessa vez eu não tinha uma jogada. O oponente joga uma Visão da Quimiomante, e usa a sobrecarga no quinto turno, eu decido copiar com uma Expansão // Explosão pois teria três manas sobrando caso ele fosse baixar um Ral.



    Ele joga uma Busca por Azcanta // Azcanta, a Ruína Submersa que eu anulo e passa. Jogo um Dragonete Fagulhante para tentar tirar anula da mão dele que funciona, o dragonete é anulado e um anula a menos.



    Quando jogo minha Visão da Quimiomante ele joga um Syncopate pra 3 que anula. Eu anulo um Ral, Vice-rei Izzet dele, e nesse momento so estou esperando mais 2 terrenos para baixar meu Niv-Mizzet, Parun com proteção para algum kill.



    Baixo um Ral para tirar anula da mão dele, como ele gasta um Golpe Desdenhoso, uso um Syncopate que toma um Ionizar, o Ral é anulado e passo. Meu oponente não faz nada no turno dele e eu dou draw no segundo Niv-Mizzet, Parun, jogo um deles, que meu oponente tem que matar utilizando dois Golpe Relampejante. Compro duas cartas e dou dois de dano nele, decido deixar o Niv morrer já que tinha outro de backup e preferia deixar a mana para anular algo perigoso.



    O oponente passa, baixo o segundo Niv com mana pro anula e passo. O oponente não faz nada e passa devolta. Agora que desvirei com o Niv na mesa a partida estava praticamente garantida. Bato e passo. Ele tenta baixar um Ral e matar o Niv, temos uma briga de anulas, compro umas 5 cartas com o Niv, anulo todos os anulas dele e o jogo acaba.



    A tão esperada vitória finalmente veio. Niv-Mizzet, Parun com certeza foi a carta do campeonato. Crucial em todos os jogos complicados. A partida foi transmitida ao vivo na página da Piedade Card House e pode ser conferida no link: https://www.facebook.com/piedadecardhouse/videos/275806223071182/.



    É isso ae, ficou longo mas me diverti com a experiência de escrever meu primeiro report. Agradeço ao Piedade pela organização do evento e a galera de Presidente Prudente pelo apoio e a torcida. Espero vocês no RPTQ. Falows!!