Children of the Nameless - Capítulo 6

Escrito por MYPCards
Publicado em 25/01/2019
214 Visualizações, 0 Comentários.

Acesso rápido:

Capítulo 6: Davriel

Davriel sentiu que podia ouvir o Pântano, apesar da distância, enquanto sua carruagem descia pela estrada florestal coberta por vegetação.

Ele havia vindo para este plano especificamente porque muitos outros o evitavam. A terra tinha algo de… sinistro. Uma sensação de pavor que corria mais fundo que o duro outono e as árvores vigilantes. Era perturbador até para os mais insensíveis visitarem um lugar onde seres humanos, com amores, vidas, famílias, eram muitas vezes apenas… comida.

O que as outras terras sussurravam, esta gritava: sentimentos e aspirações eram imateriais. Em última instância, seus sonhos eram menos importantes que o seu dever de reproduzir e depois tornar-se uma refeição.

A carruagem deu uma chacoalhada quando passou por sobre um dos muitos buracos da estrada. Miss Highwater xingou baixinho, depois rabiscou uma linha através de algo que estava escrevendo em seu livro-razão. A garota, Tacenda, sentou-se próximo a ela, segurando firme sua viola. Davriel fingira estar relutante em devolvê-la; na verdade, ele não tinha ideia do que faria com tal coisa. Ele preferia o silêncio.

A estrada chegou a uma elevação e, do lado de fora, o luar cobria as copas das árvores. Um bando de pássaros — muito distante para se distinguir a espécie — bateu em revoada quando algo os assustou. Eles quase pareciam rastrear algo através do luar, como peixes em uma corrente. Como se  a luz fosse, de alguma maneira, muito espessa.

Está lá fora, pensou Davriel. Aquela direção. O Pântano amaldiçoado. Ele alegava ser o senhor dos Acessos, mas os aldeões faziam muito pouco para demonstrar lealdade, até mesmo à religião. A única coisa que eles realmente pareciam respeitar era aquele lodaçal. E o que quer vivesse nas profundezas dele.

A Entidade agitou-se dentro dele.

Nenhuma palavra para mim? Pensou Davriel. Normalmente, você se aborrece quando penso no Pântano.

A Entidade não falou, nem mesmo oferendo sua habitual garantia de que ele faria uso de seu poder um dia. Algo estava errado esta noite. Os aldeões desaparecidos. A proteção do Pântano. Aquele luar frio…

“Então”, disse Miss Highwater, continuando seu interrogatório da menina. Somente os três estavam na carruagem; ele havia colocado Crunchgnar e Brerig no assento do cocheiro do lado de fora. “As primeiras vítimas foram seus pais, dez dias atrás. Sua irmã escapou e correu para o priorado.”

“Sim,” disse a menina. “Ela estava… estava treinando para ser uma cátara, para a igreja. Quando ela retornou com os soldados e eles encontraram meus pais, alguns deles acharam que eles poderiam ter sido vítimas de envenenamento por pó de salgueiro. Isso acontece às vezes com os agricultores, sabe. Mas não conseguimos pensar por que o Homem atacaria e depois envenenaria alguém. Então, três dias depois, os mercadores foram pegos no caminho para o priorado.”

“Testemunhas?” perguntou Miss Highwater.

“Um sacerdote viu o ataque à distância,” disse Tacenda. “Ele afirmou ter visto o Homem da Mansão e terríveis espíritos verdes removendo a alma dos mercadores. Depois disso, começamos a permanecer próximos à aldeia e a prioresa prometeu solicitar a Thraben instruções ou ajuda.

“Outros morreram, no entanto, levados por aparições, às quais começamos a chamar de Sussurradores. Dois dias atrás, minha irmã caiu morta perto das fazendas. Estranhamente, ela não parecia… assustada, como os outros estavam. Pelo menos sua face não estava congelada em uma careta de medo. Talvez ela tenha sido pega de surpresa?

“De qualquer forma, o pior de tudo aconteceu hoje mais cedo. Trabalhadores nos campos vieram correndo para a aldeia, dizendo que geists estavam fluindo para fora da floresta que cerca Verlasen. Mirian, minha vizinha, me acordou, visto que eu normalmente durmo quase até o anoitecer. Todos se esconderam em suas casas enquanto eu assumi o meu posto próximo à cisterna e comecei a cantar.”

“Do lado de fora?” Davriel interrompeu. “Eles te deixam sozinha do lado de fora, como uma oferenda, a noite inteira?”

“Não sou uma oferenda,” disse a garota, levantando o queixo. “Minha irmã e eu nascemos com a benção do Pântano, mais forte do que qualquer pessoa tenha visto antes. Minhas canções protegiam a aldeia durante a noite.”

“Isso não é difícil?” perguntou Miss Highwater. “Cantar a noite toda?”

“Normalmente, eu não preciso varar a noite,” disse a menina. “Uma música aqui e ali, um pouco de cantarolado entre uma e outra. Mas… hoje…” Ela desviou o olhar. “Não funcionou. Os Sussurradores entraram na aldeia, ignorando a minha canção. Não vi o que quer que fossem, mas conseguia ouvi-los. Sussurrando…”

Davriel inclinou-se para frente,  curioso. “Por que ninguém fugiu? Por que apenas se esconder em suas casas? Por que não fugir?”

“Fugir?” A garota riu uma risada vazia. “Para onde iríamos? Passar fome em algum lugar da floresta? Viajar à noite, tentando chegar a Thraben, onde iriam nos mandar embora? Seus mercadores e sacerdotes podem vir aos Acessos, mas ele não aceitariam uma aldeia inteira de refugiados.”

“Há ainda o priorado,” disse Davriel. “Fica perto.”

“Alguns dos aldeões foram para a igreja em nossa aldeia. Aqueles que adoram o Anjo. Quando ouviu nossa situação, a prioresa enviou sacerdotes para nos proteger com suas preces. Mas a fé não ajudou aqueles que se esconderam na igreja. Assim como não ajudou a minha irmã.”

Parecia que Tacenda não era seguidora do Anjo, apesar do símbolo que ela usava enrolado em seu pulso. Curioso. Desde que chegara aos Acessos, ele achava inusitado o quão firmemente as pessoas aqui resistiam à igreja. Os sacerdotes do priorado, ainda que fossem tolos desorientados, possuíam uma bugiganga que tranquilizava as almas de qualquer um que morresse ali. Sem geists, sem cadáveres se levantando, sem terrores.

Isso deveria ser o suficiente para amealhar conversos, mas poucos dos aldeões aceitaram o sono abençoado do Anjo. Em vez disso, eles deixaram instruções para que seus corpos fossem devolvidos ao Pântano. A coisa amaldiçoada possuía vinhas enroladas em seus corações.

“Eu conhecia os sacerdotes que vieram ajudar” disse Tacenda. “O mais jovem, Ashwin, fez um desenho de minha irmã uma vez. Eles se barricaram junto com os fiéis dentro da igreja. Fui em busca deles ao final de tudo e encontrei apenas cadáveres.”

Davriel recostou-se, pensativo. Na mansão, ele havia postulado que isso teria sido obra de algum necromante celerado. Mas uma aldeia inteira? Defendida por múltiplos sacerdotes com bençãos protetoras e talentos banidores?

“Talvez devêssemos ter ido embora,” disse Tacenda, olhando para fora da janela. “Talvez devêssemos ter fugido. Mas você não tem ideia de como são as coisas, a salvo em sua rica mansão. Você não sabe como é dormir a cada noite com uma prece fervorosa e um machado ao lado da porta, só por precaução.

“É assim que nós vivemos. Há sempre uma sombra na floresta, com olhos que ardem muito sombriamente e dentes muitos brilhantes. Vivemos aqui há gerações, confiando na proteção do Pântano. Esse é o nosso destino. Encolher-se dentro de casa à noite e rezar para que as nuvens passem por nós…”

A carruagem saltou novamente, então as rodas bateram ruidosamente na madeira enquanto cruzavam uma velha ponte. As lanternas da carruagem logo revelaram uma coleção de casas abandonadas. Embora as construções se amontoassem em grupos, as portas reforçadas e as venezianas grossas das janelas faziam com que cada uma delas parecesse solitária.

Ele avistou o primeiro corpo na rua. Uma mulher deitada de costas, com os braços congelados em um gesto de pânico, tentando proteger a cabeça. A face estava travada em uma máscara de terror.

Crunchgnar reduziu a velocidade da carruagem. Davriel saiu para a cidade silenciosa repleta de edifícios ocos, como cascas de ovos quebrados. Este lugar, decidiu ele com um arrepio, era pior que a floresta, onde você sabia que estava sendo vigiado. Aqui… bem, havia uma questão.

Crunchgnar desceu pesadamente da carruagem, usando seu equipamento de batalha completo. Brerig empoleirou-se em cima da carruagem como uma gárgula, com as asas raquíticas tremulando atrás dele. Gutmorn e Yledris completavam a comitiva, um casal de irmãos de demônios de Nightreach com armaduras leves, que aterrissaram em um telhado próximo, com suas enormes asas se restabelecendo em torno deles. Eles eram muito menos parecidos com humanos que Crunchgnar ou Miss Highwater, com feições esqueletais e longas pernas como as de bodes.

Se alguém estivesse vivo na aldeia, provavelmente teria morrido de medo da chegada repentina de sua procissão. Miss Highwater ajudou Tacenda a descer da carruagem, depois pegou a capa e a máscara de Davriel. Ela segurou ambos na direção dele, com expectativa. Ele normalmente as usava em público. Menos pessoas de fora do plano conheciam o traje do que o rosto dele — e Davriel Cane, é claro, era um nome mais recente que ele havia adotado.

Ele colocou a capa, que possuía um antigo encanto de sombra dos tempos que ele vivia entre os demônios de Vex. Quando as bordas rodopiaram para baixo, deixaram fracas borras no ar, como faixas feitas por um pincel. Foi um pouco dramático, mas poucos acusariam demônios de serem sutis.

Ele deixou a máscara de lado por ora enquanto ajoelhava-se ao lado do corpo da mulher assustada. Ele sentiu a pele da face dela, que havia esfriado e enrijecido, depois deslizou a mão por suas costas. O sol havia se posto há quase três horas e o ataque aconteceu pouco antes disso, mas não havia qualquer rastro de calor. O calor do corpo não teria desaparecido tão rapidamente por conta própria, mesmo em um ambiente frio como este. Isso também descartava a hipótese de algo como envenenamento por pó de salgueiro — ele pode provocar um estado catatônico, mas não faria com que a temperatura corporal caísse tão rapidamente.

Ele assentiu para si mesmo, trabalhando os músculos da face dela, depois movendo um de seus braços para baixo. “Definitivamente não se trata de uma proteção imobilizadora, como a que usei em você mais cedo,” disse ele enquanto Tacenda se aproximava ao seu lado. Ele olhou fundo nos olhos da mulher caída, então usou um espelho para checar se ela respirava. “Nenhum sinal de vida, mas também muito pouco acúmulo de sangue na parte de trás… Frio anormal… Nenhum sinal de perfurações por parte de alguma criatura em busca de alimento… Azul ao redor dos lábios, como você notou… Os músculos estão tensos, mas podem ser movidos…”

“Então?” perguntou Tacenda.

“Então, isso foi um desperdício de viagem,” disse Davriel, levantando-se e aceitando uma toalhinha de Miss Highwater para suas mãos. “É exatamente como eu presumi na mansão. Suas almas foram evacuadas e o trauma induziu seus corpos a uma forma de suspensão paralítica.”

“Mas o que podemos fazer?”

Davriel devolveu a toalha para Miss Highwater, que a guardou e lhe devolveu a bengala. Ela tinha, é claro, uma espada escondida por dentro. Ele se virou, inspecionando uma aldeia inteira repleta de mausoléus.

“Isso depende de quem ou o que está por trás disto”, disse ele, gesticulando com sua bengala. “O necromante médio iria querer os corpos; o fato de que eles foram deixados aqui nos diz que não se trata do trabalho de algum vendilhão de cadáveres comum. No entanto, existem variedades de necromante que constroem dispositivos utilizando almas como forma de energia. E há muitas criaturas nesta terra que se alimentam de almas. Algumas atacam agressivamente. Outras, como os demônios, tomam parte em tais festins apenas como uma iguaria, quando a alma é conquistada através de contrato.”

“Duvido que tenham sido demônios,” disse Miss Highwater, voltando algumas páginas de seu caderno. “A menina disse que muitas das portas ainda estavam trancadas. Ela teve que arrombá-las para checar por sobreviventes. Ela escutou esses Sussurradores, mas não conseguiu distinguir a língua que falavam.”

“Os Sussurradores podiam atravessas as paredes,” disse Tacenda. “Mas… alguém estava controlando eles. Certo?”

“Sim,” disse Davriel. “Mesmo que você não tivesse ouvido passos mais cedo, poderíamos supor isso. O subterfúgio de usar meu semblante, o ataque de precisão para extirpar sua irmã, depois o ataque coletivo… Alguém está controlando esses geists. Sozinhos, eles não teriam a presença de espírito para agir de forma coordenada.” Ele apontou com sua bengala. “Leve-me a um dos prédios trancados que você abriu.”

Crunchgnar e Brerig juntaram-se a eles — o demônio menor segurando uma lanterna para iluminar — enquanto Gutmorn e Yledris alçaram voo, atentos ao perigo. Todos eles tinham várias reivindicações sobre sua alma, devido aos contratos que ele estabeleceu com eles. Os termos de cada um deles eram diferentes, mas todos compartilhavam um elemento importante: sua recompensa era baseada nele sobreviver tempo o suficiente para que o acordo fosse cumprido. Se ele morresse cedo, eles não receberiam nada.

Essa era a primeira regra da demonologia: certificar-se de que os incentivos para os demônios estejam aliados aos seus. Embora o conceito fosse economia simples, era tão fácil de esquecer.

Eles chegaram a uma casa igual às outras, mas com uma janela quebrada. As venezianas pareciam ter sido destravadas por algum motivo durante o ataque, por isso Tacenda conseguira entrar facilmente quebrando o vidro.

Entraram pela porta e se depararam com os corpos de uma jovem família, com duas crianças pequenas, amontoados em uma variedade de estados de pânico aterrorizado. Davriel entregou sua bengala a Miss Highwater, depois verificou superficialmente os corpos, que possuíam os mesmos sinais que os da primeira mulher. Enquanto ele realizava o trabalho, Brerig ergueu seu corpo atarracado até o balcão perto do fogão e começou a vasculhar os armários. Ele jogou fora alguns frascos vazios depois de cheirá-los, então continuou vasculhando.

“Se estiver aqui, Mestre,” disse Brerig, “eu encontrarei.”

Ele… está procurando por chá, percebeu Davriel. Para mim. O pequeno demônio tinha o hábito de se fixar em alguma coisa dita por Davriel, se esforçando o máximo que podia para cumpri-la em seguida. Ele retornou com um pote do que pareciam ser dentes de alho secos e, claramente, não conseguia decidir se era chá ou não. Miss Highwater balançou a cabeça discretamente, então ele jogou-o de lado.

Davriel retornou à investigação. “Esses aqui eram seguidores do Pântano?”

“Sim,” disse Tacenda, com a voz soando oca. Cuidadosamente, ela colocou uma manta em torno da menor das crianças, um menino que não deveria ter mais que quatro anos. Seu rosto aterrorizado estava congelado no meio de um grito, com olhos arregalados, e ele se agarrava a um brinquedo de palha para se consolar.

Davriel estava inclinado a confiar na descrição de Tacenda de que esses Sussurradores eram uma forma de aparição, mas ela era cega, então o melhor era verificar ele mesmo. Os corpos nesta casa, que havia sido bem trancada, pareciam evidência suficiente. O que quer tenha feito isso podia atravessar paredes.

Brerig chegou coxeando, carregando uma bolsa que parecia promissora. De fato, ela já havia guardado chá, a julgar pelo cheiro.

“Desculpe, Mestre” disse Brerig, virando a bolsa para provar que não havia nada dentro.

“Tudo bem,” disse Davriel, levantando-se e limpando as mãos no pano que Miss Highwater providenciou.

“Adivinhação?” perguntou Brerig.

“Vá em frente.”

O pequeno demônio franziu o cenho. “É ar?”

“Bom palpite,” disse Davriel. “Mas não, essa não é a resposta.”

Brerig sorriu, depois enfiou a bolsa na algibeira enquanto saía. Crunchgnar, que havia esperado do lado de fora durante a investigação, passou a mão por cima do ombro dele, mandando o demônio menor ir vigiar os cavalos, o que ele fez sem reclamar.

“Honestamente,” disse Miss Highwater, “Não acho que ele realmente deseje desvendar essa adivinhação.”

Talvez ela estivesse certa; era criminoso o quão leal Brerig podia ser. Davriel retornou para a rua, com Tacenda o seguindo.

“E agora?” perguntou ela.

Ele apontou com sua bengala para a sombra da pequena igreja no centro da cidade. Crunchgnar conduziu-os naquela direção com sua lanterna.

“O quanto você sabe a respeito da proteção do Pântano sobre você?” Davriel perguntou a Tacenda.

“Todos os nascidos nos Acessos são marcados. A proteção do Pântano. Dizem que, por causa dela, não sofremos tantos ataques quando deveríamos, vivendo tão longe do resto da sociedade. Não sei. Quando eu era mais nova, os ataques pareciam frequentes o suficiente. Até que eu aprendi a cantar.” Ela olhou para baixo. “Antes do meu fracasso hoje, achei que meu canto sempre seria o suficiente. Minha visão em troca da música…”

“Uma maldição curiosa,” disse Davriel.

“É um lembrete,” disse Tacenda. “Do que devo ao Pântano. Da dívida que todos temos com o Pântano, pela proteção.” Ela pareceu vacilar quando disse isso, olhando em direção a uma porta aberta com corpos dentro.

Bem, Davriel supôs que não poderia culpar essas pessoas por um pouco de superstição. Havia algo de diferente a respeito dos nativos dos Acessos. Essa era a parte mais intrigante de tudo isso.

“Algo está muito estranho acerca desses espíritos que invadiram sua cidade,” disse Davriel, gesticulando com a bengala. “Miss Highwater, algum demônio perspicaz faria um acordo com um habitante dos Acessos?”

Ela torceu o nariz. “Mas é claro que não.”

“E por que não?”

“Porque eles já têm dono. Todos sabem disso. Dá para sentir o cheiro neles.”

Crunchgnar grunhiu, depois assentiu. “Do mesmo modo que sabemos quando uma alma já está sob contrato com outro demônio. É necessário um prêmio poderoso para valer a pena entrar numa barganha como essa.”

“Obrigado pelo elogio,” disse Davriel. “Miss Verlsasen, a marca em suas almas é menos uma proteção do que um sinal da propriedade. Uma reivindicação. Sua música funciona da mesma forma. Ela afugenta feras e espíritos porque eles reconhecem o perigo em provocar o Pântano. Matar você seria como como matar os cães de caça de um lorde poderoso. Mas sua canção não ajudou mais cedo. Portanto…”

Tacenda parou na rua, com seu instrumento amarrado às costas. Embora Miss Highwater tenha lhe dado um lenço mais cedo para limpar seu rosto e mãos, seu vestido de camponesa ainda estava rasgado e ensanguentado no local onde ela havia arranhando o braço. Ele a deixou embasbacada.

“Certamente,” disse ela, “você não está insinuando que o Pântano os levou?”

“É a minha principal teoria,” disse Davriel. “Há outra possibilidade. Talvez esses geists tenham sido enviados por alguém poderoso o bastante para ignorar a reivindicação do Pântano. Ainda assim, não consigo deixar de me perguntar por que sua proteção não funcionou. Talvez a coisa que capturou essas almas tenha sido criada a partir do mesmo poder. Enquanto um rato pode ter medo do cheiro do gato, o próprio gato sequer o sentiria.”

“O Pântano nos protege,” disse Tacenda. “Ele exige nossas almas quando morremos, mas nos mantém a salvo. Ele não pode estar envolvido.”

“Possivelmente,” disse Davriel. “Sempre achei difícil separar o pequeno culto de vocês das intervenções reais do Pântano.”

“Não é um culto. Isso é apenas… a maneira como as coisas são.”

Davriel olhou através de uma porta aberta de outra casa, observando um corpo deitado no chão próximo à entrada. Ele se viu cada vez mais irritado. Não pelas mortes — vidas começam e vidas terminam. Não havia utilidade em se desgastar com cada pequena perda. Mas esses eram os seus camponeses. O Pântano, ou algo similar, os levara em flagrante desrespeito à autoridade de Davriel.

Nós nos tornaremos muito mais, disse a Entidade, sempre à espreita no fundo de sua mente.

Aí está você, pensou Davriel. Estava cochilando?

Você continua a se envolver em lutas mesquinhas por poder e autoridade, sussurrou a Entidade. Você deve entender que essas coisas são desperdícios sem sentido do seu potencial. Assim que você utilizar a minha força, infundindo seus feitiços com meu poder, você superará tudo isso.

Isso era exatamente o que Davriel temia. Desde que roubou a Entidade, extraindo-a da mente de um moribundo, ele conseguia sentir seu vasto potencial.

Em breve, disse a Entidade, escaparemos dessa mundanidade. Em breve…

Eles chegaram à igreja, uma estrutura simples de madeira com um telhado pontiagudo. Não há grandes vitrais nas janelas, não aqui nos Acessos. Apenas uma ampla estrutura de um único andar cheia de bancos. Em seu interior, a escuridão era completa, pois as poucas janelas não permitiam a passagem da luz da lua direito.

As grandes portas da frente estavam abertas. A barra do lado de dentro não havia sido usada. Curioso, pensou Davriel, repousando os dedos na madeira gravada, observando arranhões peculiares. Eram frescos. Também digno de nota, a porta outrora portara o simbolo do colar, o sinal da Igreja de Avacyn, o Arcanjo. Ele havia sido lixado há alguns meses. Além disso, a idêntica marca trabalhada em pedra no arco fora coberta com gesso.

“O que é isso?” perguntou ele, apontando. “Por que seu povo removeu o símbolo?”

“Bom,” disse Tacenda, “depois daquele negócio no ano passado, a prioresa decidiu…”

“Negócio no ano passado?” disse Davriel com uma careta. “Que negócio é esse?”

“Com os anjos” disse Tacenda.

“Ele balançou a cabeça, depois olhou para Miss Highwater, que parecia achar graça. Até Crunchgnar levantou uma sobrancelha.

“Você não está falando sério, está?” disse Miss Highwater. “O arcanjo Avacyn enlouqueceu. Da mesma forma que a maioria das revoadas. Não sabia?”

“Quê?” disse ele. “Sério?”

“Os anjos tentaram nos matar,” disse Tacenda. “Eles tentaram exterminar a humanidade pelo nosso próprio bem. Mesmo aqui, longe do corpo principal da igreja, ouvimos falar sobre isso.”

“Hã,” disse Davriel. “Isso soa como um inconveniente bastante grande.”

“Oh, Dav,” disse Miss Highwater. “Eu lhe informei sobre o assunto em três ocasiões.”

“Eu estava ouvindo?”

“Obviamente que não.”

Tacenda, incrédula, acenou para o céu. “A lua? Você não notou a lua?”

“Oh? Ela também tentou matá-los?”

“O símbolo?” disse Tacenda. “A enorme runa gravada em sua superfície?”

Ele deu um passo para trás, olhando para ela, depois inclinou a cabeça. “Aquilo sempre esteve lá?”

Tacenda olhou para ele, incrédula. “Como ele pode ser tão astuto e, ao mesmo tempo, tão desatento?”

“Você faz uma pergunta que tem me atormentado há anos, criança,” murmurou Crunchgnar. “Um dia, eu descobrirei seus segredos enquanto ele grita por piedade, com a alma ardendo em meu lar nas profundezas do inferno. Então, devorarei sua alma.”

“E eu me esforçarei em dar-lhe uma indigestão, Crunchgnar,” disse Davriel, forçando as vistas para a lua. “Você sabe que eu gosto disso. Tem estilo. É diferente.” Ele ergueu a mão, fazendo um punho no ar para invocar Gutmorn e Yledris.

Eles chegaram batendo as asas, aterrissando no chão próximo com batidas silenciosas. Os dois alegavam ser irmão e irmã, criados no mesmo dia, embora suas faces fossem tão retorcidas com chifres que eles também poderiam ser irmãos de um garfo particularmente ambicioso e Davriel não saberia apontar a diferença.

“Vigiem o perímetro da cidade,” Davriel disse a eles. “Eu não confio nesta noite. O resto de vocês ficará bem se entrarmos em uma igreja?”

“Não temo os anjos,” retrucou Crunchgnar.

“E eu não me importo,” disse Miss Highwater. “Desde que não hajam sacerdotes ou feitiços de banimento por perto.”

Bom o suficiente. Davriel entrou a passos largos.

Continua (…)

Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!

Comentários