Precisamos falar sobre ban

Escrito por Buffix
Publicado em 24/05/2019
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"Vocês devem estar se perguntando por quê eu os reuni aqui hoje."

Bon Jour tout le monde.

Nessa segunda-feira, dia 20 de maio de 2019, foi anunciado o banimento das cartas Gitaxian Probe, Gush e Daze e do formato pauper. O anúncio oficial e as razões desse ban são explicadas aqui. Segundo o artigo publicado, foi observada uma ascenção do arquétipo UB Delver dentro dos campeonatos no Magic Online e uma winrate de +55% de forma consistente e isso motivou a ação da WoTC de mexer no formato depois de três anos intocado pelo "martelo do ban" (o último ban que o formato recebeu foi com Cloud of Faeries em Janeiro e Peregrine Drake em Novembro de 2016).

Gostaria de separar esse artigo em duas partes como forma de refletir sobre essa notícia: os impactos que esse ban trará dentro do ponto de vista da jogabilidade do formato e, obviamente, o impacto econômico que um ban traz para um jogo de cartas físico. Nessa primeira parte, a maior parte dos argumentos que irei apresentar já foram discutidos em um artigo escrito no começo do ano por Kendra Smith. No artigo, a pauta de um possível ban dentro do formato e a discussão sobre os pilares do formato já era uma realidade. E ao final desse artigo, trarei algumas teorias sobre o que o futuro trará para o formato comum.

Três cartas definem um formato

Vamos voltar um pouco no tempo, antes de Ultimate Master. Era possível afirmar que três cartas constituíam os principais decks pauper: Decks azuis que abusavam do card selection com o uso de Preordain, PonderBrainstorm e utilizavam como carta principal, Gush. Decks Boros com a mecânica de monarca que construíam um valor gradual por meio de Palace Sentinels. E por fim, os decks Tron que abusavam de Ghostly Flicker e Barreira Mnemônica como núcleo para fazer o que fosse necessário para ganhar eventualmente o jogo com Capsize, Dinrova Horror e Rolling Thunder. Esses três decks sempre mantiveram uma relação de pedra-papel-e-tesoura: decks baseados em Gush tinham jogos favoráveis contra Tron, Tron esmaga Boros Monarca e Boros Monarca conseguiam ter jogos bons contra Decks baseados em Gush. Outros decks começaram a se fechar dentro do formato tendo que enfrentar essa tríade. Elfos e outro decks baseados em criaturas, por exemplo, eram recebidos com Prismatic Strands pelo Boros Monarca e por Moments Peace na estratégia do Tron.

Os decks que utilizavam Gush dividiam-se em duas vertentes: os decks que utilizavam Gush agressivamente para fechar o jogo antes do terceiro turno (UR Blitz e UW Inside Out) e os decks de Delver of Secrets // Insectile Aberration que ofereciam muito mais consistência possuindo as versões Mono Blue com Ninja das Horas Tardias e Snap  e UR com o uso dos terrenos nevados e Skred. A versão do UB Delver original tinha como plano alimentar o cemitério o mais rápido possível com Thought Scour e Mental Note para colocar Gurmag Angler e Sultai Scavenger em jogo. Esse deck acabou ganhando popularidade e acabou sendo reinventado por causa dos decks de Deaths Shadow que apareceram dentro do legacy no 25th Pro Tour Anniversary logo após o banimento de Deathrite Shaman. No pauper, Thought Scour e Mental Note se juntaram com as free spells como DazeSnuff OutGitaxian Probe e é claro, Gush, e tornaram muito mais consistente o plano de fechar o jogo com Gurmag Angler. Até então o deck era chamado de UBxd (UB 1-2 drops).

Foi com Ultimate Masters que veio à tona o reprint de Frustrar para o pauper e a ascenção do deck como tier 1. Essa mudança alterou o esquema de pedra-papel-e-tesoura que falamos: surgiu nesse momento o Boros Bully (como forma de conseguir enfrentar os removals e freespells do UB Delver com cartas como Squadron Hawk e Rally the Peasants) e juntos jogaram para fora do ringue Tron e muitos outros decks como Bogles, Stompy, Burn, MBC, UW Tribe, UR Blitz e UB Alchemy. Os seis tops 8 dos Pauper Challenger depois de Frustrar indicaram que: dos 48 decks que faziam resultados nos Pauper Challenger, 18 eram UB Delver com Gush, 14 eram alguma variação do Boros Monarca ou Boros Bully e Gush ainda aparecia em um deck de Izzet Delver e UW Tribe. Logo 34 de 48 decks eram compostos por dois pilares: Gush e Palace Sentinels.

O que leva uma carta a ser banida?

Desde que comecei a jogar Magic: The Gathering no final do ano de 2017, no bloco de Ixalan, já presenciei o ban de: Harmonizar-se com o Éter, Refinador Clandestino, Ferocidonte Enfurecido, Ruínas de Ramunap no Standard, Krark-Clan Ironworks no Modern e Gitaxian Probe e Deathrite Shaman no Legacy. Ao contrário de jogos como Hearthstone - um jogo de cartas estritamente online, e que passou por muito mais "bans" do que Magic nesse mesmo tempo - não é possível alterar o texto de uma carta física. Quando tivemos a onda de Midrange Hunters a Blizzard precisou tomar uma ação ao Urubu Faminto e Leeroy Jenkins nerfando-os. No caso de um jogo de cartas físico, é necessário excluir essa carta do jogo como tivemos o Inverno Eldrazi no nosso amado Modern com a presença de Eye of Ugin ou a presença de Mardu Veículos e Jeskai Copycat com Saheeli Rai e Felidar Guardian. Mas afinal o que motiva o arrependimento de um desenvolvedor de jogos para retirar uma carta?

Vamos começar por Gitaxian Probe. Temos um histórico dessa carta sendo banidas em todos os formatos (Modern e Legacy) e restrita (Vintage). E acredito que as razões do ban dessa carta em específico no Pauper diferem um pouco do motivo pelo qual foi banido no Legacy em Julho de 2018. Gitaxian Probe sempre foi considerada uma carta de power-level muito alto. Em um jogo que te obriga a ter 60 cartas em um deck, jogar com 56 te permite ter uma estratégia muito mais consistente, assim como seria muito mais fácil tirar "mãos altas" no poker como um flush (cinco cartas de mesmo naipe) se tirassemos um naipe inteiro do baralho antes do jogo. "Ah mas o custo de 2 de vida impacta o jogo contra burn". Concordo plenamente, sabendo a sua mão inteira por 2 de vida eu sei o que anular e com o que interagir. Não somente eu aumento minhas chances de tirar um flush como também inutilizo todos os seus blefes dentro de qualquer aposta que fizermos. Esse foi um dos motivos principais do banimento no Legacy, um formato em que a dinâmica de impedir o outro de executar sua estratégia é uma peça central para jogar. Dentro do Pauper, Gitaxian Probe permitia ao jogador utilizar um menor número de lands que o normal, as estratégias que utilizavam Gitaxian Probe eram Burn com 16 lands e UB Delver com 11 lands que produzem cor, ao contrário de estratégias como Boros Monarca e Tron, com 21 lands e 23 lands, respectivamente.

Gush, por sua vez entra na categoria das cartas que permitem também um menor número de lands que o normal e, ao mesmo tempo, torna Foil uma ameaça verdadeira. O banimento de Gush tem sido discutido durante muito tempo dentro do Pauper, sendo restrita no Vintage, possuindo algumas comparações bem toscas com Ancestral Recall (sim, a carta do Power9). "Mas Thoughtcast também já foi comparado com Ancestral Recall", calma lá padawan. Thoughtcast necessita de cinco artefatos e é sorcery, Gush é instant e depende de somente duas ilhas e malandragem na cabeça. Você se expõe muito menos a counters com Gush por poder flutuar a mana também.

E por fim, temos Daze. Ela entra na categoria de cartas que permitem jogar estratégias que requerem pouquíssimas lands no deck e sempre foi uma carta para se "jogar em volta de". Land Grant deixou de ser utilizado nas listas de Elfos pelo medo de perder os primeiros land-drops. Todos os decks sempre precisavam ter cuidado com a sequênciação das mágicas com medo de tomar o counter. Entretanto, como diria um antigo jogador da minha cidade "na minha humilde opinião fecal" não era uma carta que saia de controle como as outras duas.

Lembra que no começo do artigo eu disse que o último ban no pauper foi com Peregrine Drake? Pois bem, durante o metagame desse pauper as melhores estratégias do formato jogavam em torno de Ghostly Flicker + Peregrine Drake + Mnemonic Wall para ganhar os jogos. Os jogos começaram a se tornar repetitivos, divididos em U/R Control Drake, Tron Drake, Familiars Drake. Da mesma forma, não existia uma necessidade de sempre se jogar em torno de Delver of Secrets // Insectile Aberration + Gush + DazeJogos que se tornam repetitivos são ruins para qualquer jogo de cartas e acaba limitando tanto a possibilidade de construções de decks (azuis) quanto inibe a possibilidade de outros decks existirem.

"Ah mas porque não baniram Foil?", como já foi constado no artigo da Wizards e no meu comentário de Gush acima, entre as duas cartas (Foil/Gush), a segunda era o que tornava a primeira problemática. Para o uso efetivo de Foil agora talvez as pessoas comecem a usar Deprive ou utilizem cartas que nunca vimos antes como Fathom Seer. Talvez ocorra o reprint de Thwart em um futuro próximo. O futuro é sombrio e incerto. Fui criticado (e com razão) quando disse que os deck de Delver se manteriam no Legacy após o banimento de Deathrite Shaman mas a ideia permanece a mesma: a razão da existência do Delver no pauper ou em qualquer outro formato não depende de Gush, Daze, Gitaxian, Probe ou do Xamã, mas de uma estratégia consistente com uma quantidade boa de cantrips, mágicas instantâneas e feitiços. Delver sempre foi a personificação de cientista maluco que se entrega completamente para atingir os objetivos, quando os animais que ele experimentava morreram, ele continuou a fazer testes em si mesmo até atingir uma evolução. Talvez seja hora de experimentar também um pouco.

Conclusões: o que o horizonte trará?

Modern Horizons sai em menos de um mês do momento em que estou publicando esse artigo e com certeza teremos cartas novas para o pauper. Sim, existe o medo de ver decks como Boros Monarca e Tron dominarem o formato mas acredito que o formato se tornará mais saudável com o banimento das cartas. Acho provável que agora será mais comum a presença de Land Destructions nos sideboard dos decks por afetarem tanto Boros Garrison como o trio de Urza. Molten Rain, Thermokarst, Choking Sands sempre estiveram aí, agora é somente uma questão de continuarmos a analisar os resultados do Magic Online. Sim, Gush era uma carta de difícil acesso e era relativamente cara para o pauper mas esse tópico eu quero encaminhar para uma futura discussão semana que vem.

Obrigado pela leitura.

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