O "power level" de uma carta

Escrito por Buffix
Publicado em 07/05/2019
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Saudações, viajante!

Recentemente um artigo publicado no site do MIT elegeu o nosso querido jogo de papelão como sendo o jogo mais complexo do mundo (Disponível em: www.technologyreview.com/s/613489/magic-the-gathering-is-officially-the-worlds-most-complex-game/). Segundo o autor do estudo, Alex Churchill, ao contrário de outros jogos como xadrez e poker os resultados de uma partida entre dois planinaltas são impossíveis de serem computadas pela quantidades de variáveis possíveis dentro do jogo. Para um desenvolvedor de jogos como a Wizards of the Coast isso é a prova de que apesar de existir um livro de regras que determinam as formalidades do jogo, existem caminhos sempre novos a serem explorados com mecânicas, variedades de decks e satisfação do consumidor em fazer um Karn Liberto turno 3 ou flipar um Investigador de Segredos // Aberração Insetídea no segundo turno. 

O tópico de hoje tem como intuito discutir o "valor" adquirido de uma carta durante o jogo e porque ele varia tanto ao contrário de outros jogos. Para iniciar a discussão, gostaria de apresentar um conceito advindo de outro jogo de cartas famoso: poker. Para os jogadores de poker profissionais, que tentam ganhar uma renda a partir disso, é sempre necessário visar os ganhos a longo prazo dentro da mesa. Não adianta arriscar com um blefe todas as mãos ruins ou sempre apostar todas as fichas com mãos boas porque isso permite aos seus oponentes fazer uma leitura muito clara da sua estratégia e eventualmente, limpar suas fichas. Um dos conceitos normalmente usados pelos jogadores é o chamado expected value (valor esperado em Joel Santana).

O exemplo mais simples desse conceito é analisar um jogo com uma moeda: toda vez que você tira cara você perde 10 reais, e toda vez que você tira coroa, você ganha 20 reais. "Que jogo idiota" vocês devem estar pensando, mas logo irão entender o motivo. A fórmula pra calcular o valor esperado dessa aposta é a seguinte:

EV = (ganho possível) * (probabilidade de vencer) - (perda possível) * (probabilidade de perder)

Traduzindo para o nosso jogo:

EV = (20) * (0,5) - (10) * (0,5)

EV = 10 - 5

EV = + 5 reais

Logo o valor esperado depois de 100, 200 jogos como esse seriam de 5 reais. Toda vez que o EV for um valor positivo, essa aposta irá gerar lucro no longo prazo enquanto que um EV de valor negativo irá gerar uma dívida no longo prazo. Enquanto que no poker existem possibilidades finitas e valores de aposta definidos, isso não é possível de se traduzir para uma linguagem de Magic. Pelo menos não de forma literal.

Recentemente durante o Pauper MCQ - MagicFest Los Angeles tivemos a presença no top 8 de um deck que estou no processo de construção: o Esper Familiars.

 

Não vou entrar muito em detalhes acerca da estratégia do deck mas gostaria de apontar duas coisas importantes: o piloto do deck, Joseph Hourani, é conhecido como um dos principais mestres desse deck, possuindo inúmeros vídeos explicando matchups e gameplays em campeonatos no Magic Online (420Dragon). E a segunda coisa que gostaria de apontar é uma carta em específica da lista utilizada por Joseph: Kirtars Desire. Durante o jogo das semifinais contra William Yoder que usava um UB Delver (um dos deck mais temido no pauper pela presença de Frustrar e Gurmag Angler no momento em que escrevo esse artigo), um dos comentários feitos pelos narradores me chamou atenção: nessa match o valor de uma Kirtars Desire se equivale a uma Espadas em Arados. Por não possuírem forma de interagir com o encantamento além de anular, a criatura entra em um estado de "exílio" no campo de batalha. Dessa forma, dentro dessa matchup em específico, essa carta se torna um removal mais eficiente do que Journey to Nowhere, mais comum em listas com branco como Boros Monarca. E acredito que, ao pensar na lista para o MCQ, o pensamento de Joseph Hourani foi justamente mirando os Gurmags do UB Delver, uma vez que, outros decks como Bogles, Boros Monarca, Tron e Mono U Delver conseguem de alguma forma interagir para que Kirtars Desire tenha quase que valor nenhum.

Quando comparamos cartas dentro de outros formatos, como Foil e Force of Will, Raio e Skewer the Critics, Pteramander e Gurmag Angler, estamos constantemente fazendo uso do conceito de EV para avaliar as cartas. "Acredito que no longo prazo, essa carta irá me gerar lucro semelhantes à determinada carta dentro do formato". Por isso que sideboards são tão mutáveis quanto as próprias listas de maindeck, que se reinventam constantemente dependendo das matchups que um determindo deck pretende enfrentar. Por fim, imaginem como seria tentar explicar esse conceito de comparar cartas tão distintas em diferentes formatos para uma máquina? Acho que um dia os computadores irão conseguir fazer coisas maravilhosas, mas, por enquanto, somente nós com polegares opositores e serotonina no cérebro iremos dominar esse reino de cartas.

Obrigado pela atenção.

Buffix aka "Watanaka".

 

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