Children of the Nameless - Capítulo 13

Escrito por MYPCards
Publicado em 18/03/2019
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Capítulo 13: Tacenda


Ele falou sério.

No meio da missão para salvar a aldeia, enquanto a noite passava e cada momento aproximava Tacenda de perder sua visão, Lorde Davriel Cane tirou uma soneca.

Depois de se distanciar alguns quilômetros do priorado, Davriel expulsou Tacenda e os demônios da carruagem, abaixou as cortinas, depois se enrolou em seu manto. Miss Highwater fechou a porta com um estalido, balançando a cabeça e sorrindo.

“Eu não posso acreditar nisso”, disse Tacenda.

“São duas e meia da manhã”, disse Miss Highwater. “Ele é um homem poderoso quando decide que quer ser um, mas ainda é mortal. Ele precisa dormir e esta noite os preparativos para a hora de deitar-se foram interrompidos por uma criança com uma adaga improvisada.”

Dentro da carruagem, Davriel começou a roncar baixinho.

Crunchgnar e Miss Highwater se dirigiram a um buraco ao lado da estrada onde alguém havia empilhado pedras para fazer uma fogueira. Era provavelmente uma parada comum no caminho para o Pântano. Ela mesma podia ter parado aqui antes, mas suas viagens nessa direção sempre foram durante o dia, quando ela estava cega.

Os demônios arrastaram um pouco de madeira, então Crunchgnar tocou a testa por um momento, acendendo uma pequena chama na ponta do dedo. Em pouco tempo ele tinha uma fogueira convidativa crepitando na cova. Miss Highwater sentou-se com a lanterna atrás dela, empertigando-se sobre uma pedra e examinando seu livro-razão, fazendo algumas anotações em seguida.

Tacenda sentou-se perto das chamas, e sentiu o cansaço subindo por ela também. Ela estava acostumada a ficar acordada a noite toda, mas… tinha sido uma longa noite. Exaustiva, mental e emocionalmente. Ela não queria se deixar adormecer, não estando sozinha com os demônios, particularmente Crunchgnar.

Ainda assim, apesar de seu rosto retorcido, chifres proeminentes e olhos vermelho-sangue, mesmo ele parecia de alguma forma… humano enquanto se agachava ao lado do fogo, se aquecendo. “Eu nunca gostei do mundo superior”, murmurou ele. “Muito frio. Eu não entendo como vocês humanos podem viver assim, meio congelados todas as noites.”

Tacenda encolheu os ombros. “Não temos muita escolha. Embora eu suponha que, se realmente quiséssemos ir a algum lugar mais quente, você ficaria feliz em nos levar até ele…”

Crunchgnar sorriu. “Duvido que você acharia o fogo do inferno do seu gosto, garota. Demônios menores como eu são geralmente forçados a ceder nossas presas aos nossos senhores. Eu tomei as almas de oito pessoas durante a minha existência, mas só me alimentei com uma pequena porção de cada uma delas.”

“Você nunca se sente mal com isso? Empatia pelas almas que você está roubando? Culpa pelo que você fez?”

“Fui criado para fazer isso. É o meu lugar no mundo. Por que eu deveria sentir culpa?”

“Você poderia ser outra coisa. Algo melhor.”

“Eu não posso ignorar a minha natureza, do mesmo jeito que você, menina.” Crunchgnar apontou com a cabeça em direção à carruagem. “Ele gosta de fingir que qualquer um pode escolher seu próprio caminho, mas eventualmente ele terá que pagar as dívidas que possui. E sua ‘liberdade’ durará tanto quanto uma brasa separada de seu fogo.”

Tacenda mudou de posição em sua rocha. As palavras pareciam desconfortavelmente parecidas com o que ela dissera para Davriel antes. Eu fui escolhida pelo Pântano. Eu devo seguir meu destino…

“Você entende”, disse Crunchgnar. Inferno, aqueles olhos dele eram desconcertantes. Pelo menos Miss Highwater tinha pupilas, ainda que fossem vermelhas. Os olhos de Crunchgnar eram inteiramente carmesins. “Você é mais esperta do que ele, com toda aquela convicção que ele tem.”

“Eu…”

“Nós poderíamos fazer um acordo”, disse Crunchgnar. Devo manter Davriel vivo por mais dezesseis anos, mas talvez pudéssemos encontrar uma maneira de atordoá-lo. Mantê-lo em cativeiro. Ele posa de poderoso, mas não tem poder próprio, apenas os que rouba. Nós poderíamos aprisioná-lo e você poderia se tornar a Senhora da Mansão. Governe em seu lugar.” O demônio permaneceu parado ao lado do fogo. Iluminado por sua luz áspera, ele lançava uma longa e terrível sombra na floresta. “Eu serviria você e lidaria com qualquer um que questionasse sua autoridade. Eu não faria nenhuma tentativa por sua alma; eu quero apenas a dele. Em dezesseis anos, eu partiria. Sem truques.”

Crunchgnar aproximou-se e Tacenda se encolheu diante dele. Ela mordeu o lábio e começou a cantarolar.

Ele se encolheu ao som da Canção de Proteção. “Não há necessidade disso”, rosnou ele.

Tacenda cantarolou mais alto e as cordas em sua viola começaram a vibrar.

“Crunchgnar”, disse Miss Highwater,” Alguma criatura está fazendo sons ao norte. Você deveria ir ver o que é.”

“Pense na minha oferta,” disse ele a Tacenda, depois apontou para Miss Highwater. “E ignore aquela ali caso ela finja oferecer-lhe um acordo melhor. Ela pouco merece ser chamada de demônio nos dias de hoje.”

“E você pouco merece ser chamado de sapiente”, disse Miss Highwater. “Mas nós não jogamos isso em sua cara, jogamos? Seja um bom menino e faça o que eu digo.”

Ele rosnou baixinho, mas seguiu pela vegetação rasteira. Assim que saiu da luz, ele se moveu com um silêncio que surpreendeu Tacenda. Apesar de toda a sua corpulência, havia uma graciosidade perigosa a respeito dele.

Tacenda deixou sua música morrer e a viola ficou imóvel. “Obrigado”, disse ela a Miss Highwater.

“A música estava machucando a mim também, criança”, respondeu ela. “Pena, visto que a música parece envolvente. Eu gostaria de ouvir você cantar uma música completa, algo que não buscasse me destruir. ”

Tacenda olhou para o fogo, lembrando-se de dias melhores. Dias em que ela havia cantado outras músicas, encorajada por Willia. Canções de Alegria para os trabalhadores nos campos ou cantadas quando ela sentia o calor do abraço de sua mãe. Canções agora mortas.

Tacenda inclinou-se para a frente, aquecendo as mãos em uma fogueira iniciada com o calor da chama de um demônio. “Você… você concorda com Crunchgnar? Sobre a sua natureza?”

Miss Highwater bateu em sua bochecha com o lápis. Seus olhos refletiam a luz do fogo, parecendo queimar. “Você sabia”, disse ela finalmente, “que eu fui o primeiro demônio que ele invocou, assim que chegou a esta terra?”

Tacenda balançou a cabeça.

“Nenhum de nós jamais ouviu falar dele. Nós havíamos acabado de ser libertados de nossa prisão, onde passamos o que pareceu uma eternidade, apesar de ter sido um tempo relativamente curto. Uma vez livres, começamos ansiosamente a procurar estabelecer contratos com os mortais.

“Eu acharia que daria um jeito bem rápido nesse dândi com roupas exageradas e uma maneira preguiçosa de falar. Me apressei para firmar o contrato e me dediquei totalmente a seduzi-lo. Mas ele mal olhou para mim antes de me enviar para contar o dinheiro no cofre do antigo lorde. Nos dias seguintes, tentei todos os truques que conhecia. Mas toda vez que me via, ele me dava outra tarefa.

“‘Oh, Miss Taria, aí está você”, dizia ele, como se esse fosse de alguma forma meu sobrenome. “Tenho procurado os recibos dos impostos da aldeia e parece que muitos deles têm pago em mercadorias. Escambo faz meu cérebro doer. Você poderia conferir se esse livro-razão está dentro dos conformes?” Ela balançou a cabeça, como se ainda não conseguisse acreditar que isso tivesse acontecido. “Lá estou eu — parecendo positivamente radiante — e ele simplesmente passa por mim e me entrega uma lista com os preços do gado!”

“Isso… deve ter sido frustrante, imagino?” disse Tacenda, tentando não corar demais.

“Foi absolutamente enfurecedor“, disse Miss Highwater. “Eu finalmente exigi saber por que ele me escolheu, dentre todos os demônios, para este trabalho. Ele invocou a Devoradora de Homens para equilibrar suas contas? E você sabe o que ele fez? Ele sacou alguns papéis. Cópias dos contratos que fiz no passado. Os demonologistas fazem isso, sabe? Eles invocam o contrato, fazem uma cópia e depois leem os detalhes para estudar sua arte.

“Bem, ele tinha cerca de dez dos meus contratos antigos, e ele absolutamente devaneou sobre eles. Falou sobre quão hábil minha redação havia sido, sobre como eu havia iludido meus mestres anteriores. Para ele, os contratos eram as coisas de verdadeira beleza.”

Miss Highwater sorriu e parecia haver uma verdadeira ternura na expressão enquanto ela olhava para a carruagem de Davriel. “Ele não se importava com o que eu parecia. Ele me invocou especificamente porque achava que eu seria boa em fazer sua contabilidade. E ele estava certo. Sou boa com contratos; eu sempre me orgulhei disso. Isso me tornou uma excelente intendente.

“Eu não tenho vergonha do que sou ou da minha aparência. Mas… é bom ser reconhecida por outra coisa. Uma coisa da qual eu sempre me orgulhei, mas praticamente todas as outras pessoas — mortais e demoníacas — ignoravam. Então, não, eu não acho que Crunchgnar esteja completamente certo. Talvez todos nós tenhamos sido criados para um propósito específico, mas isso também não nos impede de encontrar outros propósitos.”

Tacenda assentiu e olhou para as chamas, pensando nelas até que um som na floresta próxima a fez pular. Era apenas Crunchgnar voltando para a luz.

“Banshee”, disse ele, apontando com o polegar por sobre o ombro. “Não parece ter relação. Eu a assustei, mas talvez seja bom acordar Davriel de qualquer maneira.”

“Vamos dar a ele mais alguns minutos”, disse Miss Highwater. “Esse feitiço da prioresa terá sido doloroso de absorver e ele poderia usar o resto se iremos enfrentar o Pântano.”

“Você tem certeza”, disse Crunchgnar, “de que ele não invocou você para ser sua mãe em vez de sua amante?”

“Felizmente para mim, você já assumiu a posição de cão de estimação.”

Tacenda estremeceu com os insultos trocados, mas felizmente os demônios ficaram em silêncio enquanto Crunchgnar acrescentava algumas toras ao fogo. Eles não pareciam muito preocupados que um monstro como uma banshee estivesse à espreita na floresta, mas quem poderia dizer o que assustaria um demônio?

Não parecia certo estar sentada aqui sem tocar música. Embora ela tivesse passado muitas noites sozinha, iluminada por uma fogueira solitária, ela havia passado aquelas horas tocando pelo menos uma variação da Canção de Proteção.

Ela havia manifestado aquilo pela primeira vez ao proteger sua família. Havia surgido sem que ela precisasse aprender. Simplesmente aconteceu. As músicas eram uma parte instintiva dela. Não seria isso prova suficiente do seu destino? Que a razão pela qual ela existia era cantar essa canção?

Isso… uma voz parecia sussurrar dentro dela. E mais…

Eventualmente, Tacenda ergueu sua viola e começou a tocar uma melodia suave. Não a Canção de Proteção, mas algo mais triste, mais solene. Crunchgnar olhou para ela quando ela começou a cantar, mas essa melodia não era destinada a afastá-los. Era uma música que ela nunca havia cantado, mas que parecia adequada para o momento.

Ela fechou os olhos e se deixou absorver pela música. Nesse estado, as canções pareciam surgir através ela, como se sua alma fosse o instrumento e a viola fosse apenas um amplificador.  Tempo, lugar e o seu eu se fundiram quando a música começou a vibrar as cordas por conta própria.

Ela cantou sobre perda. Sobre a morte e o progredir do tempo. Sobre florestas imutáveis que observavam aldeias surgirem e caírem, fés ardendo e morrendo,  crianças crescendo até tornarem-se anciãos, sendo então esquecidas à medida que gerações se acumulam umas sobre as outras e fogueiras infinitas queimavam até tornarem-se cinzas. Sobre uma garota que foi forçada a interromper sua música alegre e, em vez disso, passou a cantar apenas para a noite.

A música expandiu-se a partir dela e a viola não foi seu único receptáculo. Os galhos das árvores vibravam, as pedras murmuravam, a carruagem sacudia como uma percussão silenciosa . Sua música encontrou todos os caminhos disponíveis e ela não era mais capaz de controlá-la do que seria capaz de controlar o vento ou a lua.

Mas lentamente… ela mudou. Aproximou-se mais da música que ela outrora conheceu: aquela que sua irmã amava. Tacenda tentou alcançá-la, mas… não encontrou nada.

Ela parou, com os restos da música ecoando em sua mente. Ela suspirou, depois olhou para cima.

Os demônios estavam boquiabertos. O livro-razão de Miss Highwater havia tombado de seus dedos e caído no chão sem que ela notasse. Crunchgnar olhou para ela, com a mandíbula frouxa.

“O que aconteceu?”, perguntou Miss Highwater. “Senti que estava voando…”

“Eu…” sussurrou Crunchgnar. “Eu estava ajoelhado nas poças de lava de Dawnhearth e os fogos… os fogos estavam extinguindo-se…” Ele tateou seu corpo, então olhou em volta, como se estivesse surpreso por encontrar-se na floresta.

A porta da carruagem se abriu bruscamente e Davriel saiu, deixando seu manto para trás. Ele caminhou em direção a Tacenda, com os olhos arregalados.

Ela recuou quando ele a agarrou pelos ombros.

“O que foi isso?” intimou ele. “O que você fez?”

“Eu… eu só… cantei…”

“Isso não foi uma simples proteção”, disse ele, e ela viu seus olhos borrarem com a fumaça branca. “O que você é?”

Algo bateu na mente de Tacenda. Uma força esmagadora. Ela sentiu mãos alcançando seu cérebro, tomando conta de sua alma. Ela sentiu…

NÃO.

A música surgiu nela e ela gritou. Uma explosão de luz brilhou a partir dela, pulverizando fragmentos como centelhas no céu noturno ao impelir Davriel para longe dela. Ele foi arremessado para trás cerca de três metros antes de chocar-se na lateral da carruagem, estilhaçando a madeira. Ele caiu no chão da floresta com um baque surdo.

Crunchgnar se levantou, com a mão buscando a espada, mas foi Miss Highwater quem chegou primeiro, pressionando uma adaga fria na garganta de Tacenda.

“O que você fez?” sibilou a mulher demônio.

“Eu…” disse Tacenda. “Eu não…”

Davriel se mexeu. Ele se levantou do chão de forma letárgica. Com folhas aderidas à camisa, ele sacudiu a cabeça.

Tacenda sentia um pânico crescente, com uma faca em seu pescoço.

Davriel se levantou e limpou a poeira, depois se esticou. “Ai!”, exclamou ele, então olhou para sua carruagem. “Miss Highwater, acredito que eu tenha estragado esta madeira com uma mossa feita pelo meu crânio.”

“Nenhuma surpresa”, respondeu ela. “Sempre foi óbvio para mim qual dos dois era mais duro.”

Ela não removeu a faca do pescoço de Tacenda.

Crunchgnar desembainhou sua espada tardiamente. “Hum… Devo matá-la?”

“Por mais divertido que fosse assistir a magia dela te despedaçar,” disse Davriel, “você ainda pode ter utilidade para mim. Então não.”

Ele caminhou até Tacenda. Ela sentia-se tão nervosa que tinha certeza de que a batida forte de seu coração faria com que a faca de Miss Highwater escorregasse e derramasse sangue.

Davriel fez um suave aceno para o lado com a cabeça e Miss Highwater afastou a adaga, fazendo com que ela desaparecesse em uma bainha em seu cinto. Ela pegou o livro-razão como se nada tivesse acontecido.

Davriel, no entanto, se ajoelhou diante de Tacenda. “Você tem alguma ideia do que é que se esconde dentro de sua mente?”

“As canções”, disse Tacenda. “Você tentou roubá-las! Você tentou tomar meus poderes, como você fez com aqueles caçadores!”

“Uma perda de tempo.” Davriel estalou os dedos, fumaça verde escura coloria seus olhos. Uma pequena luz brilhou, formando uma espécie de escudo brilhante de energia verde acima de sua mão. “Eu roubei uma bênção de proteção simples, que é o que eu esperava encontrar dentro de você. Mas quando eu a toquei, encontrei algo por trás dela, algo mais profundo. Algo grandioso. Ele olhou para Tacenda, fazendo o escudo desaparecer. “Eu repito. Você tem alguma ideia do que é isso?”

Ela balançou a cabeça.

“Ele falou com você?” peguntou ele.

“Claro que não”, disse ela. “A menos que… a menos que você conte as canções. Elas parecem falar através de mim.”

Ele franziu o cenho, depois se levantou e voltou para a carruagem.

“Davriel?” disse Tacenda, levantando-se.

“Não me lembro de ter lhe dado permissão para usar meu primeiro nome, garota.”

“Não me lembro de ter lhe dado permissão para entrar em minha mente.”

Ele fez uma pausa e depois olhou para trás. Ao lado, Miss Highwater ria.

“Você sabe o que ela é?”, perguntou Tacenda. “A coisa que você diz que sentiu dentro de mim?”

Ele subiu de volta na carruagem. “Venha. É hora de visitar o seu Pântano.”

Continua (...)

Agradecendo muito ao pessoal da mythologica, quem está fazendo esse trabalho impressionante de tradução!!

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